Fui há momentos buscar à estante o Dicionário de Música e li ao Alexandre a descrição do enterro de Mozart possivelmente escrita pelo Lopes Graça:
«A família, por conselho do rico Van Switen, fez-lhe um enterro de pobre; de pobre foi o serviço fúnebre; e, antes de chegado o pobre cortejo ao cemitério, como uma forte tempestade de neve se desencadeasse, os mesmos amigos abandonam o féretro aos cuidados de dois gatos-pingados, que o depositam na casa mortuária, donde no dia seguinte é lançado, sem mais cuidados, à vala comum, nada ficando a assinalar a última jazida do imortal autor de A Flauta Mágica.»
O Alexandre foi-se deitar, indignado:
– Não pode ser! É mentira!
De facto na música de Mozart até a morte é luz.
Não lhe cabe a neve.
(in José Gomes Ferreira, Dias Comuns,V – Continuação do Sol, Publicações Dom Quixote)
