“JAIME” – UM FILME DE ANTÓNIO REIS E MARGARIDA CORDEIRO – por Clara Castilho

 

Argumento: António Reis e Margarida Cordeiro ; Realização: António Reis e Margarida Cordeiro ; Director de fotografia: Acácio de Almeida ; Director de produção: Henrique Espírito Santo ; Financiamento: Fundação Calouste Gulbenkian ; Música: Louis Armstrong, Stockhausen, Telemann ; Duração: 37′ ; Rodagem: 1973

 

Filmado durante o ano de 1973, estreou logo após a revolução, no início de Maio de 1974, numa adequação perfeita com o seu tempo. António Reis, vindo do histórico Cineclube do Porto, na opinião de diversos críticos, atinge com Jaime, o seu primeiro filme, talvez uma das mais completas encenações poéticas que o cinema português alguma vez conheceu.

 

 

 

Diz António Reis (Revista Celulóide, n.º 204, pág. 5-6, Dezembro de 1974): “Tivemos sempre a preocupação de não dissociar a biografia da obra. Não nos interessava fazer o filme da vida de um pintor… Digamos, portanto, que a fita é um poema plástico e humano”.

 

Manuel Hermínio Monteiro (“«Jaime», uma obra de arte esplêndida”, in O Olhar de

 

Ulisses. A Utopia e o Real, Porto 2001: Capital Europeia da Cultura, Porto, 2001 e reeditado em Urzes, pp. 215-220, ed. O Independente, Lisboa, 2004 ) considera que “há dois momentos distintos neste filme …Num primeiro momento a câmara vagueia com redobrada atenção e uma aparente pouca curiosidade antropológica pelo pátio interior do Miguel Bombarda”, mas onde “aos lugares e mobiliários degradados sobrepõe-se a dignidade dos internados”,…”com a voz rouca de Louis Armstrong, que acentua a solidão muito dorida do interior do hospício”.

 

 

O segundo momento do filme é nas terras de Jaime, no rio Zêzere, montanhas, meio ambiente rural serrano de camponês e pescador. “Percebemos que o realizador procura reunir todos os fios com que Jaime terá riscado obsessivamente os seus desenhos. Arrepiante é a voz da viúva chamando muito alto por Jaime como se ele andasse longe e devesse regressar a casa.

 

E impressionantes são também as inúmeras cartas, quase ilegíveis e densamente preenchidas, que Jaime insiste

 

em enviar assiduamente para sua casa”. João César Monteiro ( Cinéfilo, n.º 29, págs. 22, 20 de Abril de 1974), conta-nos como conheceu António Reis e o que pensa do filme. “Fui recebido pela mais cândida e afável criatura que deve existir sobre a face deste taciturno planeta, mas só me dei conta da exacta dimensão dessas qualidades … após ter visto o filme, como se o filme fosse afinal o único revelador possível e sem equívoco dessa tão veemente e natural explosão de humana grandeza.… Jaime, quanto a mim, um dos mais belos filmes da história do cinema, ou, se preferem: uma etapa decisiva e original do cinema moderno, obrigatório ponto de passagem para quem, neste ou noutro país, quiser continuar a prática de um certo cinema, o cinema que só tolera e reconhece a sua própria austera e radical intransigência”.

 

O ano passado, na 4ª MOSTRA DO DOCUMENTARIO PORTUGUÊS, o filme pôde ser visto por quem em 1974 não tinha idade ou não teve oportunidade.

 

António Reis (1927-1991) foi também poeta (Poemas Quotidianos (1957) , Novos Poemas Quotidianos (1959) , Poemas Quotidianos – Col. Poetas de Hoje (1967) e realizador do filme “Trás-os-Montes”.

 

Jaime (1974) #1

 

 

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