OS HOMENS DO REI -14- por José Brandão

D. AFONSO III (reinou de 1248 a 1279)   

                                                                                                                

 

D. Afonso III, quinto rei de Portugal, filho segundo de D. Afonso, o Gordo, e D. Urraca de Castela, nascido em Coimbra em 1210. Inteligente, culto, ambicioso, de notável vocação para a política, guindou-se ao trono, colaborando na vasta conjura da alta nobreza e do alto clero para a deposição de seu irmão D. Sancho II, rei cavaleiro e enamorado, de tanto valor militar como de incapacidade política para governar o desorganizado reino que os devaneios de seu pai lhe deixaram.

 

Monarca de grande compleição física e de carácter equitativo, este filho de D. Afonso II, que sucedeu de forma violenta no trono a seu irmão, foi ainda um grande viajante e devoto das artes e das letras. Bolonhês por ter passado muitos anos em França, de onde regressou para reinar, trouxe consigo uma larga comitiva de letrados que muito desenvolveram o reino no saber. Conta-se também que no seu séquito estavam muitas damas estrangeiras, que foram o rodopio da Corte, e raios de sol para os fidalgos portugueses.

 

Para além das incontáveis amantes, D. Afonso III viu-se perseguido por graves problemas no que toca aos casamentos que fez. Casou em 1253 com D. Beatriz, ou Brites, filha de Afonso X de Castela, quando tinha já casado com D. Matilde, condessa de Bolonha. A bigamia escandalizou desde a Corte à Igreja, dizendo-se que Afonso X já sabia do facto, o que não impediu de entregar a filha a um destino tido por pecaminoso, pela sua ânsia de poder e desejo da coroa portuguesa.

 

Do primeiro casamento chegou mesmo a haver filhos. Ignorando o segundo casamento do marido, D. Matilde chega a Lisboa com um filho seu e de D. Afonso III nos braços. Ao sabê-lo casado com D. Beatriz, lamentou a sua vinda sem saber que mais fazer.

 

Apesar de valente, não tinha o novo rei D. Afonso III o ânimo essencialmente militar do irmão deposto D. Sancho II. Dado, porém, o estado calamitoso do reino, e com o Algarve ainda por conquistar, antepôs a todos os outros problemas internos essa guerra de conquista, brilhantemente concluída, em 1249. Logo essa conquista do Algarve, até além-Guadiana, suscitou contendas diplomáticas e operações militares com Castela de Afonso X.

 

D. Afonso III conquista Faro, Albufeira, Loulé, Aljezur, Porches e Silves. Faz ainda outras conquistas para além do Guadiana. O rei de Castela reclama-as lembrando-lhe um acordo que o rei de Leão, Fernando II, fizera com o sogro D. Afonso Henriques, segundo o qual, este, não poderia ultrapassar a linha do Guadiana nas suas investidas e conquistas aos mouros.

 

Acabada em 1250 com a ocupação do Algarve a conquista da terra, a missão da realeza mudava de sentido.

É depois disso que o reinado de Afonso III se enobrece com a mais importante inovação de cultura política da dinastia – as primeiras Cortes Gerais de 1254.

 

A questão pendente da soberania no Algarve foi favoravelmente resolvida com admirável sagacidade e tacto em 1267, por tratado de pazes definitivas com Afonso X, o Sábio, de Castela, que renunciava sem reserva a todos os seus pretensos direitos ao Algarve. A desejada fronteira sul do reino pelo curso do Guadiana tornava-se definitiva por instrumento diplomático. Consumava-se, juridicamente, o edifício territorial da nação, destacado do grande complexo ibérico desde as Pazes de Zamora de 1143, a poder duma incansável luta de quase três séculos.

 

Teve um papel crucial na consolidação da identidade nacional como fusão das culturas cristã, moçárabe e muçulmana.Com o apoio popular lutou contra o clero e Roma. Concluiu a conquista, tomando o enclave que os muçulmanos ainda possuíam no Algarve.

 

Entretanto, o Papa Alexandre IV ordenou ao rei que abandonasse D. Beatriz considerando válida apenas a união com D. Matilde. O nosso rei não acatou a ordem, procurando ganhar tempo com múltiplos estratagemas, até à morte da condessa. Chegou mesmo a desmentir o primeiro casamento, enquanto afogava as suas mágoas no regaço de muitas outras damas formosas, o que servia também ao nobre aumento da população do reino.

 

O Papa excomunga D. Afonso III e ordena ao povo que não lhe obedeça. Nem o rei, nem o povo lhe conferem qualquer importância. A transferência de poderes para o filho D. Dinis, logo após a sua morte, não causou quaisquer problemas.

 

Os seus últimos doze anos de reinado foram dedicados à obra de consolidação orgânica. Só então se tornava oportuna e eficiente a política fiscal de seu pai, com um confisco geral que levantou em massa contra o rei o clero e parte da nobreza do reino, energicamente batidas por todos os meios. Durante anos se estendeu essa luta do rei com a Igreja, mais violenta e feroz que todas as anteriores, tendo esta recorrido aos meios extremos – excomunhão geral e promulgação da famosa bula De Portugaliae Regno que, tal como no reinado de Sancho II, desligava os portugueses da vassalagem ao novo monarca.

 

Tudo inútil. Afonso III manteve-se firme no seu trono e, fomentando a riqueza, alargando o comércio marítimo com a França e Flandres, reformando a administração e o sistema tributário, robustecendo a vida municipal, fortalecia a magnífica estrutura da Nação, preparando-a para grandes destinos.

 

A este monarca deveu Portugal uma vigorosa iniciativa no tocante a promover a prosperidade do seu povo, já desenvolvendo quanto pôde o elemento agrícola, o industrial e o comercial, já concorrendo para que os municípios fossem pouco a pouco adquirindo importância na grande tarefa da pública administração. Assim, não só concedeu numerosíssimos forais, mas inclusivamente inaugurou nas cortes de Leiria celebradas em 1254 a praxe de convocar os procuradores dos municípios dando-lhes assento nessas assembleias onde até então só figurava a nobreza e o clero.

 

Ainda neste reinado continuaram as lutas contra o clero e contra a cúria pontifícia. Os bispos, não encontrando no monarca o instrumento dócil que pressupunham, começaram a hostilizá-lo apelando para Roma contra o firme propósito que D. Afonso III manifestava de não consentir a ingerência do clero nos negócios temporais.

Em Fevereiro de 1279, morre penitente e contrito pelos males causados a seu infortunado irmão.

 

Gil de Valadares, Estêvão Anes e João Peres Amorim foram homens do rei D. Afonso III.

 

 

Gil de Valadares (São Frei Gil de Santarém) (1185-1265)

 

Filho de D. Rui Pires de Valadares, grande fidalgo do Conselho de D. Sancho I, seu mordomo-mor e alcaide de Coimbra, e de D. Teresa Gil de Almeida, da alta linhagem do Reino, nasceu Gil de Valadares em 1185, nos paços do couto da Quinta da Cavalaria, em Vouzela, diocese de Viseu.

 

Apesar de criado em tal ambiente de grandes cavaleiros batalhadores, de muito novo se revelou mais inclinado ao estudo das letras e da ciência do seu tempo do que ao exercício das armas. Autorizado por seu pai a estudar latim no velho mosteiro dos Cruzios de Coimbra, talvez de 1203 a 1207, logo se afirmou, que D. Sancho ordenou ao prior de Santa Cruz, D. Gonçalo Dias, que o mandasse doutorar-se na Universidade de Paris, então o grande foco de sapiência do século.

 

Concluídos os seus estudos de latim e de medicina em Coimbra, o rei galardoou o filho do seu alcaide de Coimbra com varias benesses de conezias em Braga, Coimbra e na Guarda, e de dois priorados em Coruche e Santarém.

 

Assim, provido de largos meios, Gil de Valadares, em plena mocidade, partiu para Paris.

 

Talvez por 1217, em pleno reinado de D. Afonso II, recebe em Paris ordem de recolher a Coimbra, para ler no seu colégio Medicina e Filosofia; mas à sua passagem em Palência, a visita a um convento de dominicanos ataca-o de remorsos pela sua desregrada vida passada e resolve professar. Em Palência vive, como frade da Ordem dos Pregadores, cerca de quatro anos, em regime da mais austera penitência, coarctado de tormentos de ferro, que não mais abandonou até à morte.

 

É então, talvez por 1221, que o provincial dominicano, Frei Gueiro, o manda recolher a Portugal, onde começa a estudar Teologia e é escolhido por D. Afonso II para médico da real câmara, tendo assistido à morte do rei leproso, em 1223.

 

O novo rei, D. Sancho II, reclama também os seus serviços de médico pelas curas que fazia miraculosamente, contando-se mais tarde que o seu próprio bordão, deixado à cabeceira de D. Afonso III, doente de gota, o aliviava de todas as dores.

 

Em 1230 recebe ordem de voltar a Paris para se graduar em Teologia, depois do que é nomeado lente de medicina na Província de Espanha e eleito mais tarde provincial da Ordem em Espanha, onde em l237 reúne e preside ao capítulo da Ordem, em Burgos. Como por essa época, em Portugal, o leviano e frouxo governo de D. Sancho II, enfeitiçado por sua mulher, D. Mécia Lopes de Haro, induzisse as altas classes e os próprios povos a uma deplorável anarquia militar e social, vem o frade a Portugal e repreende asperamente o rei pelo seu desleixo e fraqueza e, em 1241, atormentado pelos males do Reino, abandona os paços de D. Sancho II e encerra-se no seu convento de Santarém. Pelo seu prestígio pessoal junto do pobre rei, é Frei Gil que os fidalgos conspiradores, conjurados em Paris para a deposição do monarca, encarregam de lhe anunciar que o Pontífice decretara a sua deposição, desligando os povos de Portugal da obediência que lhe deviam. E, de facto, D. Sancho II, abandonado por toda a nobreza, menos pela lealdade de alguns poucos alcaides, entre os quais Martim de Freitas, parte em 1247 para o seu exílio de Toledo, onde morre de saudade e dor, no ano seguinte.

 

Frei Gil tem o seu nome ligado aos factos relacionados com a deposição de D. Sancho II e à subsequente regência e ascensão ao trono de D. Afonso III. Frei Gil, foi também escolhido para médico de D. Afonso III, como o tinha sido de seu pai e seu irmão. A partir dessa data, as suas curas tornam-se prodígios, granjeando-lhe a fama de milagreiro. Nessa aura de beatitude viveu desde então, por mais 15 anos, no seu mosteiro de Santarém, onde morreu em pleno êxtase, em Maio de 1265, ao cabo de 80 anos de acidentada vida.

 

A seguir: Estevão Anes

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