Excerto de “Freefal”, livro de Joseph Stiglitz. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

Tradução livre de um excerto de Freefall, um recente livro de Joseph Stiglitz, um livro recomendado recentemente a Alvaro Santos Pereira, actual ministro da Economia, no  blog A viagem dos argonautas.

 

Todo o jogo tem as suas regras e o jogo económico não é uma excepção. Um dos papeis cruciais do Estado é a de escrever as regras e de as fornecer aos árbitros. As regras são as leis que governam a economia de mercado. Os árbitros são as autoridades de controle e os juízes que os ajudam a interpretar e a fazer aplicar as leis . As antigas regras tenham ou não funcionado bem no passado, não são as regras  adequadas para a economia do século XXI.


A sociedade deve estar segura que as regras são estabelecidas de forma equitativa e que os árbitros são justos. Na América [como em quase todo o lado]  muitas das regras foram estabelecidas pelos e para os profissionais da finança e os árbitros mostraram-se bem parciais. Não são pois de espantar os resultados a que se chegou, a crise actual. Havia outras reacções possíveis cujas possibilidades de sucesso eram mais ou menos iguais  mas que colocavam menos em perigo o contribuinte: bastava que o Estado actuasse segundo as regras em vez de bifurcar a meio caminho para  uma  estratégia de liberdades inauditas  para benefício do sector financeiro.


Certos ditados  continuam a ser verdadeiros. Quem paga os músicos escolhe a música, [quem paga escolhe os músicos, quem paga escolha a dança e às vezes até os dançarinos. O sector financeiro  pagou a produção do  espectáculo, o sector financeiro escolheu os músicos, escolheu a musica, a partitura, escolheu a letra, escolheu os cantores, escolheu o cenário do palco para a dança e deixou   apenas  à escolha alguns dos dançarinos.  O sector financeiro escolheu e pagou aos artistas dos dois partidos, pagou  a  produção do espectáculo,  a musica foi tocada,a política foi  milimetricamente delineada e   depois pelos políticos executada, enquanto que  agora temos  como baile final uma  gala em  forma de maratona  a ver quem chega primeira à reforma Constituicional para a dívida  mínima, para a ineficácia máxima. Assim, teremos os Estados agrilhoadas e com estes  estará também Prometeu!]. Podemos nós, os cidadãos esperar que as leis sejam feitas para desmantelar os bancos demasiado grandes para se poderem deixar falir,  demasiado grandes para   poderem ser geridos se estes últimos são eles que pagam o fundamental das campanhas eleitorais , por sua vez, demasiado caras para serem ignoradas ? Podemos nós esperar poder impedir  os bancos de assumirem riscos excessivos?


Em última análise enfrentar esta crise – e evitar que outras se lhe sucedam – é pois uma questão tanto da economia como da política. Se nós não colocarmos em prática as necessárias reformas nós arriscamo-nos a uma  paralisia política porque as exigências dos interesses particulares  e as exigências do conjunto do país são contraditórias. E se nós evitarmos apenas a paralisia política isto será possivelmente à custa de comprometermos o futuro: o endividamento do futuro para refinanciar as recapitalizações  do presente ou as  reformas mínimas  do presente deixando ao futuro os problemas de fundo.


Hoje, devemos criar um novo capitalismo. Nós bem vimos e bem sentimos os falhanços do capitalismo anterior, o do presente, que ainda está em vigor. Mas para criar este novo capitalismo é necessário a confiança  – mesmo entre a Bolsa e o resto da sociedade. Os nosso mercados financeiros foram profundamente falsos, andaram por maus caminhos, traíram-nos, mas nós não podemos funcionar sem eles, o nosso Estado andou por maus caminhos, traíu-nos também,  mas nós não o podemos ignorar.  O programa de desregulamentação Reagan-Bush foi fundado sobre a desconfiança para com o Estado; a tentativa Bush-Obama para nos salvar do naufrágio da desregulação foi fundada sobre o medo. A iniquidade tornou-se flagrante: os salários baixam e o desemprego sobe mas os bónus dos banqueiros aumentam; a ajuda  pública  às empresas  é reforçada, as suas linhas de segurança são alargadas, mas ao mesmo tempo reduz-se a segurança social dos cidadãos. Estas injustiças criam azedume e cólera,  Um clima de mal-estar  e de cólera, de medo e de desconfiança, não é evidentemente o melhor  para nos lançarmos  na longa e difícil tarefa de reconstrução.

 

Mas nós não temos escolha: se queremos restabelecer uma prosperidade duradoura temos necessidade de um conjunto de novos contratos sociais   fundados sobre a confiança entre todas as componentes da nossa sociedade, entre todos os cidadãos e o Estado, entre a geração presente e as gerações futuras.   

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Júlio Marques Mota, nasceu em 1943 na freguesia do Fratel, concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco. Faz parte do corpo docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Por sua iniciativa foram traduzidos e publicados títulos significativos no meio editorial português dos últimos cinco anos, tais como, O Futuro do Sucesso: Viver e Trabalhar na Nova Economia, de Robert Reich (Lisboa, Terramar, 2004); A Democracia e o Mercado, de Jean Paul Fitoussi, (Lisboa, Terramar, 2005); As Deslocalizações de Empresas: Ainda Teremos Empregos Amanhã?, de Philippe Villemus, (Lisboa, Edições Asa, 2007),; Tornar Eficaz a Globalização, de Joseph Stiglitz, (Lisboa, Edições Asa, 2007). Algumas destas obras foram ou são utilizadas nas unidades curriculares a que está afecto.

Com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, organiza os Ciclos Integrados de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC desde 2005-2006. No âmbito destes Ciclos, organizaram-se também sessões de projecção e debate de documentários e filmes temáticos, com a presença de variadíssimos professores e investigadores, de várias áreas científicas e de vários institutos e universidades portuguesas e estrangeiras.

 

É autor dos seguintes ensaios: Caderno de Exercícios Práticos de Finanças Internacionais, Coimbra, FEUC, 2004; Mercado Cambial e Integração Financeira: Mercado Cambial, Produtos Derivados e Globalização Financeira, Vol. 1, Coimbra, FEUC, edição revista 2004; Comércio Internacional, Crescimento Económico e Termos de Troca: A Análise Neoclássica,Coimbra: FEUC, 2007; Preços Relativos e Evolução das Remunerações Reais dos Factores, Coimbra, FEUC, 2007; Complementos de Ricardo e a Contribuição de Stuart Mill, Coimbra, FEUC, 2007.

Com colaboração de Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, publicou: Crise do Sistema Monetário Internacional e a Criação de um Sistema Monetário Regionalizado: O Caso Europeu, FEUC, Coimbra, 2006;

Em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou A Crise da Economia Global: Alguns Elementos de Análise, Lisboa, LIVRE, 2009. Também em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou os seguintes artigos: “A Economia Global e a Crise da Dívida Soberana na União Europeia: A Situação de Portugal e Espanha”, Indicadores Econômicos FEE, vol. 38, nº 2, 2010; “Vom Stabilitäts – und Wachstumspakt zu den Finanzmärkten: der Fall Portugals und Spaniens” (“Do Pacto de Estabilidade e Crescimento aos Mercados Financeiros: Os Casos de Portugal e Espanha”), Kurswechsel, vol. 3, 2010, pp. 101-108; “História de um Ciclo de Cinema, de uma Visão do Ensino Superior”, Rua Larga, Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra, n.º 28, Abril, 2010, pp. 51-55. Em co-coordenação com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou o seguinte livro, Financeirização da Economia: A Última Fase do Neoliberalismo, Lisboa, LIVRE, 2010.

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