ROGER VAILLAND – “A VIRISOVA” ( FEIRA DO LIVRO EM LAGOS) – por Clara Castilho

 

 

Na Feira do Livro em Lagos, neste verão, encontrei o livro de Roger Vailland, “A Virisova” (Europa América, Lisboa, 1987). Lê-se numa tarde na praia e veio mostrar-me um Vailland desconhecido. Foi o seu primeiro romance que apareceu em 1933, sob a forma de folhetim, no jornal Paris-Soir e que só em 1966 foi reeditado. Na introdução, René Ballet interroga-se se se tratará de um a narrativa cor-de-rosa ou de uma história de humor negro. Considera-o o eco dos conflitos da Europa dos anos 30.

Vailland frequentou o club do Bar du Câteau, conviveu com Prévert, Marcel Duhamel, Benjamin Péret, Aragon, Queneau, Robert Desnos, Michel Leiris, dele sendo expulso em 1929, devido à intransigência política de Aragon et Breton.

 

O seu livro “325 000 francos” faz uma análise marxista da classe operária, não deixando de realçar outros aspectos, como a exploração das mulheres e o aborto clandestino.

 

 

 

Participou na adaptação ao cinema do livro “Ligações perigosas” de Choderlos de Laclos, em 1959, realizado por Roger Vadin, filme que foi um verdadeiro escândalo (com Gérard Philipe, Jeanne Moreau, Jean-Louis Trintignant, Jeanne Valérie, Boris Vian, etc…como interpretes).Hoje a censura que suscitou quase nos parece sem sentido…

 

 Na introdução da “Varisova”, Ballet considera que há uma semelhança profunda entre o autor e a sua heroína e que consiste no facto de ambos fazerem parte de uma geração que, para além de perdida, se considera inútil, isto é sentirem-se – cada um à sua maneira, mas um mais do que outro – personagens irrisórios num universo irrisório.

 

Ballet acaba por fazer a ponte com a actividade de Vailland no cinema. Realça a frase “Tomou-a, porém, nos braços, inclinou-a e debruçou-se sobre aqueles grande olhos, aquela boca adorável” como um exemplo disso – “esta sucessão de cenas faz lembrar a planificação cinematográfica, construção que encontramos várias vezes ao longo do folhetim. Roger Vailland sempre se interessou pelo cinema. Em 1928, quando começa a procurar trabalho, pensa primeiro no cinema. Recebe até um pequeno cachet de assistente que rendeu 80 F (carta de Junho de 1928). … Participa na crónica cinematográfica de Paris-Midi e Paris Soir de 1029 a

 

1931.Pensou logo na sua adaptação ao cinema : “Estou em negociações para fazer um filme”, escreve em 1933, o que não acontecerá. Mas, depois da guerra será adaptador, argumentista e autor de diálogos de vários filmes. A construção os seus romances, como também a importância que dava às atitudes e aos gestos dos seus personagens, têm muito a ver com a técnica cinematográfica.”

 

Vailland o antigo surrealista que pregava a subversão absoluta em Le Grand Jeu, só pode praticar o oficio de jornalistalevando uma “vida dupla”… “Escapo-me fazendo poemas”. Esta virgem obrigada a exibir-se nua no palco das Folies Bergeres não estará numa situação tão ambígua como a do antigo surrealista obrigado a aparecer na “grande imprensa”? O seu problema comum não será preservar a integridade?

 

É o próprio Vailland que diz (Cronique d’Hiroshime à Goldfinger, 1984): “Há sempre duas mulheres nos meus romances: uma esposa e mãe odiosa que me apetece matar… e uma rapariga maravilha, que não posso atingir; não se pode nada contra ela, e eu também não posso nada”. Pois, nas férias, em qualquer lugar, há sempre algo de novo a descobrir!

1 Comment

  1. [Error: Irreparable invalid markup (‘<br […] <a>’) in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]<BR class=incorrect name="incorrect" <a>Roger</A> Vailland foi um dos meus escritores preferidos. Li tudo, ou quase tudo, o que escreveu – o romance que mais me entusiasmou foi Drôle de jeu " que na edição portuguesa se chamou "Cabra Cega" – não conheço nenhuma outra obra em que os meandros da Resistência contra a ocupação alemã fossem tão empolgantemente descritos. Um grande escritor, talvez um pouco esquecido. Fizeste muito bem em o recordar, Clara.

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