OS HOMENS DO REI – por José Brandão

Começamos hoje a apresentar esta série da autoria do historiador José Brandão. Todos os dias, às 16 hora, teremos aqui uma biografia de um homem da confiança de um dos reis de Portugal. Não vamos alargar-nos em explicações. O próprio autor as dará na sua Introdução à obra. A palavra para José Brandão.

 

INTRODUÇÃO

 

O Rei é tudo ou quase tudo nas páginas das muitas Histórias de Portugal que se conhecem. Onde vive o rei, como veste o rei, o que come e como dorme o rei e, até, como ama e com quem casa o rei, são traços fortes presentes na grande maioria dos autores que escrevem sobre a História de Portugal. Sabe-se muito sobre os reis e os seus reinados, mas escassamente se escreve sobre os que os sustentam e garantem a subsistência dessas soberanias.

 

Este livro é a História de Portugal contada com o propósito de trazer para primeiro plano do conhecimento público algumas das muitas figuras que protagonizaram episódios marcantes ao serviço de um rei. Contam-se casos e vidas de súbditos que se notabilizaram pelos feitos que os colocam no nosso memorial histórico e onde estão nomes da mais diversa condição que surpreendem ao aparecerem juntos, como acontece no presente volume.

 

Que fazem Egas Moniz, o Conde Andeiro, Pina Manique ou Alexandre Herculano num mesmo livro como este que aqui se apresenta? Que fazem Luís Vaz de Camões, o Marquês de Pombal, Fernão Lopes ou Costa Cabral num mesmo rol de nomes como os que constam nas páginas que se seguem? A resposta é simples: São alguns dos homens do Rei mencionados na obra em saliência e que estão na razão do título escolhido para este trabalho. Ser homem do rei no contexto da actual obra é, em primeiro lugar, ser apoiante ou apoiado de qualquer rei ou rainha que nasceram portugueses. É ser um apoiante ou um apoiado que tenha preenchido espaços reservados aos que de valor próprio alcançam o cume da notoriedade que a História exalta.

 

Os Homens do Rei são um encontro com figuras da História que estiveram presentes de forma elevada na vida dos reis portugueses. São personagens com feitos e factos capazes de despertar as atenções protectoras ou os interesses mais exigentes das majestades reinantes e que, em alguns casos, chegam mesmo a ocupar funções que deixam ofuscado o respectivo patrono real. Os Homens do Rei aqui apresentados revelam as grandezas e fraquezas de um mundo tutelado por sucessivas dinastias onde nem sempre prevalece o primado da competência e o da honradez de carácter. Se por um lado homem do rei pode significar um factor de competência na educação e na formação de alguém visado, por outro, pode traduzir as fragilidades e os podres de um Poder que se estilhaça e se dissolve às mãos de aproveitadores de ocasião.

 

O Egas Moniz de D. Afonso Henriques não é o Marquês de Pombal de D. José. Nem João Franco de D. Carlos é Fernão Lopes de D. Duarte. São homens do rei em tempos diferentes e com fins que em nada se comparam. Mas porque não visa meras comparações de feitos e obras, este trabalho quer divulgar um conjunto de personagens que de algum modo estiveram ligadas à vida de monarcas portugueses. Escolhidos pelo bem ou pelo mal que representam, eles são os homens que o rei quer e precisa para os seus intentos, nem sempre bons, nem sempre maus. Permanentemente abertos a ter a seu lado aqueles de que resulta um bom partido ou um bom investimento, os nossos Soberanos não regateiam preços nem denotam dificuldades em granjear ou aceitar como seus homens alguns dos mais estranhos e imprevisíveis apoiantes ou apoiados.

 

Entre os de irrepreensível porte e os de infame alinho, tantos são os que estão ao dispor da escolha possível. Num cenário que vai do pioneiro D. Afonso Henriques ao derradeiro D. Manuel II alinham-se cerca de uma centena de figurantes provindos dos mais diversos campos do saber e da mais distinta cultura da época. São os Homens do Rei que servem de tema a uma abordagem ainda pouco aprofundada e menos ainda divulgada. Ao longo das páginas que se seguem podem ser avaliadas figuras da nossa História que nos fazem crer num passado de Portugal feito à sombra de muita gente hoje quase anónima.

 

Quem recorda nos tempos que correm o arcebispo de Braga D. João Peculiar, do reinado de D. Afonso Henriques, ou mesmo o bispo de Viseu D. António Alves Martins, do reinado de D. Pedro V? Quem recorda actualmente o Chanceler Julião Pais, do reinado de D. Sancho I, ou mesmo o deputado Manuel Fernandes Tomás, do reinado de D. João VI? Ao exibir a presente relação de Homens do Rei procura-se trazer à ribalta da escrita memórias de vidas excelsas que se desdobram pelas dinastias que comandaram os destinos de Portugal. Devotados do rei porque por ele escolhidos, ou devotados ao rei porque a ele escolheram, estes Homens do Rei são, em geral, modelos de uma dedicação extrema que coexiste entre a estima sincera e a cumplicidade criminosa.

 

O absolutismo do Visconde de Santarém e o liberalismo de Mouzinho da Silveira não podem expressar o mesmo objectivo da dedicação. A ferocidade bárbara de Geraldo, o Sem Pavor contra os Mouros no Alentejo e a pregação missionária de Padre António Vieira junto dos Índios no Brasil não são expressão de igual préstimo. Igualmente, quer o suicídio do romancista Camilo Castelo Branco, quer o suicídio do sertanejo Silva Porto, se ocorrem no mesmo espaço temporal, não são, porém, consequência duma mesma razão. Camilo abraça a morte por amor físico e afectivo. Porto elege a morte por amor pátrio e contemplativo. Estão ligados a um rei do seu tempo e por isso são Homens do Rei. Fazem parte deste livro que os recorda em breves notas biográficas, numa parada de notáveis que também, e tão bem, deram alma à História de Portugal.

 

É a História de alguns portugueses que reinaram mais do que os próprios donos do Trono. É a História de alguns portugueses que não reinaram porque não tinham Coroa. Têm os seus nomes ligados a praticamente todos os grandes momentos que fazem a existência de Portugal.

 

José Brandão

 

 

 

 

José Augusto de Jesus Brandão, nasceu em Lisboa em 1948. Operário metalúrgico,

 entre 1969 e 1971 esteve na guerra em Moçambique.

Ligado à ARA a partir de 1972, participou em diversas operações de reconhecimento de objectivos. Esteve preso pela PIDE em 1973.

 

Após a revolução de Abril, foi empregado na Carris e dirigente sindical. Militante do PS, foi membro da Comissão Nacional entre 1980 e 1988 e, entre 1985 e 1987, pertenceu à Comissão Política. Historiador, especializado na violência armada no período contemporâneo, tem uma vasta obra publicada, da qual se salienta: Sidónio – Ele Tornará Feito Qualquer Outro (1.ª ed. 1983), Carbonária – O Exército Secreto da República (1.ª ed. 1984), 100 Anos por 1 Dia, (1987), A Noite Sangrenta (1991),Suicídios Famosos em Portugal (2007); Portugal Trágico – O Regicídio,(2008), Cronologia da Guerra Colonial (2008) e A Vida Dramática dos Reis de Portugal ( 2008)

 

Baseada na sua obra Os Homens do Rei, iniciamos hoje publicação de uma série de textos sobre o tema.

Leave a Reply