A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 1 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

Encontros das cadeiras  Jean-Monnet Bruxelas, 30 et 31 mai 2011 – A crise, a Europa, e o Mediterrâneo.

 

Prof. Jean-Paul Guichard,  Cadeira  Jean-Monnet[1] Universidade de Nice Sophie  Antipolis e Antoine

BRUNET, AB marchés

 

 

A palavra “proteccionismo” não é muito bem vista nos dias de hoje: os guardas  da ortodoxia neoliberal  dizem-nos que o que se deve fazer   é “sobretudo não voltar ao proteccionismo” e que convém, pelo contrário, continuar  obstinadamente a obra, empreendida  desde há  muito tempo sob a égide da Organização Mundial do Comércio (OMC), de liberalização do comércio mundial! De acordo com os neoliberais  a crise económica que se começou  a manifestar-se em 2007 resulta de uma falta de  governança dos sistemas bancários e financeiros que os Governos devem corrigir de maneira harmonizada, nomeadamente graças às reuniões do G20 no decorrer  das quais todos se protegem e evitam  muito bem  abordar assuntos “escabrosos” que correriam o risco de pôr em questão a participação da China, especialmente a  questão das taxas de câmbio.

 

No entanto, deve-se bem ter em conta que a crise económica, que atinge  principalmente os países desenvolvidos[2], de modo algum já se pode dar por acabada  neste ano de 2011. Contrariamente ao que é geralmente dito, esta crise não resulta principalmente das desordens da finança, excepto se estivermos a  confundir causa real que provoca a crise com a  causa “que a desencadeia[3] » ; esta crise resulta da liberalização do comércio mundial que, desde que  a China pôde  entrar na  OMC em 2001, lhe permitiu  desenvolver  plenamente a aplicação da sua estratégia mercantilista  de guerra económica que visa, nada mais nada menos, assegurar-lhe a hegemonia mundial.

 

Esta estratégia é fundada sobre a manipulação da sua moeda para que a enorme subavaliação da sua moeda, o yuan,  lhe conceda  uma vantagem considerável nas trocas internacionais; é uma estratégia de proteccionismo “monetário” que tem exactamente os mesmos efeitos que o proteccionismo “aduaneiro” (Taxas à entrada ou subsídios  às exportações) que a OMC  tem como função  restringir; vê-se, o mundo não pode “voltar ” ao proteccionismo pela simples e boa  razão que este já existe : o problema seria antes pôr-lhe côbro ! No entanto, como não parece possível forçar a China a renunciar a  este proteccionismo agressivo e devastador[4] , seria do interesse dos países que são as suas vítimas protegerem‑se   realmente desta agressão permanente a fim de reequilibrar o seu comércio externo.

 

Na  ausência de uma tal protecção, que a opção de curto termo escolhida seja  a do aventurismo  da criação monetária   americana ou a da recessão  programada consecutiva à procura  impossível de um equilíbrio orçamental como se faz na Europa, isto  levará  inexoravelmente à  continuação de um processo de vassalagem  à  China. Este caminho, infelizmente, já está  bem avançado na Europa, particularmente na Europa do Sul.

 

Estes países estão numa crise grave, assim como os seus países vizinhos  do Mar Mediterrâneo; no entanto, os segundos têm a possibilidade de agir sobre as suas taxas de câmbio respectivas de forma a restabelecer o equilíbrio do seu comércio externo. Pelo contrário , a parte sul da União Europeia parece condenada a défices cada vez mais volumosos  contra os quais todas as políticas de austeridade nada poderão fazer: encontra-se assim levaantada, de facto, a questão  da manutenção do euro.

 

Este, o euro, que devia ser “uma possibilidade para a Europa” se revela antes ser um fardo! Esta consideração não deve contudo conduzir os responsáveis da União Europeia a ocultar o que deve ser, neste período de crise, o seu objectivo essencial: protegerem-se e sairem, por fim,   desta lógica suicida de liberalização do comércio mundial.

 

(Continua)


[1] Antoine Brunet  e  Jean-Paul Guichard são os  autores da obra La visée hégémonique  de la Chine, imperialisme economique, edições Harmattan, 2011.

[2] Muitos países conheceram recessões  mais ou menos marcadas; o facto, para eles, de deixarem de estar em fase de recessão não  significa de modo algum que tenham terminado de estar em  crise! Só um país, mas representa  20% do PIB mundial ( em paridade de poder de compra), é excepção: a China em  que  a taxa de crescimento passou, em 2008, por  um mínimo de 6.5%; qualquer analista convirá que uma taxa de crescimento de 6.5%, não é a crise!

 

[3] A crise em curso já não é mais o resultado das desordens da finança como  a primeira guerra mundial o do atentado de Sarajevo, em 1914.

 

[4] A subavaliação considerável do yuan (a paridade que equilibra deveria ser de três yuans para um dólar) suscita excedentes comerciais gigantescos para a China e défices não mais importantes para os Estados Unidos e para a Europa e são estes que estão na base da desendustrialização que conhecem estes países, que estão na base dos seus défices orçamentais e, finalmente, que estão na base  desestabilização das suas sociedades.

 

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