A Viagem dos Argonautas e não só – por Luís Peres Lopes

Aqui inicio a minha Viagem dos Argonautas, no qual apresentarei aos companheiros de viagem texto originais ou textos de outros autores sobre Economia.

Começo com um texto escrito por Robert Kuttner em que ela salienta o facto de ainda não se ter encontrado uma expressão que caracterize a situação económica da primeira década do séc. XXI lançando o desafio para que os próprios leitores contribuam com sugestões.

É feita a comparação com a Grande Depressão dos anos 30, salientando que uma das grandes diferenças com a situação económica actual está nas respostas de política económica dadas. E a diferença é enorme. Se nesse período se investiu, por exemplo, nas obras públicas em grande escala, à escala mundial, hoje, o discurso é o da “dose de austeridade” como “norma de vida” para as sociedades que pretendem seguir as “sociedades ocidentais” no seu caminho de sucesso, para utilizar as expressões utilizadas por Pierre Dardot e Christian Laval na caracterização do neoliberalismo.

Houve uma outra questão que me chamou a atenção, neste artigo, que foi a dos agentes responsáveis por este colapso. Kuttner refere que “há pouca vontade política para conter os excessos mais profundos do sistema financeiro, o que causou este colapso e causará o próximo”. Mas não pode atribuir apenas as culpas, pela crise actual, unicamente ao sistema financeiro e se exonerar os economistas das suas responsabilidades, pelo que fizeram ou pelo que não fizeram, pelas ideias que defenderam ou que não contrariaram, tal como refere Dani Rodrik no seu mais recente livro, O Paradoxo da Globalização.

Estas são algumas das questões que julgo importante debater, razão pela qual as partilho com os companheiros na Viagem dos Argonautas!xxx Boas leituras e Boa Viagem a todos Luís Peres Lopes

Não é uma Grande Recessão – por Robert Kuttner Huffington

Post 29 de Agosto de 2011

O The New York Times e seus imitadores passaram a caracterizar os acontecimentos económicos desde 2007 como A Grande Recessão Os editores parecem adorar. A expressão pretende fazer um trocadilho coxo. Evoca A Grande Depressão, mas de uma forma não tão profunda.

Mas com o aumento do desemprego, a desaceleração do crescimento, a contínua diminuição dos preços da habitação, e com um governo hesitante, é hora de esquecer esta expressão, por ser inteiramente inadequada e enganosa.

Aqui estão algumas alternativas:

• A Grande Depressão II

• A Depressão Furtiva

• A Grande Estagnação

Se o leitor comentar este post, por favor, sugira o seu próprio termo. (Parece que, no actual século, estamos a ter problemas com nomes. Ainda não conseguimos caracterizar esta primeira década com um termo adequado).

Para começar, a economia não está tecnicamente em recessão, uma vez que o crescimento do PIB foi positivo, o que tem sido o caso desde o outono de 2009.

Então, tecnicamente, a situação actual não é definitivamente uma recessão, e muito menos grande. Não será isto reconfortante? Mas nenhuma pessoa séria pensará que esta confusão acabou. O crescimento do PIB abrandou novamente em 2011, e podemos voltar para um caminho negativo no próximo ano.

O crescimento económico, de facto, foi positivo na maioria dos anos da Grande Depressão, até se ter atingido o ponto mais baixo em 1933, mas ainda era mesmo assim uma verdadeira depressão.

Qual é a diferença entre uma recessão e uma depressão? Uma recessão é um evento leve, cíclico. Ela ou se corrige por ela própria, ou é corrigida por estímulos orçamentais ou monetários e depois tudo volta-se ao normal. (Muitas vezes, as recessões são desnecessariamente causadas pelo excesso de reacção da Reserva Federal para controlar as baforadas de inflação, estrangulando a economia com restrições à circulação monetária, política de que eu discordo.)

A depressão é ou refere-se a realidade totalmente diferente. É auto-sustentada. As pessoas estão sem trabalho; o poder de compra cai; as empresas cortam no investimento; apesar das baixas taxas de juro, os bancos estão relutantes em conceder empréstimos; os preços das habitações caem, e o ciclo intensifica-se. Soa-lhe familiar?

As recessões podem ser originadas de variadas causas aleatórias. As depressões geralmente começam com as perdas calamitosas no sector financeiro. Soa-lhe familiar?

A definição clássica de uma depressão foi dada pelo economista Irving Fisher em 1933, como uma “deflação da dívida”. O valor dos activos (por exemplo, casas) desce, enquanto o valor das dívidas se mantém fixo. Num crash generalizado, uma mentalidade de vender de imediato difunde-se rapidamente, fazendo descer ainda mais os valores dos activos. Com o declínio dos valores dos activos, as pessoas apertar os cintos e acentua-se este ciclo. Soa-lhe familiar? Para utilizar termos técnicos económicos, a economia fica presa num equilíbrio bem abaixo do seu potencial de produção ou de emprego.

Há duas grandes diferenças entre a Grande Depressão da década de 1930 e os eventos desta década.

Uma delas é que a Grande Depressão, na sua parte mais funda, foi mais grave. O PIB, por exemplo, caiu mais de 60% entre 1929 e 1933 (embora tenha recuperado e crescido de forma inteligente entre 1933 e 1936). E a taxa de desemprego foi maior, especialmente no início dos anos 1930, atingindo um máximo de 25% em 1933.

Por outro lado, o desemprego real, o que é calculado se se tiver em conta as pessoas que procuram empregos a tempo inteiro e não sejam capazes de os encontrar, não é muito abaixo dos níveis da Grande Depressão a partir de 1933. É, pelo menos, 15%, dependendo de como se contarem as pessoas que estão fora da força de trabalho medida.

Mas a outra diferença é a mais repugnante – a diferença na política do governo, então e agora.

Depois de 1933, o governo fez o seu melhor para tirar a economia para fora da armadilha. Roosevelt não promoveu apenas obras públicas em grande escala. O Reconstruction Finance Corporation recapitalizou bancos e indústrias. O Home Owners Loan Corporation refinanciou as hipotecas, uma em cada cinco. A Reserva Federal estava nas mãos de um progressista, Marriner Eccles. E até Roosevelt foi capaz de erros graves, como o aperto fiscal prematuro de 1937, que resultou numa recessão dentro de uma depressão.

 Hoje, apesar de Obama ter originado uma maré de esperança, ambas as partes estão atoladas na ilusão de que a economia precisa de nada mais do que uma dose de austeridade. O presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, que estava disposto a recomendar medidas muito fortes como um crítico académico, quando o paciente em coma era o Japão, faz pouco mais do que banalidades, como na sexta-feira no seu discurso de Jackson Hole. E, apesar da Lei Dodd-Frank, há pouca vontade política para conter os excessos mais profundos do sistema financeiro, o que causou este colapso e causará o próximo.

Por menor que seja o pacote de estímulos económicos apresentado por Obama, ele é implacável e ferozmente bloqueado pelos republicanos, forçando Obama a pensar num ainda mais pequeno.

Assim, apesar de a economia de hoje estar certamente mais em depressão do que numa recessão, ainda estamos à procura do adjectivo correcto.

E que tal A Depressão Desnecessária?

Actualização: Obrigado aos quase mil leitores que sugeriram outros adjectivos habilidosos para esta economia em depressão, incluindo A Grande Repressão e A Grande Deflação.

 Esta é a minha escolha:

O GRANDE INCUMPRIMENTO

É um trocadilho de três ideias. Um incumprimento financeiro. Um incumprimento sobre o potencial da economia. E, sobretudo, um incumprimento de responsabilidade de liderança.

Robert Kuttner é co-editor do The American Prospect e senior fellow da Demos. O seu último livro é Uma Presidência em Risco.

 Luís Peres Lopes nasceu em Viseu em 1967. É Professor Auxiliar na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), onde concluiu o doutoramento na especialidade de Teoria Económica e Economia Internacional. É investigador do Grupo de Estudos Monetários e Financeiros (GEMF/FEUC), membro da World Economics Association e da Ordem dos Economistas. Foi também coorganizador dos Ciclos Integrados de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Autor, juntamente com Júlio Mota e Margarida Antunes, do livro A crise da Economia Global e editor também com Júlio Mota e Margarida Antunes do livro Financeirização da Economia: A Última Fase do Neoliberalismo.

2 Comments

  1. Bem-vindo a bordo, Luís.O texto de Robert Kuttner escolhido para a estreia , parece-me muito interessante, porque aflora aquilo que, quanto a mim, é o cerne da questão – estamos perante mais uma recessão. perante uma crise cíclica, ou perante sintomas de desagregação de um sistema que, a bem dizer começou com os Descobrimentos e que, como tudo, terá de morrer? A designação que sugiro é «mudança de paradigma».

  2. Obrigado pelas boas vindas e pelos seus comentários. Concordo que é ainda um pouco difícil caracterizar este período que estamos a atravessar porque os caminhos que estão a traçar para a sua saída não são trilhados a partir das suas causas mais profundas. Em conversa com o Júlio Marques Mota, ele acabou por sugerir duas expressões: “A Segunda Grande Depressão” ou “A Depressão de 2008 a 201x”.

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