OS “VOOS” DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY – por Clara Castilho

 “Não estou muito certo de ter vivido depois da minha infância”, escrevia ele à mãe, muito depois de ter descoberto a alegria de pilotar.

Tornar-se adulto seria o mais imperdoável dos pecados? Antoine tinha 32 anos quando o castelo onde fora criado foi vendido e as “provisões de doçura” que tinham mimado a sua juventude desapareceram para sempre.

 

Teve o sonho de ser oficial da marinha. Mas, ao ser reprovado no exame de admissão, optou pela aviação em 1921. Começou a trabalhar para a Empresa Geral Aeropostal, passando a pertencer ao grupo de pioneiros cuja coragem desafiava os limites da razão e da segurança, batendo recordes de velocidade para entregar aquilo que gostava de imaginar “cartas de amor”.

 

Recebeu uma proposta de adesão à Força Aérea francesa, que recusou, cedendo às pressões da família da sua noiva, a romancista Louise de Vilmorin. Tentou conciliar uma vida familiar mais estável, estabelecendo-se em Paris e trabalhando num escritório e escrevendo simultaneamente. Com o rompimento do noivado, retomou a sua carreira na aviação.

 

O seu primeiro conto, “L’Aviateur” foi publicado em 1926. “Courrier Sud”, saiu dois anos mais tarde, com experiências retiradas da sua estadia na  Argentina. Em 1931 publicou o romance, “Vol de Nuit”, com prefácio de André Gide, a que é atribuído o prémio Femina. Um pouco à semelhança da sua vida, “Voo Nocturno” mostra-nos um homem em que a coragem era tão natural que dela fazia pouco caso. Este livro foi depois adaptado ao cinema, tendo ele próprio dobrado o actor principal nas cenas de voo e contou com nomes como Clark Gable e Lionel Barrymore no elenco.

 

 

 

Nesse mesmo ano casou-se com Consuelo Saucin. Foi repórter na Guerra Civil Espanhola em 1937 (lembremo-nos de outras participações como as de Hemingway ou Orwell) e mobilizado como capitão em 1939, ano em publicou “Terre des Hommes”.

 

Desmobilizado no ano seguinte, passou um mês em Lisboa, de onde partiu

 

para Nova Iorque. Desta época temos alguns testemunhos engraçados da sua vida. O realizador Jean Renoir foi de uma grande ajuda para ele e afirmou “Tinha sempre os bolsos cheios de bocados de papel onde desenhava as silhuetas dos desenhos que viríamos a encontrar em o Principezinho.” Descobrira um ditafone com gravação em discos que passou a utilizar, ditando durante a noite para que a secretária passasse no dia seguinte. Descreve Paul Webster (“Saint-Expéry – vida e morte do Principezinho”- Editorial Bizâncio, Lisboa 2000): “A máquina também lhe permitia revelar o seu lado mais infantil. Utilizava-a para gravar canções, fazendo o disco andar mais devagar para deformar a voz e produzir um efeito cómico. Convencia os amigos a arriscarem uma improvisação pelo prazer de os escutar depois, maliciosamente, na presença de outras pessoas.”

 

Em 1942 saiu “Pilote de Guerre” , que rapidamente se tornou um best-seller. Em 1943 publicou “Lettre à un Otage” e “Le Petit Prince”. Foi promovido a comandante, mas restringem-lhe os voos devido à idade. Depois de oito missões na Córsega, mais três do que aquelas que lhe haviam autorizado, em 1944, com a 2ª Grande Guerra quase a terminar, foi dado como desaparecido no dia 31 de Julho. Não se sabe ao certo o local da queda. Um pescador defendeu que foi na Baía de Cassis.

 

Em 1948 saiu postumamente o seu romance “Citadelle” (“Cidadela”).

 

Como diz Urbano Tavares Rodrigues, «(Saint-Exupéry) soube transmitir-nos as grandezas dos espaços aéreos e dos silenciosos desertos, as sensações do piloto na carlinga do avião, a pequenez do homem e a sua capacidade de se superar frente ao perigo, perante o infinito ou nas mais duras circunstâncias, como por exemplo as dos náufragos em terra inóspita, despojados de tudo.»

 

 

Leave a Reply