DIA DO BRASIL – Poema da Curva e Meu Sósia e Eu – Oscar Niemeyer

 

O Poema da Curva

 

Não é o ângulo recto que me atrai

Nem a linha recta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual,

a curva que encontro nas montanhas

do meu país,

no curso sinuoso dos seus rios,

nas ondas do mar,

no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo.

O universo curvo de Einstein.

 

 

 

 

Meu Sósia e Eu

 

Meu sósia vem de longe, de outros continentes, de tempos tão distantes que deles só os livros podem lembrar. Mas vem também de áreas mais próximas, vem de Maricá onde nasceram meus avós Ribeiro de Almeida.

 

Traz consigo velhas lembranças, entre elas a correcção do meu avô; as rabugices de minha avó; as maluquices de meus tios, Nhonhô e Ziza; a simplicidade descontraída de meu querido pai; a meiguice de minha mãe Finota. Mas o acompanham também velhos preconceitos, angústias e alegrias que tenta superar. É bom amigo, e com ele vou vivendo pela vida afora muito bem.

 

Agora, a genética procura descobri-los, ele e seus irmãos espalhados em todos nós, e para eles transfere parte de nossas qualidades e defeitos.

 

Nada tenho a me queixar deste intruso que dentro de mim existe e há anos me cerca com seus conselhos.

 

Mais puro do que eu — desconhece todos os preconceitos da sociedade — ele me sugere coisas impossíveis. Mas é honesto, despreza bens materiais, é leal e generoso, o que facilita essa conversa diária que mantemos.

 

Gosta da beleza. A mulher o fascina e a natureza o emociona. Muita coisa nos identifica.

 

Se começo a desenhar um projecto ele me pega pelo braço, levando-me em êxtase para as formas novas, curvas e imprevisíveis que preferimos.

 

Lembranças do nosso país, das suas montanhas, das curvas sensuais da mulher bonita.

 

Mas é lúbrico. Se uma mulher se aproxima, ei-lo a me insinuar coisas proibidas.

 

Não é difícil levá-lo para os problemas sociais. Seu feitio fraternal facilita. E assim vamos nós, de mãos dadas, sonhando melhorar o mundo.

 

Quando encontro uma pessoa, lembro logo que dentro dela esse pequeno sósia também existe e a vejo com mais tolerância pois dele decorrem, e muito, suas qualidades e defeitos.

 

Lembro-me dela como de uma casa que pode ser modificada, ter o telhado, portas e janelas consertados, mas que será sempre deficiente se seu projecto inicial foi mal concebido. E nela a influência genética também foi definitiva.

 

Curioso, meu sósia quer ocupar-se de coisas em demasia. Desenhar, fazer esculturas e literatura. Procuro contê-lo, fazendo autocrítica, ouvindo os amigos, lendo muito.

 

Mas ele insiste. Diz que a arquitectura deve estar ligada a todos os assuntos da cultura e lembra como afirmativas de Heidegger e Malraux me foram úteis na defesa dos meus projectos.

 

Tudo que faço tem sua participação e com ele divido o que vocês acharem de bom ou ruim neste livro.

 

(Oscar Niemeyer, Meu sósia e eu, Campo das Letras)

 

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