Aurora Adormecida 7 e 8 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 7

 

 

 

(continuação)

 

A Primeira Grande Guerra provocou muitos milhões de mortos e mutila­dos. Nessa mesma época, o mundo assistiu apavorado e impotente a outro flagelo, a gripe espanhola, também conhecida por pneumónica. Atacou de tal modo o planeta inteiro que dizimou mais de um por cento da sua população. Nalguns países morreram mais pessoas do que soldados no campo de batalha.

 

Os sintomas eram os de uma gripe normal mas depressa o vírus atacava os pulmões, tornando-se o acto de respirar quase impossível. Os corpos ficavam tão arroxeados que distinguir o cadáver de um branco do cadáver de um negro não era fácil. A morte é democrática e anti-racista. Nivela tudo, mede todos por igual.

 

Parece que a gripe assassina tomara o mundo por causa das idas e vindas dos soldados da Primeira Guerra Mundial. Na frente de batalha encon­travam-se homens de toda a parte, que voltando à Pátria, infectavam mais gente, espalhando assim a morte por todos os cantos da terra. Nas cidades, em todas as ruas e a todas as horas se viam cair pessoas vítimas desse mal estranho. A assistência multiplicava-se mas os hospitais esta­vam repletos e a maior parte dos doentes morria em casa sem nada que lhes valesse. Às aldeias o mal chegava mais tarde porque o contágio era mais lento, mas aí instalada, a gripe tornava-se imparável. Os cuidados higiénicos eram poucos ou nenhuns e todos fugiam dos infectados como quem fugia de leprosos. A espanhola chegou também a Rio de Frades com toda a sua força.

 

* Vi morrer os meus irmãos Mário e Maria, a madrasta e finalmente o meu pai. O meu paizinho chorava à janela com a Bíblia na mão, a olhar os fio negros que lhe subiam pelo braço acima e a dizer que chegara a sua vez e que fora o homem mais desgraçado do mundo.

 

Aurora tivera antes uma pneumonia. Deitara-se a brincar sobre o tecto de zinco da lavaria e adormecera ao sol. Ficou provavelmente imunizada contra a peste e para o resto da vida.

 

* Morreu quase toda a gente que trabalhava na mina. Todos foram enterrados na vala comum. Só o meu paizinho e o alemão tiveram direito a sepultura, o alemão no cemitério de Cabreiros e o meu pai no cemitério de Bouceguedim.

 

Ali deixou Aurora o resto da família. Aos dez anos era órfã de pai e mãe. Foram-na buscar num carro de bois. No carro veio também o baú de couro com as recordações e muitas notas grandes para compor a Casa do Engenho.

 

O baú de couro que atravessara os mares, atravessa agora as serras, unin­do menina e destino na mesma viagem de cem anos onde a realidade e a fantasia se misturam num sonho adormecido.

 

 

Capítulo 8

 

 

Havia em Vila Nova de Gaia duas quintas com nomes parecidos, a Quin­ta do Castelo que pertencera aos pais de Almeida Garrett, onde o poeta passou a viver a partir dos cinco anos, e a Quinta dos Três Castelos que pertencia a Bernardo Soares de Almeida, irmão de Virgolino.

 

Perto do apeadeiro de Coimbrões, junto à linha férrea, mandou Bernardo Soares de Almeida construir, em 1907, ao gosto revivalista do início do século XX, uma muralha de cimento com três castelos e torreões que ser­via de mirante aos felizes proprietários para verem passar o cavalo de ferro ou o pássaro sem asas. Esta muralha acastelada e de contos de fada encer­rava urna casa que Bernardo Soares de Almeida reconstruíra ao sabor dos tempos românticos. Todo o interior da quinta era de grande imponência e harmonia. Do lado poente havia um portão de ferro de lindíssimo gradeamento que dava para uma alameda empedrada de xistos maravilhosos, bordejada por frondosas japoneiras, e o jardim era adornado por árvores e plantas raras. No alto da alameda erguia-se a casa grande e elegante, servida de uma escadaria de acesso, tudo ao gosto romântico da época. Perto da escadaria havia um lago e um repuxo com um menino a deitar água pela boca. Mais um pequeno mirante escondia o depósito da água. Sob a estátua escreveram a data da construção.

 

Nas traseiras da casa, o portão de cima dava para um espaço agrícola per­tencente ao mesmo dono, que se chamava a Quinta da Lavoura.

 

Na cave do casarão, uma adega enorme com lagar granítico honrava os alicerces da Quinta dos Três Castelos. Hoje, resta um descampado onde se ergue uma escola com esse nome e aí resistem à morte dois dos três castelos, quase esboroados.

 

Diz Hélder Pacheco que agora já ninguém liga ou nem repara, mas nos tem­pos áureos da Quinta, a visão da fortaleza cinzenta, impante e bem tratada, era espécie de cartão-de-visita requintado da Vila Nova.

 

(continua)

 

.

1 Comment

Leave a Reply to Inês AguiarCancel reply