Um café na Internet
Dues lhénguas – por Fracisco Niebro
Andubeanhosafilocula lhéngua trocidapula
oubrigar a salir de l sou camino i tener de
pensarantesde dezir las palabras ciertas:
ua lhéngua naciu-me comi-la anmerendasbuí-la an fuontes i rigueiros
outraye çpoijoduaguerrade muitas batailhas.
Agoratengo dues lhénguas cumigo
i yá nunpassosin dambas a dues.
Stou siempre atrocarde lhéngua meio a miedo
cumo sefurauncasode bigamie.
Ua sabe cousasquelaoutranun conhece
ríen-se ua de laoutrafazendo caçuada i a las bezes anrábian-se
afuora esso dan-se tan bienquesonhonas dues almesmotiempo.
Hai dies anquequierofalarua i sal-me laoutra.
Hai dies anquequedocun ua deilhas tan amarfanhadaquese nun lafalararrebento.
Hai dies anquese m’angarabátan ua an laoutra
i apuis bótan-se acorreraberquienchegapurmeiro
i muitas bezes acábanporsalir ancatrapelhadas
i amidá-me larisa.
Hai dies anquequedotododebelgado culas palabraspordezir
i ancarrapito-me neilhas cumo ua scalada
i deixo-lasbolarcumomúsica
cul miedoqueanferrúgen las cuordasquelas sábentocar.
Hai dies anquequierotraduzirua pa laoutra
maslas palabras scónden-se-me
ipassomuitotiempoatrásdeilhas.
Antre eilhas debíden l miumundo
iquandopássan la frunteira sínten-semeioperdidas
i fártan-se deroubarpalabras ua a laoutra.
Dambas a dues pénsan
mashaipartesde l coraçon anqueua deilhas nun cunsigue antrar
iquandos’achegaa la puorta pon l sangre a golsiar de las palabras.
Cadaua fui pursora de laoutra:
l mirandés naciu purmeiro i you afiç-me a drumir
arrolhado puls soussonidoscalientes cumo lúrias
i ansinou l pertués afalarguiando-le la boç;
l pertués naciu-me a la punta de lsdedos
i ansinou l mirandés a screbirporqueestenuncatube scuolaparadondeir.
Tengo dues lhénguas cumigo
dues lhénguasquemefazírun
i yá nunpassonin sou you sin ambas a dues.
Fracisco Niebro
in Cebadeiros, ed. Campo das Letras, 2000.
[tradução em português:
Duas línguas
Andei anos a fio com a língua torcida por a
obrigar a sair do seu caminho e ter de
pensar antes de dizer as palavras certas:
uma língua nasceu-me comia-a em merendas bebi-a em fontes e ribeiros
outra é despojo de uma guerra de muitas batalhas.
Agora tenho duas línguas comigo
e já não passo sem as duas.
Estou sempre a trocar de língua com algum receio
como se fosse um caso de bigamia.
Uma sabe coisas que a outra não conhece
riem-se uma da outra fazendo troça e por vezes zangam-se
fora isso dão-se tão bem que sonho em ambas ao mesmo tempo.
Há dias em que quero falar uma e sai-me a outra.
Há dias em que fico com uma delhas tão amarrotada que se não a falar expludo.
Há dias em que se me entrelaçam uma na outra
e depois começam a correr para ver quem chega primeiro
e muitas vezes acabam por sair enrodilhadas
e eu rio-me.
Há dias em que fico completamente curvado com as palavras por dizer
e trepo por elas como uma escada
e deixo-as voar como música
com receio de que enferrugem as cordas que as sabem tocar.
Há dias em que quero traduzir uma para a outra
mas as palavras escondem-se-me
e gasto muito tempo à procura delas.
Entre elas dividem o meu mundo
e quando passam a fronteira sentem-se um pouco perdidas
e estão sempre a roubar palavras uma à outra.
Ambas pensam
mas há partes do coração em que uma delas não consegue entrar
e quando se aproxima da porta põe o sangue a bolsar das palavras.
Cada uma delas foi professora da outra:
o mirandês naceu primeiro e eu habituei-me a dormir
embalado pelos seus sons quentes como grossas cordas
e ensinou o português a falar guiando-lhe a voz;
o português nasceu-me na ponta dos dedos
e ensinou o mirandês a escrever porque este nunca teve escola para onde ir.
Tenho duas línguas comigo
duas línguas que me fizeram
e já não passo nem sou eu sem as duas.]
________________
|
Amadeu José Ferreira (Sendim – Miranda do Douro, 1950) é Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e professor convidado na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). É presidente da Associaçon de Lhéngua Mirandesa (ALM) e professor em cursos desta associação desde 2000.
Assinou várias obras obras em língua mirandesa, desde poesia como Cebadeiros (Campo das Letras, 2000), L Ancanto de las Arribas de l Douro (INA-PDI, 2001), Cula Torna Ampuosta Quienquiera Ara (Tema, 2004), Pul Alrobés de ls Calhos (Fluviais, 2006), até contos como Las Cuontas de Tiu Jouquin (Campo das Letras, 2001), e literatura infantil como L Filico i l Nobielho (Chinchin, 2006) e L Segredo de Peinha Campana (Gailivro, 2008). Além de Os Lusíadas, Amadeu Ferreira traduziu para mirandês obras de escritores latinos (Horácio, Virgílio e Catulo), Os Quatro Evangelhos e duas aventuras de Astérix (em colaboração), Asterix l Goulés e L Galaton. É coordenador científico e tradutor da banda desenhada Mirandês – História de uma Língua e de um Povo. Fracisco Niebro é um dos seus pseudónimos literários.
Livros publicados na Âncora Editora: Ls Lusíadas – Banda Zenhada Mirandês – História de uma Língua e e um Povo Mirandés – Stória dua Lhéngua i dun Pobo Tempo de Fogo La Bouba de La Tenerie Ls Lusíadas
|


