Presidente do CA /RTP: A tentação do abuso do poder, pura ignorância preguiçosa das obrigações do cargo onde o despejaram ou tão só a confirmação do “princípio de Peter”? – por Paulo Rato

Pensa-se que há coisas que “toda a gente” sabe, pelo menos quando aceita um cargo de eminente responsabilidade. É o caso da legislação sobre a empresa pública de rádio e televisão, hoje chamada RTP, por imbecilidade de um marqueteiro qualquer, ansioso por aproveitar uma “marca” já conhecida e, pelo menos, por distracção do anterior CA, já que assim se escondeu a existência da parte da empresa dedicada à rádio. O mentecapto marqueteiro “achou” que bastava que as mesmas iniciais passassem a significar “Rádio e Televisão de Portugal”, o que se está mesmo a ver que toda a gente “intui”, numa espécie de epifania hertziana – entendimento que só poderia surgir numa cabeça reduzida pelos jívaros…

 

Pois o actual Presidente do CA da “ReTdeP” foi lesto a aceitar a nomeação (e os respectivos maravedis de pagamento), mas muito mais vagaroso na, presumo que dificílima, tarefa de se informar sobre “ao que ia”, em particular sobre a legislação que lhe cabia respeitar. De tal modo que, a poucos meses de terminar o mandato, uma sua atitude me obrigou a dirigir ao Conselho de Opinião da RTP, SA a comunicação que se segue:

 

“Fui informado, por pessoa de absoluta confiança, que assistiu ao acontecimento, do inaudito episódio, que passo a descrever.

 

Realizou-se hoje uma reunião entre o Presidente do CA/RTP e um Secretário (só não sei de quê…) do Governo Regional dos Açores.

 

No final da reunião, estavam presentes vários jornalistas, para indagarem dos seus resultados. Entre eles, pela RTP, o jornalista Ramos e Ramos.

 

O Presidente dirigiu-se a este último, perguntando-lhe o que estava ali a fazer, já que – acrescentou com total despudor – “tinha dado ordens à Direcção de Informação para não mandar nenhum jornalista”!

 

O tal Ramos e Ramos, que parece ser um tanto atrapalhado (e cobarde, mas isso são questões genéticas)… tentou justificar-se, esclarecendo o “presidente ignorante das leis” de que o trabalho lhe fora pedido pelos colegas dos Açores. A nenhum dos outros jornalistas presentes ocorreu perguntar ao Sr. Presidente se não sabia que era ilegal intrometer-se na actuação da Direcção de Informação e, por maioria de razão, “dar-lhe ordens”!

 

De resto (só para completar a história), o Sr. Presidente recusou-se a prestar declarações, pelo que os jornalistas ouviram apenas o tal Secretário açoriano, que declarou ter perguntado se o Presidente sabia quanto se iria poupar com a redução da produção de programas próprios pela RTP Açores, tendo aquele respondido que… não sabia! Daqui o referido Secretário deduzira, segundo declarou, que a “poupança” com que se estava a contar só poderia ter a ver com a dispensa de pessoal…

 

Eu, pessoalmente, deduzo ainda que o Sr. Director de Informação, Nuno Santos, acatou acarneiradamente (desculpe, mas todas as outras classificações desta atitude que me ocorrem são menos delicadas que esta…) e sem refutar, nomeadamente referindo a sua ilegalidade, as “ordens” do Sr. Presidente, deste modo se tornando seu cúmplice na infracção à Lei.

 

Espero que o Conselho de Opinião actue em conformidade.”

 

Alguns dias passados, nem o Conselho de Opinião me respondeu, nem vi qualquer notícia sobre um episódio que deveria escandalizar qualquer um que se considere democrata, em particular se exercer a profissão de jornalista, classe profissional que se proclama grande defensora da liberdade de expressão, sobretudo, ao que parece, quando esta está em presumível perigo… mas longe.

 

Mas o que me preocupa ainda mais é o facto este desplante autocrático e ilegal do presidente do CA/ RTP ocorrer na vigência do actual governo PSD/CDS, chefiado pelo vagamente democrata e confirmado aldrabão Passos Coelho (onde já vão as promessas da campanha eleitoral e as pomposas declarações em prol do bem-estar do povo, enquanto andava pela oposição?)

 

Lembram-se de eu ter escrito, há largos meses, que a primeira coisa que a criatura faria, se chegasse ao Governo, seria “descobrir” que a situação estava muito pior do que ele, coitadinho, pensava, pelo que, mui contrariado!, teria de aumentar impostos e pedir mais sacrifícios aos já imolados lusos? Pois… Mas, para ninguém pensar que há milagres ou que tenho visões, aqui fica a solene declaração de que não tirei curso de profeta… Basta-me vê-los e/ou ouvi-los para lhes tirar a pinta…

 

Isto vem elucidar-nos sobre a noção de Democracia desta gente e o que dela podemos esperar, em termos de redução ao silêncio de quem não pense de acordo o que lhes ocupa os mal preenchidos cérebros. Então com a privatização de(pelo menos!) um canal da RTP, tão esganiçadamente propalada, fica garantida a propaganda sem contraditório – para a maioria do povo português – da política criminosa praticada por esta gentalha. Ainda viremos a descobrir que, ao pé dos que o acusavam de ser um eficiente propagandista (que era…), o Sócrates, afinal, não passava de um aprendiz de feiticeiro.
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Paulo Rato, nasceu em Lisboa, no ano de 1947. Seguiu o Curso de Engenharia, no Instituto Superior Técnico e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.. Porém seria o universo radiofónico que o atrairia profissionalmente Na Emisora Nacional e na RDP, foi técnico, locutor, autor e documentalista.

 

 

Desde muito jovem , ainda estudante liceal, desenvolveu actividade política e cultural. Militante do Partido Comunista Português, foi, no pós-25 de Abril, activista e dirigente sindical. Segundo palavras suas, «Não se recorda de alguma vez ter aceitado como “naturais” a miséria e a injustiça.».

 

 

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