(Continuação)
A proibição temporária das vendas a descoberto sobre dados organismos financeiros mostra-nos mais uma vez o absurdo disto se é verdade que o elemento dinamizador terá sido uma má leitura de um jornal inglês de um artigo de ficção. Demais, para ser verdade, mas foi verdade, foi verdade que o dia de dez de Agosto foi o de uma jornada de verdadeiro delírio, como só os mercados tem a arte de saber fabricar, em que os vendedores a descoberto encerraram as suas posições no final do dia.
Veja-se a evolução dos títulos de Société Générale:
Sobre esta história cujos efeitos poderiam ter sido terríveis para a França, para a Europa, vejamos uma síntese comentada de relatos da imprensa desta data e com eles ficamos a saber que ou se é louco, ou se é criminoso, ou se é ignorante para deixar que estes mesmos mercados tomem de assalto as sociedades onde praticamente imperam, espoliando-as, quando na organização destas deveriam ser eles elementos chaves como lhes competiria, e como a estes deveriam ser imposto pelos Estados soberanos que eles agora controlam e regulam. Inversão de funções. Mas não, nada disto estes operadores financeiros fazem, nada disso eles são. Depois de lançarem a economia mundial para a mais profunda recessão económica depois de 1929, ei-los que face aos Estados debilitados lhes impõem agora todas as condições e os obrigam a pagar caro por todas as suas próprias indecisões ou medo. Estes senhores têm medo se o défice é alto, depois tem medo se a dívida pública é alta, depois têm medo se a dívida externa é alta, depois têm medo se a balança comercial não reage, depois têm se não há crescimento económico, depois têm medo se não há crescimento de emprego. Vai-se agora ao ponto de estarem os nossos políticos a fazerem uma verdadeira maratona, nas costas dos seus eleitores a quem deveriam servir, a ver quem chega primeiro a modificar a sua Constituição para os mercados vir assim a satisfazer. Depois disso tudo ainda têm medo de não conseguirem impor o medo de que precisam e até disso se fazem pagar! Vejam-se os spreads relativamente aos títulos alemães a 10 anos, os Bunds:
Spreads, Forex and ZC Coupon Swaps
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10-year spreads |
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Previous day |
Yesterday |
This Morning |
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France |
0.729 |
0.763 |
0.766 |
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Italy |
2.951 |
3.102 |
3.116 |
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Spain |
2.866 |
2.945 |
3.056 |
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Portugal |
9.291 |
9.228 |
9.130 |
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Greece |
16.136 |
16.315 |
16.41 |
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Ireland |
6.492 |
6.565 |
6.705 |
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Belgium |
1.847 |
1.939 |
1.948 |
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Bund Yield |
2.193 |
2.123 |
2.109 |
A taxa de cada país será a que na respectiva linha está indicada adicionada da taxa dos títulos alemães. Se um qualquer de nós emprestasse dinheiro a alguém à taxa que Portugal paga corria o risco nos velhos tempos em que o povo fazia justiça pelas suas próprias mãos de ser acusado de usurário, mas agora pode-se exigir o que se quiser, que não é usura, é o prémio de risco! Trata-se de valores que ninguém pode pagar. Aliás ainda muito recentemente o BNP afirmava que qualquer taxa sobre títulos da dívida pública acima dos 3,5% já não é cobrável, a não ser com sacrifícios que colocam eles mesmos a democracia em perigo e se assim não for teremos os sacrifícios a aumentar e com eles a dívida dos respectivos países numa mecânica puramente infernal. Dúvidas? Veja-se a dívida de qualquer dos países até agora ajudados pelos mecanismos de apoio da Troika. Necessariamente a aumentar. Então ajudados como? Democracia em perigo? Não, disso o nosso menino de Massamá está seguro, agora em primeiro-ministro transformado, porque foi nele que muitas das suas vítimas de agora já se arrependeram de ter votado, mesmo que alternativa não tivessem, o que é outro drama, mas desse falámos nos posts anteriores. Se calhar pensa assim mesmo, porque pensa então que já nem Democracia existe e que basta cortar nas despesas para os capitais alimentar.
Com isto é Democracia do medo que se instala, é este o sistema que agora nos rege mas que lentamente se pode transformar em medo da Democracia e aí a situação politicamente pode-se complicar terrivelmente. Os milhões de mortos da Europa dos anos trinta traçam-nos essa história, é apenas uma questão de memória, embora saibamos que os neoliberais não têm memória a não a ser a do instante que passa. Mas as similitudes com os anos 30 já são muitas.
O exemplo do artigo publicado a 3 de Agosto e a desencadear uma crise a 10 de Agosto, mostra bem o que os senhores nesses mercados. O comissário de olhos vendados, Jean-Pierre Jouyet, nesse mesmo texto diz-nos ainda e no cenário dessa ficção, a ficção do assalto à Société Générale o seguinte: “Nestas condições, a suspensão das transacções sobre certas operações de carácter especulativo justifica-se plenamente”.
A seguir à crise instalada a 10 de Agosto de 2011, na verdade, vejamos declarações Jean-Pierre Jouyet: “They [investors] wanted to test French resistance. This is our response — as always very determined — and it will be so for all those who want to put us to the test.”(…). “Regulators said they had put the ban in place in an effort to “restrict the benefits that can be achieved by spreading false rumours”. Ou ainda e veja-se com cuidado as semelhanças: «Nous avons décidé d’interdire (…) les ventes à découvert sur les actions de 11 banques et assurances cotées sur le marché français, cela pour une durée de 15 jours», ou para concluir as semelhanças, «nous avons à faire face dans différents pays européens à des rumeurs qui ne sont pas fondées et qui entravent le bon fonctionnement des marchés», rumeurs qui «peuvent être assimilées à des abus de marché».
Não estamos no mundo dos adivinhos, isso é a ideia que os especuladores têm de si próprios mas issso é lá com eles. A nós importa-nos reconhecer a concordância entre a ficção (Le Monde) e a realidade, as declarações de Jean-Pierre Jouyet e, portanto, quando as coisas batem certas temos de perguntar não o porquê dessa concordância porque esta afinal inscreve-se na dinâmica de um sistema que um bom perito sabe passo a passo onde vai parar, a questão de fundo, é saber porquê então a inactividade de todos os nossos políticos sobre as situações que dia a dia se estão a passar? Essa é a verdadeira questão a levantar.
(Continua)

