CRUZEIRO SEIXAS – EXPOSIÇÃO EM LAMEGO – por Clara Castilho

 

 

 

 

Está a decorrer uma mostra antológica de Cruzeiro Seixas, nos dias 17 e 18 de Setembro, em Lamego, na Casa do Poço. Consta de 49 obras de pintura, desenho e escultura. Insere-se no âmbito da terceira edição do Plast&Cine. Esta iniciativa resulta de uma parceria entre a Associação Douro Alliance – Eixo Urbano do Douro e o Município de Lamego. O nome de Cruzeiro Seixas sucede a Emília Nadal e José Rodrigues, artistas homenageados em 2009 e 2010. Realizar-se-á igualmente uma conferência internacional dedicada a Cruzeiro Seixas e exibições do documentário “Surrealismo Abrangente”. Simultaneamente decorrerão várias actividades de, teatro de rua, assim como exposições de pinturas de crianças resultantes da observação das obras do homenageado.

 

Cruzeiro Seixas doou, em 1999 a totalidade da sua colecção à Fundação Cupertino de Miranda, de Vila Nova  de Famalicão, tendo em vista a constituição do Centro de Estudos do Surrealismo e do Museu do Surrealismo.

Neste momento Cruzeiro Seixas encontra-se a viver num Lar no Estoril. Declarou recentemente ao “Sol”: «Estamos todos desesperados à procura de uma ideia nova» e considerou que o mais importante «é o desejo de liberdade».

 

 

.Era um pássaro alto como um mapa

e que devorava o azul

como nós devoramos o nosso amor.

 

Era a sombra de uma mão sozinha

num espaço impossivelmente vasto

perdido na sua própria extensão.

 

Era a chegada de uma muito longa viagem

diante de uma porta de sal

dentro de um pequeno diamante.

 

Era um arranha-céus

regressado do fundo do mar.

 

Era um mar em forma de serpente

dentro da sombra de um lírio.

 

Era a areia e o vento

como escravos

atados por dentro ao azul do luar.

 

 

 

 

 

PoEsIA e prosa

 

“Desaforismos… “

 

 …Agora a nossa grande esperança é o sermos expulsos do inferno…

 

 …quantas vezes parei comovido para ouvir o cheiro das coisas, ou para enxugar as lágrimas do mar? …

 

 …A África foi o meu Paris…

 

 …A grande moda para o próximo ano é usar dentaduras nos olhos…

 

 …A arte deu-nos a Gioconda, a Vitória de Samotracia, o Greco ou os impressionistas… mas a obra-  prima,        a   coisa mais bela do mundo desde que o mundo é mundo deve ser amar e ser amado. O amor é a arte sublime de nos metamorfosearmos 

 

 …cada vez é maior a confusão entre os meus sonhos nocturnos e os meus sonhos diurnos…

 

 …reafirmarei sempre que me nego a posições políticas, sempre tão espectaculosas quanto transitórias…

 

 …África é uma das poucas palavras que ainda hoje acorda em mim o imediato alvoroço da paixão…

 

 …não sou um génio e sei que o não sou

– o que é quazi genial…

…sou um solitário… mas a verdade e que nunca consegui estar completamente sozinho…

 

 …o que sei é que enquanto os artistas fazem arte, eu apenas procuro a arte de respirar. Não há premeditação no meu pintar, como não há premeditação no meu não pintar….

 

 …se por um lado me é desconfortável o desconhecimento que os meus contemporâneos têm do meu depoimento, por outro lado esta situação me dá a satisfação de uma certa forma de liberdade…

 

 …aquele S. Pedro de Grão Vasco é a minha Gioconda e seria uma obra-prima universal se não fosse português…

 

 

Cruzeiro Seixas

 

 

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Conto…

 

Narro-vos daquilo que os meus olhos vêem. Três homens que do lado direito levantavam um automóvel vermelho. Qualquer coisa sob o carro não os satisfazia. Mais para a esquerda umas árvores; era um pequeno jardim público. Dos homens o mais alto não tinha um olho.

 

Começou a anoitecer. Dos restaurantes agora cheios de comensais saía um forte cheiro a maresia. Ao meio uma estátua parecia pairar.

 

Outros homens alinhados junto aos prédios quasi se confundiam com as janelas, deitando silêncios cá para fora. Estes, em cada mão seguravam uma mala. Perto os navios funcionavam como elevadores, levando e trazendo as mesmas pessoas às mesmas horas nos mesmos dias. Lembro-me agora que o mais alto se chamava João. Estupefactas as pessoas olhavam-no.

 

Lá no alto, passava um avião a jacto. Junto a um muro velho um homem tremia, e outro por trás do mesmo muro urinava. Já era tarde. O automóvel tinha enfim começado a deslizar, e algures um rádio aberto confirmava a espessura do silêncio que nos envolvia, Subitamente as pessoas pareciam ter o dobro da sua altura e reflectiam-se num lago, por onde se descia até outra cidade completamente igual a esta. Incomodados com a sua estatura alguns rastejavam. O aparelho de rádio tinha-se gasto por completo, e era agora uma simples nódoa de gordura.

 

Um grupo de camponeses junto à estátua escutava o cicerone. Depois veio o “Grupo dos Correios”, e as manicures vestidas de branco. Nos recantos mais escuros escondiam-se alguns elementos dignitários, mas era inútil a sua cautela, pois todos dispersavam em boa ordem. Os engraxadores engraxavam-se mutuamente. Do outro lado os artistas pintavam quadros nocturnos, que eram logo trocados por outros quadros nocturnos de um outro grupo de artistas.

 

O automóvel vermelho atravessava obliquamente à cena, embrulhado em ligaduras de impressionante palidez.

 

De súbito um homem suspeito transformou-se num leque, para depois cair como uma folha morta, muito leve e natural no Outono. Mas no entanto na sua queda deixou uma enorme cratera no asfalto, e uma carta com as suas últimas vontades.

 

Por fim o carro vermelho foi levado pelo vento, como os jornais diários que turbilhonavam sobre a cidade. Os sapatos estavam ainda em bom estado; as camisas e principalmente as calças é que se abriam em janelas o mais inesperadas. Nunca dormi numa cama assim, dizia-me o marinheiro. Vou mas é comprar uns sapatos de camurça.

 

Num oval aberto no espaço o céu começava a afirmar-se, e num curto espaço de tempo, lucidíssimo como se fosse artificial, iluminavam-se todas as coisas.

 

Seis mulheres grávidas ligadas entre si por sólidos cordões umbilicais acordavam descompostas pelo vento. A mesma solidão ligava alguns homens que saíam pelas janelas mais altas, arrastados por grandes cães pintados a zarcão. Sobre um banco a Civilização e a Ciência abraçavam-se ternamente…

 

Narro-vos apenas aquilo que os meus olhos vêem.

 

 

                                                                            Cruzeiro Seixas

 

 

 

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