Tony Blair e os motins. Um mal-estar generalizado?

O ex-primeiro ministro britânico Tony Blair, figura de proa da extinta terceira via, apareceu no Observer de domingo passado, dia 21 de Agosto de 2011, com um texto em cujo título nos diz que imputar a um declínio moral a responsabilidade pelos motins ocorridos recentemente na Grã-Bretanha dá boas parangonas mas conduz a políticas erradas. A seguir diz-nos que falar de um mal-estar generalizado é um erro. E que é precisa uma estratégia nova para um número pequeno de famílias disfuncionais.

 

A problemática abordada não é uma problemática menor. A tensão nas sociedades urbanas modernas (temos de ter consciência de como estes termos são relativos) é grande. Ocorrem periodicamente, causam traumas significativos (não redutíveis a destruições materiais) e seguem-se sempre grandes discussões sobre as suas causas. Estas discussões nunca são conclusivas, pelo menos em termos de se tirar conclusões, de procurar atacar as causas e prevenir a ocorrência de novos motins. Tony Blair tenta dizer-nos que nem a esquerda nem a direita acertam quando uma fala em problemas sociais e a outra em falta de responsabilização individual. E que no fim (só no fim!) dos seus governos (que se estenderam, salvo erro, por cerca de dez anos) tinha chegado a uma conclusão, de que a solução seria uma intervenção, família a família, junto dos elementos dos bandos (gangs), que ele refere como elementos minoritários dos bairros pobres. Será necessário, diz Tony Blair, um tratamento diferenciado para estes elementos. Acrescenta uma série de outros tópicos, desde a reforma da legislação até à visão que o público em geral tem dos políticos, mas no essencial a mensagem que nos quer transmitir é aquela.

 

Permito-me dizer que Tony Blair não é convincente. As famílias de onde saem os amotinados são provavelmente (quase de certeza) muito mais diferenciadas do que a sua interpretação admite. Não são apenas famílias onde marcam presença traficantes, proxenetas, indivíduos familiarizados com armas brancas e de fogo, abusadores, etc. São famílias com desempregados, trabalhadores precários, baixos salários, pessoas doentes, monoparentais. Muitas dessas famílias têm simplesmente como horizonte a telenovela ou o futebol ao domingo (ou à quarta-feira). São muitas mais, e pertencem a estratos muito mais variados do que Blair nos quer fazer crer. E ele esquece (omite) que a nossa sociedade produz as disfunções, a partir dos desequilíbrios enormes que contem. Veja-se só: a maneira mais generalizada de integração socioeconómica é através do trabalho, pelo menos desde o fim da escravatura e da servidão. A grande maioria dos cidadãos tem de angariar a sua vida ganhando um salário. Contudo a recuperação económica faz-se através diminuindo os custos de trabalho (corte nos postos de trabalho e redução dos salários). É a acumulação de capital, que vai para o investimento financeiro em grande parte. E a destruição do emprego, a precariedade no trabalho acentuam nos jovens a sensação de desenraizamento.

 

Normalmente, às crises sucedem períodos de acalmia que desembocam em períodos de agitação social, que normalmente começam por manifestações de descontentamento por parte dos jovens. Aquilo que Blair propõe não é novo, e é apenas fazer umas carícias (ou infligir pancadas!) a uns elementos mais visíveis de um processo complexo. Não vai prevenir as suas causas. Temos que ter presente algumas questões, à primeira vista diferentes, mas que concorrem nesta problemática:

 

1 – A tendência para os jovens formarem grupos que podem eventualmente tornar-se os chamados gangs não é recente. Alguns teóricos do comportamento fazem-nos remontar aos primórdios da humanidade. Lidar com esta tendência tem de ir muito mais além de simplesmente prevenir ou reprimir motins.

 

2 – As movimentações juvenis não são más. Na realidade podem ser um dos fenómenos mais construtivos, de entre as movimentações sociais em geral. Não devem é ser monopolizadas por pseudo ideais políticos ou religiosos, ou limitadas ao consumismo ou a palcos de exibição de agressividade, como é o caso de certas claques desportivas. São na verdade uma demonstração de vitalidade.

 

3 – A vida actual, dominada pelo capitalismo e pelos comportamentos que este impõe, engendra padrões de sucesso, que, quando são adoptados a um nível mais primário, desembocam facilmente em comportamentos violentos. Não é descabido comparar a ganância por dinheiro ao nível da especulação com o comportamento dos indivíduos que aproveitam os motins para saquearem e destruírem. A competição pura e dura que é preconizada como regra para o triunfo facilmente deriva em situações destrutivas, de muitas maneiras. Embora muita gente não o queira admitir, põe em causa os princípios da responsabilidade e da solidariedade a todos os níveis.

 

4 – Até Tony Blair reconhece que a geração actual, em vários aspectos, é superior à sua. Na realidade tem acesso a uma preparação muito superior à das gerações anteriores, e a uma informação muito mais generalizada. Vemos ocorrerem enormes manifestações, com grande número de jovens, que, vistas ao longe, assustam muita gente, mas quando se olha melhor têm-se a sensação oposta, de como afinal, tudo correu muito melhor do que o esperado.

 

As grandes questões que estão por detrás de fenómenos como os motins que ocorreram na Grã-Bretanha (e que ocorrem periodicamente por todo o lado) são de natureza política. Não só em termos de escolha dos governantes, mas sobretudo de análise e selecção das melhores atitudes. Não se pode desligar a problemática da juventude da vida da sociedade em geral. Soluções localizadas são por vezes indispensáveis, mas serão sempre limitadas, mesmo quando correm o melhor que possível. E tem de haver o tal debate constante, à roda da situação dos jovens, como tem de haver sobre o estado da sociedade em geral.

 

O maior erro de Tony Blair é negar a existência de um mal-estar generalizado. Esse mal-estar existe. Não nos termos em que é descrito por alguns políticos ansiosos, com vistas curtas. Consiste num sentimento de insegurança comum á sociedade em geral, não apenas aos jovens. Tradicionalmente, o sentimento de insegurança resolvia-se com demonstrações de força. Margaret Thatcher resolveu o seu problema com a guerra das Malvinas. Georges Bush atacou o Iraque. Agora estão à beira de atropelar Khadafi. Mas há cada vez menos pessoas a acreditar  que a solução dos seus problemas passa por manobras de diversão. E pelo saque de outros países, mesmo quando estes estão do outro lado do mundo.

2 Comments

  1. Como bom defensor da “terceira via”, Tony Blair tenta, por palavras, construir uma realidade diferente da que se verifica nas ruas das cidades inglesas – a sua visão de uma sociedade em que economia de mercado e o socialismo democrático convivem pacificamente, está cada vez mais a verificar-se impossível. Uma situação como a actual, em que o marketing incentiva um crescimento do consumismo e a crise social impõe restrições às famílias, vai colocar os Estados entre duas ameaças – ou o desmoronamento das instituições, o caos por assim dizer, ou o recurso à repressão violenta. Nenhum dos cenários se ajusta à sociedade idealizada pelos teóricos do neoliberalismo , nomeadamente aos defensores da tal «terceira via». O teu texto, João, analisa muito bem as incongruências de Blair . Ajuda a compreender até que ponto esta crise é séria e perigosa. Para todos. Para o capitalismo pode significar a morte. Sabendo nós que, moribundo, o capitalismo não olhará a meios, pode significar para nós, os que trabalhamos, uma guerra, morte e mais miséria. Parabéns, João, pela lucidez do teu texto.

  2. Obrigado, Carlos, pelo teu comentário. Na realidade, estamos a atravessar uma época muito perigosa, que não se sabe onde vai desembocar. O sentimento de insegurança é enorme, e o medo dos motins são apenas uma pequeníssima parte desse sentimento. A degradação da vida em geral, o temor da miséria, atormentam a maioria das pessoas, mesmo muitas que ainda há poucos anos consideravam ter uma vida segura. As razões para estado de coisas são eminentemente políticas, e há que procurar analisá-las e explicá-las abertamente.

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