UM CAFÉ NA INTERNET – Amadeu Ferreira – Tempo de fogo – por Teresa Martins Marques

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

     

 

Tempo de Fogo (Âncora Editora, 2011) é o primeiro romance de Amadeu Ferreira, intelectual com riquíssimo currículo nas letras nacionais, de que deu largas provas nos domínios da poesia, da tradução, do ensaio e da crónica jornalística, quer em português quer em mirandês, ao longo de mais de quarenta anos. Num texto intitulado «Grito no Silêncio», escrito aos 19 anos, publicado a 7 de Novembro de 1969, na ‘Tribuna dos Novos’, do Mensageiro de Bragança, o jovem Amadeu escreve:

“Noite. Os passos incertos de dois jovens sob o firmamento. A sua voz é a sua alma a palpitar em uníssono, é um grito no silêncio da noite, mas um grito que morre sem eco. Nos seus olhos a noitidão e a profundeza de estrelas.”

Observe-se como em apenas três linhas se revela já o embrião de um futuro escritor. Num cenário de deambulação nocturna, propício à concentração das emoções, o leitor é tocado pelo sentimento de comunhão de duas almas, de partilha afectiva a que não é alheio o estrangeiramento, a angústia, a solidão, relativamente a um mundo exterior onde o grito de revolta morre sem eco. Repare-se na última frase: Nos seus olhos a noitidão e a profundeza de estrelas. Elevação, profundidade e negrume criam a estes dois seres humanos uma moldura que os fragiliza, mas simultaneamente lhes confere dinamismo e coragem para arrostar com a noite, que neste contexto traz consigo uma simbologia de cariz ideológico. A belíssima palavra «noitidão» é um neologismo de Amadeu Ferreira, significante carregado de sentido onde se conglomera a noite, a escuridão, o peso da solidão. Estamos perante uma pérola linguística, que funciona como um pirilampo na berma de um caminho, permitindo visualizar aproximativamente o que será o centro do trilho que mais tarde virá a percorrer em Tempo de Fogo, romance onde se revela a literatura como linguagem carregada de sentido, segundo Ezra Pound, numa definição que parece simples, de tão evidente, pois que o sentido é inerente a toda a linguagem, mas será precisamente a carga emocional que a transfigura enquanto literatura. O leitor tem perfeita noção daquela carga emocional, em vários momentos do romance, e, de modo particular, através da personagem Frei António da Santíssima Trindade, pregador de alto coturno, de matriz panteísta, doutor por Salamanca, que detém o poder supremo de curar pela palavra. Este doutor é, todavia, o mais simples dos homens, transformando-se no avesso de um Freud avant la lettre, que aos poucos vai curando Laurinda, a Doida da Taneria, pela força melodiosa do sons  da sua  boca,  fonte de onde jorra a água das palavras que lava a alma da pobre doente, atada por uma corda a uma argola, lançando ao vento os seus gritos de desespero, louca furiosa que o povo julga possuída pelo demónio e que, na realidade, sofre a sede do abandono, da depressão pós-traumática, como hoje se diria, depois de os esbirros ao serviço da Inquisição lhe matarem o marido, em plena lua-de-mel, assim transformada em lua de fel. Só Frei António a entende e a liberta da corda que a acorrenta. Só Frei António lhe traz calma através da água límpida das suas palavras e “a água só é boa se sair de boa fonte. Há uma água que tira a sede e há uma água que mata. A mesma coisa se passa com as palavras, tudo depende de quem as diz. Há palavras bonitas que são puro veneno quando saem de bocas envenenadas. Essas são as piores, porque enganam mais. São palavras do diabo.”

As palavras de Frei António eram, na realidade, água puríssima, bálsamo sobre a alma ferida da pobre Laurinda. Ouçamo-las, porque também a nós, leitores, elas nos fazem bem, neste mundo em que as vozes, as mais das vezes, são monólogos lançados ao vento:

“Nos primeiros tempos, era eu que tinha de começar a falar. Sentava-me, olhava de longe e começava devagar, dando tempo às palavras de encontrarem o seu caminho, dizendo-as de modo muito claro. Ainda bem que ninguém aparecia por aquele cabanal, senão não saberia como fazer, pois quem fala sozinho diz-se que não está bom do miolo. Depois de algumas falas, lá vinha a Laurinda ter comigo, cãozinho a aninhar-se aos pés do dono. Sentia-a aproximar-se sem nunca me calar ou alterar o tom de voz, com medo de que desconfiasse de que tudo não passava de isco para a encandear. Algum tempo depois de ter aparecido pelo cabanal, ela nem esperava que eu começasse a falar. Pegava-me na mão e levava-me para onde me pudesse sentar, quase sempre uma pequena pia de pedra onde bebiam as galinhas. Ela sentava-se no chão, a meus pés. Depois, enchia os olhos de perguntas e esperava os primeiros sons. Assim que a envolviam, saía-lhe um sorriso doce, encostava a cabeça aos meus joelhos, com as mãos debaixo para não sentir a aspereza do pardo no seu rosto suave.”

Estes encontros  criam  um forte laço de afecto terapêutico recíproco, porque se a palavra do frade dá a Laurinda a paz de que precisa, ela transforma-se na ouvinte ideal deste pregador desapossado dos seus fiéis, a quem o bispo proibiu de dizer missa e que acabará “relaxado em carne”, na fogueira da Inquisição de Coimbra, condenado pelo pecado de juventude de ter amado outro homem, Luís de Medina, sentenciado também ele pelo “crime nefando” que a Inquisição não perdoa.  Quando retiram a Laurinda as palavras de Frei António, a rapariga acabará por morrer, provando-se desta forma que eram apenas as suas palavras que a seguravam à vida. Sentenciando-lhe o marido e depois  Frei António, os inquisidores matam ainda uma terceira vítima inocente, incapaz de resistir à dupla perda. Entrámos no reino do absurdo onde ditam as leis os brancos frades  da Ordem de São Domingos, de alma enegrecida, da cor do  pez que faz arder os condenados. Neste reino, em nome de Deus, o amor homossexual é considerado crime para legitimar o verdadeiro  crime de torturar e assassinar em fogo lento.  Nem Hitler foi tão longe, pois que gazeava os judeus antes de os queimar e a famigerada estrela amarela recua no seu uso ao século XIII, mais precisamente ao Quarto Concílio de Latrão, convocado por Inocêncio III, mostrando que Deus tem as costas largas, que em seu nome quantos crimes se cometeram, parafraseando Madame Roland à beira da guilhotina:” Ô Liberté, que de crimes on commet en ton nom!”

Amadeu Ferreira sabe dosear com extraordinária destreza  a carga emocional da linguagem, pois, se não consegue mudar o rumo da negra História da Inquisição e punir os assassinos de Frei António da Santíssima Trindade, para consolo do leitor, não vai deixar impune o  assassinato do jovem marido de Laurinda. O sogro jurara que não iria embora deste mundo sem vingar a morte do genro, às mãos do temível guarda do meirinho de alcunha “o Algoz”. Manuel Miguel, pai de Laurinda, assim o disse e assim o fez:

“Pouco passaria do meio-dia quando o Algoz teve de ir satisfazer as suas necessidades atrás da curriça, agachando-se perto de umas carvalheiras. Manuel Miguel estava mesmo por detrás dele, escondido nessa moita para que ninguém o visse. Quem diria que o seu inimigo viria ter com ele daquela maneira, bastando estender o braço para o alcançar? Deixou-o fazer um bom montão de fezes e depois, como um relâmpago, Manuel tira a correia que trazia no bolso e deita-a ao pescoço do Algoz. Nem ele mesmo sabe como fez tudo tão depressa, pois nunca tinha imaginado que as coisas se iam passar assim. O Algoz bem esperneou, bem esbracejou, mas Manuel Miguel era um homem forte e nem o deixou mexer do sítio onde estava, puxando-lhe a cabeça para trás de modo a olhá-lo bem nos olhos e cuspindo-lhe uma risada macaca. Não lhe apertou demasiado a correia para não lhe deixar marcas demasiado suspeitas no pescoço. Mal o Algoz desmaiou, como ainda não estava morto, torceu-lhe o pescoço e partiu-lhe a espinha com um safanão forte e seco. Virou-lhe a barriga para baixo e espetou-lhe a boca contra o monte de fezes que ele próprio tinha feito.”

Repare-se na simbologia deste acto final de humilhação excrementícia. Se o homem é pó e em pó se há-de tornar, a natureza moral do Algoz era a mesma matéria em que mergulhou de borco na cena fecal – e final. Diz-me o que és, dir-te-ei o que procuras e que finalmente encontras, pensará o leitor. Interpretada a causa da morte como presumível ataque cardíaco, a ironia final do autor concentra-se nestas breves palavras: “Deus fez o seu trabalho e pronto. Vamos embora.”

Romance em trânsito, à maneira de Montaigne, Amadeu Ferreira não pinta o ser, pinta a passagem, porque cada homem traz em si a forma inteira da humana condição. As personagens vão sempre a caminho de alguma coisa: a caminho da sé de Miranda, onde o Bispo chama Frei António para o prender; a caminho da feira de Mogadouro, onde os pobres sapateiros vão vender as socas e, sobretudo, em busca de um patrão que durante algum tempo lhes mate a fome; a caminho da feira do Naso, como António Tolês, o de mala sangre, que deve a alcunha à avó queimada em Toledo; a caminho de Coimbra vai a leva dos presos, para prestar contas à Mesa da Inquisição. Trânsito em viagem de fim incerto, que duplica a metáfora da vida humana, do homo viator.

Ludovina é outra personagem marcante deste romance, pobre rapariga grávida que se atira das muralhas de Miranda, apaixonada por dois Antónios, o frei, marcando uma paixão da alma, e o Tolês, marcando uma paixão do corpo, o qual  faz a ponte entre ambos, numa cena de violência sexual, mas de grande elegância verbal, que constitui  o único verdadeiro pecado de Frei António, porque atentatório da liberdade do parceiro. Este é também um romance que vive de fantasias eróticas como a da extraordinária Maria Castra, a quem nenhum homem tocou, mas que  sonha com um cristão-novo, que por ironia do destino virá a transformar-se na sua própria condenação. Numa cena de grande ternura, de noite, um dedo entrelaçado através de uma frincha, pode salvar mais almas do que todas as orações do mundo. A solidão compensa-se com pouco, tal como a fome se contenta com o mínimo – uma côdea de pão que se distribui entre os presos, num tempo de fome, que é também esse tempo de fogo e de hipocrisia em que se acusam de heresia os vizinhos para salvar a própria pele, quantas vezes inutilmente, e, sobretudo, como maneira “santa” de ficar com as terrinhas deles.

Romance de matriz realista, mas também reflexiva, ao modo proustiano, sobre o valor do tempo, da memória e do esquecimento, da culpabilidade intrínseca que determina a angústia existencial da condição humana:

“Toda a gente tem alguma coisa no seu passado que gostaria que nunca tivesse acontecido ou que se tivesse passado de modo diferente, recordações que tudo faria para que fossem esquecidas para sempre, palavras que ficaram agarradas ao tempo como vento a ondear pelos trigais, factos que parecem a respiração de um bafo de eternidade, pois não há maneira de se corromperem  e desaparecerem como tudo o que é humano. São como um ovo que pode demorar anos até ser chocado, água que pode correr quilómetros debaixo da terra e demorar anos, por vezes séculos, até encontrar um veio por onde possa subir e sair numa fonte. […]

O tempo persegue-nos mais do que pensamos, o nosso tempo nunca passa enquanto estivermos vivos, pronto a engolir-nos, sempre crescendo, como tudo o que vem de trás, ainda que as nossas recordações dos factos já tenham acalmado. Também assim foi criado o mundo em que vivemos e nem este seria a nossa casa se não fosse feito de memórias, de instantes e de vidas de onde goteja o orvalho do tempo, cabide onde a vida se expõe. “   

Romance de valores intemporais, o autor vai fundo na denúncia da mesquinhez, da inveja, esse monstro de olhos verdes, como disse Shakespeare, a besta do Apocalipse, como escreveu Amadeu Ferreira, fénix rastejante eternamente pronta a renascer, qual caruncho silencioso que ataca surdamente, “sobretudo a  partir dos que estão mais perto de nós, os que se apresentam como os nossos melhores amigos, aqueles em relação a quem estamos mais desprevenidos”.  Este sentimento negativo é o avesso da admiração, como vemos em Frei Leon de Castro, professor catedrático da Universidade de Salamanca, agitador dos caldeirões da inveja, que  tudo faz para arrasar o tradutor do Cântico dos Cânticos, Frei Luís de Léon, o mais sábio dos homens.

Através da figura de António Tolês denuncia-se também a claustrofobia dos espaços concentracionários da aldeia, onde todos devem prestar contas aos olhos dos vizinhos, onde não se suporta que alguém mostre que conhece o que aí se ignora. Foi pelo Tolês trota-mundos que a aldeia soube da existência de Veneza, de Milão, de Avinhão e de outras tantas cidades. Pelo mundo descobriu que há testamentos falsos e uma frase o condenou: a comparação do presumível falso testamento de seu  pai ao Testamento de Cristo. Passando-se a acção principal no século XVII, sem o Tolês como correio, não teriam os papéis de Frei António chegado às mãos de João Gabriel, um professor republicano de Sendim, em Setembro de 1921, mês do nascimento do pai do autor, que frequentou a escola do Canzelo, a mesma onde lecciona este professor.  Esta data antecede em um mês a fundação da Seara Nova, mostrando como o ideário republicano tem muito em comum com o de Frei António, já que a justiça, a liberdade e a tolerância são valores partilhados pelas pessoas de bem de todas as épocas, porque “a maldade não está nas coisas mas em quem olha para elas”. Frei António encontra um duplo ouvinte e, tal como, através da fala, tentou salvar Laurinda trezentos anos antes, tenta agora salvar pela escrita o professor João Gabriel, pois lhe muda a vida, e vai fazê-lo dizer que “os professores são deuses caídos, há muito tempo expulsos do paraíso”. Fora do paraíso só há um caminho: o do regresso. Para isso é preciso aprender a intervir na sua comunidade escolar e intervir é criar problemas para lhes encontrar a solução. Esta é aritmética dos que acreditam que, denunciando a injustiça, o preconceito, os falsos moralismos, é possível construir um mundo melhor. A estratégia é de uma extraordinária simplicidade: como Frei António, basta falar e fazer-se ouvir: “Falar é criar sentidos atirados a quem os queira apanhar.” Por isso, Amadeu Ferreira, através do professor João Gabriel, sabiamente conclui o romance: “Ainda bem que já não ardem as fogueiras. Ou será que continuam à espera de quem as volte a acender?”

Para que o tempo de fogo possa ficar definitivamente extinto, será bom  seguir o exemplo  de Eduardo Lourenço, que nos diz: “Não emprestarei os meus joelhos aos ídolos sentados no lugar impossível de Deus.” Esse lugar que não mais deve ser possível é o da intolerância sexual, religiosa ou política. Porque “ainda não se inventou uma ferramenta para dobrar a liberdade sem a matar”. Através da defesa acérrima de valores de liberdade, Amadeu Ferreira mostra-nos que a literatura tem uma função social, sem deixar de ser arte da linguagem.

O médico e escritor Ferdinand Céline era vizinho de Jorge Listopad, que tinha as filhas doentes – duas  gémeas ainda bebés. Certa noite foi bater à porta de Céline pedindo-lhe o favor de ir vê-las. Este respondeu, certeiro: não posso deixar o meu cão sozinho. Como vemos, ser um grande escritor não transforma ninguém num grande homem. Todavia, um grande homem que domine superiormente a arte da linguagem  será sempre um grande escritor.  Como disse François Mauriac, o escritor é  um homem que não se resigna à solidão.  Amadeu Ferreira jamais se resigna e um romance como Tempo de Fogo não pode ser calmo, porque fala da vida autêntica do espírito que é luta, e só os pântanos são calmos. Este é um livro de revolta prometaica contra os pseudo-donos de Deus, que, invocando falsamente o seu nome, acendem as fogueiras da intolerância, queimando homens, queimando bibliotecas, queimando a chama da inteligência, inextinguível  como a pequenina luz de um belíssimo poema de Jorge de Sena. Este é um livro sem repouso, pois que no reino das palavras, não existe repouso, como escreveu David Mourão-Ferreira, “porque nele se espelha, se empenha e se renova o que há de mais profundo na condição humana”. Tem razão Afonso Lopes Vieira, quando diz: “As palavras são como as pedras. O espírito é que as lavra.” Amadeu Ferreira lavrou-as impecavelmente neste belíssimo romance, que vai marcar de forma impressiva a memória dos leitores.

 

Bragança, 10 de Junho de 2011

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