(Continuação)
2. Finanças públicas: recessão ou aventureirismo
Entre 2000 e 2007, para manter o crescimento, apesar de défices comerciais que entretanto se tornaram gigantescos, os países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos, o Reino Unido e a Europa do Sul, foram obrigados a praticar políticas económicas muito aventureiras de que a actual crise em curso é o seu resultado.
Perante a tomada de consciência da vulnerabilidade das obrigações soberanas que emitem, uma vulnerabilidade reforçada pela hostilidade apresentada pelo principal credor, o Estado chinês, vimos todos nós, no segundo semestre de 2010, os países ocidentais a partilharem entre si duas opções: na Europa, as restrições orçamentais extremas, nos Estados Unidos um laxismo monetário e orçamental muito aventureiro .
a) A Europa
Na Europa, devido à crise de confiança que sucessivamenta a atinge , certos países, nomeadamente os países da Europa do Sul, foram forçados a anunciar e pôr em prática planos de restrições orçamentais extremos. O Reino Unido surpreendeu adoptando um plano de restrições orçamentais ainda mais duro do que o plano de austeridade de Madame Tatcher nos anos 1980; claramente, este país prefere assumir o risco de uma nova recessão para com isso querer evitar a expôr o seu mercado obrigacionista a ter que enfrentar uma crise de confiança.
A própria Alemanha, para surpresa geral, considerou que era obrigada a anunciar medidas muito significativas de restrição orçamental por duas razões, pelo menos; em primeiro lugar a população alemã é reticente à existência de défices orçamentais muito elevados devido a más lembranças históricas; os seus dirigeentes, além disso, temem no final que a Grécia falte parcialmente ao pagamento sobre a sua dívida, o que infligiria perdas sensíveis aos bancos e ao Estado alemão: preferem por conseguinte não sobrecarregar inoportunamente as finanças públicas que estão já de si em situação medíocre.
É um sinal de ma-estar que não engana ninguém: sob a pressão do mercado obrigacionista, a Alemanha diminui os seus efectivos de militares enquanto que a França diminui os seus efectivos de polícias! Vê-se, a desestabilização económica começa a reflectir-se sobre os domínios essenciais que são a segurança externa ou interna, em conformidade com os objectivos da política maquievélica que conferimos ao PCC.
A França singulariza-se permitindo-se adiar para mais tarde as restrições orçamentais significativas quando o seu défice público atinge já 8% do seu PIB em 2010; a França evidentemente concentrou-se em 2010 sobre a adopção da reforma do seu sistema de pensões de reforma: considerou que não podia acrescentar um plano significativo de restrição orçamental porque o clima social não o permitia e que a sua economia não o suportaria; encontra-se por conseguinte no lado oposto ao do Reino Unido; o adiamento para mais tarde das restrições orçamentais tem como contrapartida tornar o seu mercado obrigacionista mais vulnerável.
No total, na Europa, a opção forte que foi tomada, consiste em querer rectificar brutalmente as finanças públicas, enquanto que as economias continuam a estarem convalescentes. A Europa, para manter a confiança dos seus credores em obrigações da dívida pública , entre os quais o Estado Chinês, expõe-se pois a uma possível recessão em 2011 e em 2012.
b) Os Estados Unidos
Depois do plano de reactivação orçamental, no início de 2009, pela módica soma de 787 mil milhões de dólares, os Estados Unidos assumiram, no fim de 2010, uma outra opção que não a da restrição orçamental: “a fuga para a frente” ao mesmo tempo monetária e orçamental. Depois do triunfo nas eleições “a meio-termo” de Novembro de 2010, a Administração Obama assinou um pacto com o partido Republicano: as baixas de imposto sobre o rendimento que foram tomadas provisoriamente pela Administração Bush (2003 – 2010) são finalmente reconduzidas por mais dois anos (2011 e 2012) enquanto que uma baixa do imposto sobre os salários é decidida com uma duração de treze meses (com efeito para 2011; o seu custo é de 120 mil milhões de dólares). Além disso, o elemento mais importante é que não há nenhuma redução da despesa pública; pelo contrário: os subsídios de desemprego excepcionalmente concedidos aos desempregados de longo prazo são reconduzidos até ao final de 2011. No total, o défice público deveria manter-se em 2011 e 2012 a um nível vizinho de 10% do PIB, o que era já o seu nível desde 2008!
Tal audácia orçamental torna muito vulnerável o mercado das obrigações do Estado americano, sobretudo quando se sabe que o Estado chinês detém cerca de 850 mil milhões de dólares de títulos públicos dos EUA. Para fazer face ao risco de uma crise no mercado obrigacionista, o FED anunciou um dispositivo excepcional, dito “de quantitative easing”: está pronto a comprar títulos públicos para pelo menos 600 mil milhões de dólares, durante oito meses. Ninguém duvida que as três agências americanas de rating vão a partir de agora ficarem em muita dificuldade se querem manter a nota AAA que atribuem ao Estado americano.
Os Estados Unidos privilegiam a manutenção da retoma, limitando ao mesmo tempo o seu risco no mercado obrigacionista, solicitando de maneira ultrajante o estatuto de moeda de reserva do dólar. Os Estados Unidos tomaram assim a opção de uma fuga para a frente de forma deliberada em matéria monetária.
Vê-se “a solução europeia” conduziu directamente a uma recessão e, talvez mesmo, tenha conduzido a graves dificuldades para o euro; pelo contrário, “a solução americana” poderá conduzir a uma crise no mercado das obrigações e a uma perda do privilegiado estatuto do dólar. Para evitar este dilema, importa que os países desenvolvidos se entendam para impôr um reequilíbrio das trocas comerciais mundiais, de modo que os seus défices possam ser progressivamente reabsorvidos. E devem fazê-lo mesmo que para isso tenham que saír da OMC.
(Continua)
