Cândido Rondon – 4 – por Fernando Correia da Silva

 

(Continuação)

MANTER A PAZ

 

Diaí Nambikuára levanta-se, parece um felino a deslizar pela sala. Estaca de súbito, imobiliza-se, fita-me, diz-me:

 

 – Da pré-história à civilização… Viagem no tempo, rumo ao futuro, e Rondon cuidando sempre do bem-estar dos viajantes… Você pode imaginar o que é atravessar milénios em apenas duas ou três gerações? Menina, imagine-se a correr a Maratona. Aos cinco quilómetros Você já está exausta e ainda falta tanto para chegar ao fim… Para nós é viagem cansativa mas fascinante. Deslumbrados, lá vamos nós em frente, talvez mesmo hipnotizados. Se não houver escolta que proteja a nossa marcha, seremos presa ainda mais fácil para os bugreiros. Em 1916 dirá Rondon: “Sertões onde nunca pisou homem civilizado já figuram nos registos públicos como pertencentes aos cidadãos A ou B; mais tarde ou mais cedo, conforme lhes soprar o vento dos interesses pessoais, esses proprietários expelirão dali os índios que, por uma inversão monstruosa dos factos, da razão e da moral, serão então considerados e tratados como se fossem eles os intrusos salteadores e ladrões.” – Premonições… – Eu diria antes: realismo! Por essas e por outras Rondon exige que cada tribo pacificada fique sob a protecção do Exército e, depois, sob a protecção do Estado. Demarca cada território tribal e tenta registá-lo como propriedade colectiva da tribo. E trata de garantir-nos o direito de vivermos as nossas próprias vidas, de professarmos as nossas próprias crenças e de evoluirmos segundo o ritmo que formos capazes de alcançar, sem nunca estarmos sujeitos a qualquer açoite ideológico.

 

– Nem da catequese católica?

 

– De nenhuma catequese. Professores sim, sacerdotes não. Para quê outros pajés? Para mais nos confundirem, cortando as nossas raízes tradicionais? Repare nos mortos-vivos em que os missionários jesuítas, Anchieta e Nóbrega incluídos, transformaram os índios catequizados. Os coitados perderam a civilização a que pertenciam sem terem conseguido entrar naquela para onde os queriam levar… Algo de semelhante se passa hoje em África. Por ali, mortos-vivos, rapinantes e bugreiros, é o que não falta…

 

– Mas Diaí, bugreiros, em África?

 

– Chame-lhe negreiros, se quiser, qual seja a cor que tiverem. Ali, é a cobiça que fomenta as lutas inter-tribais, mortos em cadeia, hecatombe. Apenas sobrevivem os mortos-vivos, errantes de raiz cortada… Hoje, não só em África, mas em todos os continentes, precisaríamos de um punhado de homens com a têmpera do Rondon… Lutou sempre pela paz, não só entre índios e brancos, mas entre índios e índios.

 

– Por exemplo…

 

– Olhe, não vá mais longe, entre os Paresi e os Nambikuára, a minha tribo.

 

– Entendo… Mas nós estávamos era a falar do programa do Rondon… – Menina, tenha calma, foi um aparte, já estou encarreirando: todo o programa do Rondon é sistematizado em 1910 com a fundação do SPI – Serviço de Protecção aos Índios, dependência do Ministério da Agricultura que acabará por ter 67 postos de assistência aos índios distribuídos pelo interior do Brasil. O 1.º director é, obviamente, Cândido Rondon. Nem ele, nem o SPI, nos pespegam ideias feitas, apenas nos fornecem meios para podermos evoluir: ferramentas de metal para facilitar os nossos trabalhos na mata; as artes de fiar, tecer, cortar e coser para melhor nos vestirmos; o sal e a gordura para melhor conservarmos os alimentos; remédios, preceitos e produtos de higiene; a arte de levantar uma casa de pau a pique, etc. Apenas meios para começarmos a viver melhor, não ideias preconcebidas. De entre nós, só os que mostram ânsia de saber mais, é que são alfabetizados.

 

– Como Você?

 

– Sim, como eu. E apesar de eu já ter estudado muito, saudades tenho ainda de correr nu pelas minhas matas e banhar-me nos meus igarapés… Não se atravessa, impunemente, milhares de anos numa só vida…

 

– Quantas tribos pacificou Rondon?

 

– Muitas! Não só Rondon, mas também os seus colaboradores do SPI… Assim de cor, não sou capaz de dizer todas. Cito apenas algumas: os Bororo, os Caiamo, os Guaicuru, os Uachiri, os Cavaleiros, os Ofaié, os Terena, os Quinquinau, os Paresi, os Kaingáng, os Xokleng, os Botocudo, os Umutina, os Nambikuára, os Tirió, os Pianocoti, os Kepkiriwát, os Parnawát, os Urumi, os Arikén, os Rama-Rama, os Urubu, os Parintintim e, por último, os Xavante, em 1946. Rondon morreu com 93 anos. Desses, mais de 57 foram dedicados à defesa dos direitos dos povos indígenas do Brasil. Firmeza, nunca desistiu de alcançar a Yuí Marane’i.

 

 – O que é isso?

 

– Yuí Marane’i, a Terra Sem Mal… Quando hoje eu vejo a Amazónia a arder, incendiada pela ganância de madeireiros e seringueiros e criadores de gado; quando vejo os seus bugreiros apostados em chacinar até ao último índio, ou à bala, ou com veneno como a estriquinina, ou com doenças contagiosas como a varíola, disseminadas de maloca em maloca, pergunto-me onde estaríamos hoje nós, povos indígenas, se não tivesse existido um Rondon. Embora muitos de nós tenham sido e continuem a ser chacinados, dezenas de milhares foram salvos por ele.

 

– Um grande missionário! Leigo, mas um grande missionário… Diaí Nambikuára irrita-se, parece furioso com a minha observação. Não me espantará se arrancar camisa e calças para, desnudo, iniciar uma dança guerreira. Já me atira um dardo com ponta de sílex:

 

– Menina, não diga bobagem! Apesar desse “leigo” metido a adversativo, esqueça a palavra… Pelos sacrifícios que sofrem servindo a Deus, os missionários pensam ganhar o Céu. É recompensa metafísica, mas recompensa. Já Rondon e os homens do SPI são movidos apenas por uma ideia civil, laica, viver para outrem. Para eles não está prometida qualquer recompensa; nem nesta, nem na outra Vida. Ora diga lá: quais são os mais abnegados?

 

(Continua)

 

 

Leave a Reply