Berlim
Inflexível sobre o processo da crise na Grécia, a chanceler alemã está cada vez mais isolada, tanto no plano político como no plano relativo aos meios económicos.
Há um piloto no avião? A pergunta, feita aos governantes da zona euro perante a crise grega, ressoa na Alemanha ainda com mais acuidade. Desde há vários dias, a chanceler Ângela Merkel é criticada por todos os lados pela sua falta de estratégia no processo grego. Nem os meios económicos alemães nem a União da Democracia-cristã (CDU), o próprio partido da chanceler , fazem bloco a apoiá-la.
No fundo, os debates cristalizam-se em torno da questão de uma possível reestruturação da dívida grega. Como frequentemente, a chanceler defende uma posição ambígua. Ela defende que os credores privados, bancos, as companhias de seguros, os gestores de activos – assumam a sua parte da carga num segundo plano de salvamento da Grécia.
Para tanto, diz encarar “com cepticismo” a opção de uma reestruturação radical, que compreenderia uma redução, por depreciação, do montante da dívida. Esta solução “tem por efeito negativo que os Estados – em dificuldade – talvez não vão fazer mais esforços “, explicou numa entrevista dada à ARD, a primeira cadeia de televisão alemão, no Domingo, 17 de Julho.
Na oposição, os sociais-democratas (SPD) dramatizaram o desafio dirigindo – segunda-feira uma carta à Sra. Merkel, em que lhe propõem “uma união sagrada” no Bundestag sobre o processo da dívida grega. Mas este apoio político tem o seu preço, tem a sua contrapartida: o SPD exige em troca certas contrapartidas. Reclama a instauração de uma taxa sobre as transacções financeiras, a emissão de eurobonds, s obrigações comuns que permitiriam repartir a carga da dívida sobre o conjunto dos países europeus, e um incumprimento parcial da Grécia.
Esta última opção encontra cada vez mais apoios na Alemanha, nomeadamente entre os meios económicos. Assim Wolfgang Franz, presidente do “conselho dos sábios” do governo para as questões de economia, considera “inevitável” uma redução do montante da dívida. “Abatimento de cerca de 50% sobre as obrigações existentes seria desejável. A dívida da Grécia reduzir-se-ia assim de 160 % – do PIB – para 106% “, escrevem os sábios deste conselho numa tribuna no diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, na quarta-feira.
“Um plano Schuman”
O mesmo tipo de eco se ouve do lado da federação das indústrias alemã, a BDI. O seu presidente, Hans-Peter Keitel, recebeu no início de Julho o ministro das finanças grego para evocar um possível apoio da indústria alemão à Grécia, a fim de aliviar o país e de lhes permitir reencontrar a sua competitividade. De acordo com o semanário Bild am Sonntag, Keitel enviou uma carta aos quadros da indústria alemã defendendo “uma redução do nível da dívida grega – a um nível sustentável “. “A Grécia tem necessidade de um plano de actividades sob a forma de um plano Schuman “, escreve, em referência ao programa que permitiu à indústria mineira e metalúrgica alemã levantar-se depois da segunda guerra mundial e que constituiu a primeira etapa da construção europeia.
A referência histórica é cheia de sentido. Porque, para além das discussões em torno da melhor maneira de vir ajudar a Grécia, é a falta de visão europeia de Ângela Merkel que está actualmente sob o fogo das críticas de uma grande parte da direita alemã. Vários membros do CDU comoveram-se quanto ao futuro da orientação pro-europeia que faz parte do seu próprio partido, que consideram posta actualmente em grandes dificuldades por Ângela Merkel.
O próprio ex-chanceler Helmut Kohl saiu da sua reserva. Ele, que é considerado como um dos grandes artesãos da construção europeia também expressou as suas apreensões. Para Horst Teltschik, o seu ex-conselheiro para os negócios externos, a chanceler “ não desenvolve actualmente nenhuma perspectiva para o futuro da Europa, enquanto que é precisamente o que é necessário fazer hoje. A uma crise sistémica, a Europa deve encontrar uma resposta sistémica “, declarou ao diário Tagesspiegel.
Cécile Boutelet, Mme Merkel critiquée pour son manque de vision européenne, Le Monde, 21.07.2011
