Sobre rumores, sobre tremores, sobre tumores, uma análise do capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

Vejam então a história à volta do artigo para depois lermos finalmente o artigo na sua versão integral.

 

Um folhetim que incomoda …


A ficção “Estação Terminal para o euro”, publicada em 12 episódios pelo jornal Le Monde, fez ranger os dentes a certos banqueiros, tanto quanto ela terá sido a fonte de uma falsa informação que concorreu largamente para afundar os títulos Société Générale em Bolsa.


Foi o diário britânico Mail on Sunday que lançou a suspeita sobre o estado de saúde da Société Genéral, tomando por uma realidade a ficção do diário francês “Estação Terminal para o euro”, assinada sob pseudónimo por “Philae”.


Esta série estival imaginava grandes operações político-financeiras na tormenta e na zona euro em Maio de 2012 em que se dariam as falências dos bancos Société Générale e Crédit Agricole. Contactados pela AFP, os autores do artigo “de Mail on Sunday” não fizeram nenhum comentário. Somente este erro, que o jornal britânico reconheceu e corrigiu, alimentou rumores galopantes nos mercados financeiros que custou muito caro na quarta-feira à Société Genéral, com a queda dos seus títulos em 14,74%, descendo para 22,18 euros. No decorrer da sessão de Bolsa o título tinha mesmo perdido até 22,5%.

 

Demasiado próxima da realidade?

 

Apesar de o banco francês ter tomado em conta “as desculpas sem reservas” formuladas pelo jornal britânico, reclamou no entanto a abertura de um inquérito junto do Autoridade de Fiscalização da Bolsa francesa na esperança de se fazer luz sobre a origem destes rumores “nocivos”. “É bastante irresponsável fazer parecer como sendo tão próximas da realidade, da actualidade”, declarou uma fonte bancária a coberto de anonimato, considerando “inútil lançar gasolina para cima do fogo”.


Tendo em conta os loucos rumores que corriam nos mercados na quarta-feira, um episódio de ficção do jornal Le Monde intitulado “Le Gendarme aux yeux bandés”, publicado na sua edição de 3 de Agosto, faz curiosamente figura de premonição, evocando uma “enorme vaga especulativa” a espalhar-se pela Europa e de que num “horizonte de seis meses, a França poderia perder o seu famoso AAA”.

 

O Crédit Agrícole tinha a peste

 

Esta série estival já tinha feito ranger os dentes dos banqueiros, nomeadamente aos banqueiros do Crédit Agrícole. O banco dirigiu uma carta ao Le Monde que vale como “protesto e como desmentido” do que o jornal fala no episódio da ficção de Philae publicada a 30 de Julho. Le Monde defendeu-se recordando que a menção “ficção política” não deixava nenhum lugar a dúvidas.


Desde a reacção de Crédit Agrícole, o jornal avisou em todo caso os seus leitores para o facto que em cada episódio “as situações, os factos e os números publicados nesta ficção são imaginários e não devem ser tomados como a expressão de uma realidade”. Kiejman, que defende os interesses do banco, declarou quinta-feira não ter “nenhuma decisão a comunicar” relativa a uma eventual acção em justiça do Crédit Agrícole contra Le Monde. “É uma história complicada, é necessário analisar tudo, indicou Kiejman, “é uma decisão que só pode ser tomada colectivamente com a direcção do Crédit Agrícole”. Na sua opinião nada se decidirá antes de Setembro.


 

Um engano de um jornalista a ler um jornal de uma outra língua e o drama correu o risco de se abater sobre a França e daí sobre a Europa, porque de rumores, de tremores, de tumores, é deles que vivem as sanguessugas dos mercados financeiros. E a história como acabou? Simples, uns ganharam, outros perderam e as batalhas deslocaram-se para outras paragens.


No fim de sessões yô-yô, as Bolsas ocidentais terminaram em alta ou mesmo com forte aumento nesta quinta-feira, após a tempestade da véspera e após a forte descida dos seus índices.Em Nova Iorque, o Dow-Jones subiu 3,95% e o Nasdaq 4,69%. Anteriormente, Paris tinha subido 2,89%, Frankfurt 3,28% e Londres 3,11%. Madrid subiu 3,56% no encerramento, Milão 4,10% e a Bolsa suíça ganhou 5,02%. Os mercados no entanto continuam a estar muito voláteis, muito sensíveis a todas as informações possíveis.


Em Paris, os valores dos bancos responsáveis pela forte queda da véspera, retomaram a sua subida depois da informação de uma reunião na terça-feira próxima entre o presidente francês e a chanceler alemã sobre a reforma da governança da zona euro. A Société Genéral terminou nomeadamente com um aumento de 3,70% depois na véspera ter tido uma queda espectacular de 14,74%, descendo assim para 22,18 euros. Conclusão, uma tempestade, títulos ao longo do dia foram descendo, foram depois pelo final da tarde saldadas as contas, houve quem ganhasse, houve quem vendeu na alta e comprou na baixa à tarde para entregar o que tinha vendido de manhã. Fortunas mudaram assim de bolso, o espectáculo fechou para recomeçar depois com outros títulos, com outros valores, possivelmente com os títulos soberanos. Abateram-se uns cavalos, mas os povos também se abatem e foi disso que depois se foi à procura. Possivelmente sobre os títulos italianos. Porquê os italianos?


Temos estado a defender que nos aproximamos vertiginosamente do modelo social vizinho do modelo fascista mas actualizado, modernizado, o que a esquerda italiana qualificou de “equivalente funcional do fascismo”, logo com a Democracia em perigo de prisão. Nesta mesma altura, a Itália recebe uma carta secreta enviada pelo BCE onde este coloca as condições precisas em troca do seu apoio, revelou na segunda-feira o jornal Il Corriere della Sera, citando as rápidas privatizações, em especial as empresas municipais, e a reforma do mercado de trabalho, carta essa assinada por Trichet e por Mário Draghi.


Esta carta secreta, qualificada de quase «programa de governo», estabelece a lista das medidas a tomar, o calendário para a sua aplicação e mesmo os instrumentos legislativos a utilizar, decretos legislativos para acelerar a sua própria realização, segundo este mesmo jornal. Uma carta secreta, que deixa de ser secreta, mas mesmo que dela nada de concreto se saiba, são os rumores instalados e o espectáculo must go on!


Mas voltemos ao nosso artigo de 3 de Agosto. E o Le Monde que nos diz sobre a questão, sobre a polémica levantada, que nos diz sobre as consequências deste artigo publicado a 3 de Agosto, que nos diz sobre este mundo de gananciosos que são  a matéria-prima da sua série de artigos sobre o euro e em particular do artigo de 3 de Agosto  que será depois aqui  publicado na integra, que relato nos dá então, sobre os rumores instalados?  Vejamos então o que no le Monde se escreveu a  12 de Agosto:

 

Société Générale: o rumor, o outro rumor… e o jornal “Le Monde”

 

Le Monde

 

Por detrás do rumor, ainda o rumor e… o jornal Le Monde. Para explicar a descida brutal — 14,7% — das acções Société Genéral, na quarta-feira 10 de Agosto na Bolsa de Paris, traders, analistas e jornalistas exumaram um artigo do jornal britânico Mail on Sunday publicado a 7 de Agosto … três dias mais cedo.


Citando “uma fonte governamental de alto nível”, a edição dominical Daily Mail afirmava que o banco se encontrava-se “à beira do desastre depois de enormes perdas” na Grécia, da mesma maneira que o banco italiano UniCredit.


O jornal tentou em vão retirar o artigo do sítio do jornal a partir de segunda-feira, Mail on Sunday bem tentou corrigir e publicou, na terça-feira à noite, um artigo no qual afirmava que as suas informações “não eram verdadeiras” e apresentava as suas “desculpas sem reservas” à Société Générale, mas nada resultou …


Por detrás deste rumor, um outro rumor, rapidamente difundido na Net, nasceu na quarta-feira ao início da noite: Mail on Sunday teria interpretado erradamente a ficção política publicada este Verão, durante duas semanas, em Le Monde, sob o título “Estação Terminal para o euro” (reservado aos assinantes) e assinado com o pseudónimo Philae. E teria tomado como real este conto imaginário em que se relata a explosão da zona euro em Maio de 2012 e o regresso da Alemanha ao deutschemark, sobre um pano de fundo de crise da dívida e de dificuldades de Crédit Agrícole.


Contactado na quinta-feira à noite por correio electrónico, Lisa Buckingham, a responsável do serviço economia do Mail on Sunday, desmente qualquer má interpretação à leitura do Le Monde: “Posso afirmar que, jornalistas como fontes, não conhecíamos de modo nenhum a existência desta série publicada em Le Monde.”


“Não sabemos o que pôde ter levado Mail on Sunday a publicar esta informação falsa e irresponsável, explica a Société Générale. Solicitámos a intervenção da Autoridade dos mercados financeiros para efectuar um inquérito quanto á origem destes rumores que prejudicam fortemente o interesse dos seus accionistas.”


O banco só raramente aparece nesta ficção escrita pelo jornalista independente Florença Autret, correspondente em Bruxelas de L’ Agefi e de  A Tribuna. Por duas vezes, uma vez de forma resumida, uma outra vez sobre treze linhas, é referida o ataque do banco JP Morgan sobre a Société Générale, sem qualquer referência à sua situação financeira. Por uma vez o seu Presidente participa numa reunião de banqueiros com o Tesouro para analisarem o caso do Crédit Agrícole.

 

Tweet e falso despacho por telex

 

Uma quarta passagem desta ficção contudo teria podido levar à confusão: a descrição de um longo debate em Nova Iorqueonde o proprietário de hedge fund John Paulson explica em dado momento que o “risco principal para a Europa é a fragilidade do seu sector bancário” e a sua “dependência” dos “fundos monetários americanos”.


E de ter acrescentado um pouco mais tarde: “O regulador americano insiste junto destes fundos de modo que invistam em papel mais líquido que o da Société Générale ou de Unicredit.” Ou seja, os dois bancos citados pelo Mail on Sunday — mas é o único ponto de semelhança entre este artigo e a série do Le Monde.


De facto, o rumor propagou-se na conta Twitter de um jovem jornalista da agência Reuters sediada em Paris, que afixou na quarta-feira à noite pouco antes de 18 horas a mensagem seguinte: “O rumor de um SocGen em falência teria partido de uma má leitura pelo Daily Mail da série do Verão do Le Monde”. Questionada pelo telefone, explica, confusa, ter retomado sobre o sistema de comunicação interno da Reuters uma mensagem difundida por um outro jornalista parisiense da agência, que dizia que um trader fazia uma relação entre a série do Le Monde e Mail on Sunday. Sobre este serviço de mensagens instantâneo, os jornalistas de Reuters trocam entre si rumores apanhados junto dos traders e nos ruídos que percorrem as salas de mercado.

 

(Continua)

 

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