A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 3 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

2.  Finanças públicas: recessão  ou aventureirismo

 

 Entre 2000 e 2007, para manter o crescimento, apesar de défices comerciais  que entretanto se tornaram gigantescos, os países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos, o Reino Unido e a Europa do Sul, foram obrigados a  praticar políticas económicas muito aventureiras  de que a actual  crise em curso é o seu resultado.

  Perante a tomada de consciência da vulnerabilidade das obrigações soberanas que emitem, uma vulnerabilidade reforçada pela hostilidade apresentada pelo  principal credor, o Estado chinês, vimos todos nós,  no segundo semestre de 2010, os países ocidentais  a partilharem  entre   si duas opções: na  Europa, as restrições orçamentais extremas, nos Estados Unidos um laxismo monetário e orçamental muito aventureiro .

 

a)    A Europa

 

Na  Europa, devido à crise de confiança que sucessivamenta a atinge , certos países,  nomeadamente os países da Europa do Sul, foram forçados a anunciar e pôr em prática planos de restrições orçamentais extremos. O Reino Unido surpreendeu adoptando um plano de restrições orçamentais ainda  mais duro do que o plano de austeridade  de Madame  Tatcher nos anos 1980; claramente, este país prefere assumir  o risco de uma nova recessão  para com isso  querer  evitar  a  expôr o seu mercado obrigacionista  a ter que enfrentar   uma crise de confiança.

A própria Alemanha, para  surpresa geral, considerou que era obrigada a anunciar medidas muito significativas de restrição orçamental por  duas razões, pelo menos; em primeiro lugar a população alemã é reticente à existência de défices orçamentais muito elevados  devido a más   lembranças históricas; os seus dirigeentes, além disso, temem no final que a Grécia falte parcialmente ao  pagamento sobre a sua dívida, o que infligiria perdas sensíveis aos bancos e ao Estado alemão: preferem por conseguinte não sobrecarregar  inoportunamente as  finanças públicas que estão já de si em situação medíocre.

É um sinal de ma-estar  que não engana ninguém: sob a pressão do mercado obrigacionista, a Alemanha diminui os seus efectivos de militares enquanto que a França diminui os seus efectivos de polícias! Vê-se, a desestabilização económica começa a reflectir-se sobre os domínios essenciais que são a segurança externa ou interna, em conformidade com os objectivos da política maquievélica  que conferimos ao  PCC.

A França singulariza-se permitindo-se adiar para mais tarde as restrições orçamentais  significativas  quando  o seu défice público atinge já 8% do seu PIB em 2010; a França evidentemente concentrou-se em 2010 sobre a adopção da reforma do seu sistema de pensões de reforma: considerou  que não podia acrescentar um plano significativo de restrição orçamental porque o clima social não o permitia e que a sua economia não o suportaria; encontra-se por conseguinte  no lado  oposto ao do Reino Unido; o adiamento para mais tarde das restrições orçamentais tem como contrapartida tornar o seu mercado obrigacionista mais vulnerável.

No total, na Europa, a opção forte que foi tomada, consiste em querer  rectificar brutalmente as finanças públicas, enquanto  que as economias continuam a estarem  convalescentes. A Europa, para manter  a confiança dos seus credores em obrigações da dívida pública , entre os quais o Estado Chinês, expõe-se  pois a uma possível recessão em  2011 e em  2012.

 

b)   Os Estados Unidos

 

Depois do  plano de reactivação orçamental,  no início de 2009, pela módica  soma de 787 mil milhões de dólares, os Estados Unidos assumiram, no fim de 2010, uma outra opção que não a da restrição orçamental: “a fuga para a frente” ao mesmo tempo monetária e orçamental. Depois do triunfo nas  eleições “a meio-termo” de Novembro de 2010, a Administração Obama  assinou  um pacto com o partido Republicano: as baixas de imposto sobre o rendimento que foram tomadas provisoriamente pela Administração Bush (2003 – 2010) são finalmente reconduzidas por mais dois anos (2011 e 2012) enquanto que uma baixa do imposto sobre os salários é decidida com uma duração de treze meses (com efeito para 2011; o seu custo é de 120 mil milhões de dólares). Além disso, o elemento mais importante é que não há nenhuma redução da despesa pública; pelo contrário: os subsídios de desemprego excepcionalmente concedidos  aos desempregados de longo  prazo  são reconduzidos até ao final  de 2011. No total, o défice público deveria manter-se em 2011 e 2012 a um nível vizinho de 10%  do PIB, o que era já o seu nível desde 2008!

 

Tal audácia orçamental torna muito vulnerável  o mercado das obrigações do Estado americano, sobretudo quando se sabe  que o Estado chinês detém  cerca de 850 mil milhões de dólares de títulos públicos dos  EUA. Para fazer face ao risco de uma crise no mercado obrigacionista, o FED anunciou um dispositivo excepcional, dito “de quantitative  easing”: está pronto a comprar títulos públicos para pelo menos 600 mil milhões de dólares, durante oito meses. Ninguém  duvida que as três agências americanas de rating vão a partir de   agora ficarem em muita  dificuldade se querem manter a nota AAA que atribuem ao Estado americano.

 

Os Estados Unidos privilegiam a manutenção da retoma, limitando ao mesmo tempo o  seu risco no mercado obrigacionista, solicitando de maneira ultrajante o estatuto de moeda de reserva do dólar. Os Estados Unidos tomaram assim a opção de uma fuga para a frente de forma  deliberada em matéria monetária.

 

Vê-se  “a solução europeia” conduziu directamente  a uma recessão e, talvez mesmo, tenha conduzido  a graves dificuldades para o euro; pelo contrário, “a solução americana” poderá  conduzir a  uma crise no mercado das obrigações  e a uma perda do privilegiado estatuto do dólar. Para evitar este dilema, importa que os países desenvolvidos se entendam   para impôr um reequilíbrio das trocas comerciais mundiais, de modo que os seus défices possam ser progressivamente reabsorvidos. E devem fazê-lo mesmo que para isso tenham que saír da OMC.

 

(Continua)

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