Aurora Adormecida 18 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 18

 

 

(continuação)

 

Havia leilões e festas na aldeia. As mais recordadas por ela eram a da Senhora da Saúde, a da Senhora do Carmo e a de S. Gonçalo, padroeiro da sua aldeia.

 

* Num leilão, foi arrematada um dia uma prenda para a menina mais linda da terra que chegara há dias do Porto. Era uma garrafa de vinho fino e um rolo recheado de marmelada. Foi-me entregue o presente por um rapaz sim­pático, para o moreno. Não lhe liguei grande importância. No meu coração só havia lugar para o Ibrahim. Ele não tinha nada a ver com os rapazes da aldeia. Era um homem fino, de chapéu de palhinha, um papo-seco. Os que me queriam eram todos uns labroscos. Um deles, cheio de campos, até apa­nhou uma sova da mãe antes que se apaixonasse.

 

— Isso são mulheres de cidade, habituadas a luxos que não servem para nada. Quer-se é mulher de vida e com muitos campos.

 

Aurora era pobre. Só tinha a Quinta do Engenho e nem família para a ajudar. O rapaz simpático e amorenado nunca mais a largou.

 

* Tanto andou que a pouco e pouco o fui achando bonito e já não pensava noutra coisa. Era filho de uns grandes lavradores, das maiores casas de la­voura da terra, de boa gente. Este agradava à tia Emília. Tinham muitos campos e matos. Eram seis filhos, cinco rapazes, e a mais velha rapariga. O filho mais novo andava a estudar para padre. Um irmão estava em Lisboa, outro tinha emigrado para a América. Nenhum queria ser lavrador. O mais velho dos rapazes aprendeu de ourives no Porto. A irmã já estava casada. O pai era lavrador e relojoeiro.

 

A casa situava-se junto à capela e tinha uma sineta que dava as horas vin­das de um grande relógio de pé, na entrada da sala. Era uma casa grande, toda de pedra, com uma sacada para o adro da capela e uma escadaria. Ali se sentavam ele e os irmãos a mirar as meninas que iam para a missa. Os relojoeiros, como eram conhecidos, tinham fama de brejeiros e marotões. Ele não escapava à fama. Era bem disposto e alegre. Evoluído de mais para a época e para o meio, não se conformava com a lavoura. Gostaria de ter estudado e nunca perdoou ao pai não o ter ajudado nesse sentido. O pai tinha posses para o mandar estudar mas eram muitos filhos, e para todos devia ser igual. O mais novo foi distinguido porque os estudos para padre eram então de graça, embora acarretassem despesas à família. Um estudante tinha outras exigências.

 

É certo que a vocação do irmão não parecia ser grande.

 

* Passava a vida a tirar retratos às meninas com um kodak, no rio ou nos campos.

 

Às interrogações e dúvidas acerca da verdade do que ele pregava, o futuro padre respondia que noventa e cinco por cento deveria ser mentira.

 

Um dia, era ele ainda estudante, e sabendo que o irmão gostava de mim, disse-me que havia de conseguir o que queria, mas levaria muito tempo, e assim foi.

 

Eram todos inteligentes, dos poucos que fizeram a quarta classe de então. O professor era exigente e mau, vergastava os alunos com um molho de vimes, e partia-lhes canas na cabeça. Muitos ficaram analfabetos para a vida inteira porque fugiam com pavor à escola. Pulavam sebes, refugia­vam-se nos matos, descalços, com os pés gretados do frio e do esterco, com as calças rachadas no cu e atadas à cinta com um vime. Os relojoeiros eram finos e venceram o rigor e o pavor da escola primária de então.

 

O rapaz moreno pensou emigrar para a América onde estava um dos ir­mãos. Já tinha a passagem comprada e ia embarcar no navio em Lisboa. Despediu-se da mãe e deixou-a a chorar.

 

Adorava a mãe, uma autêntica cegueira. Estivera para se matar quando ela morreu.

 

Chegado a Lisboa, não teve coragem de embarcar e voltou para casa. Pelo pai nunca nutriu grande afeição e veio a ter com ele muitos problemas.

 

Na casa dos pais trabalhavam uma criada, nova, e um criado, o Cabalai, meio tolo, que era ainda da família.

 

O rapaz tinha que dar rumo à vida. Na lavoura não ficava ele. Deu voltas à cabeça e decidiu andar pelos próprios pés. Aprendeu a arte de relojoeiro com o pai, mas não deu para ir longe. Com o dinheiro que ganhou com­prou um carro em segunda mão, por quatro contos, um Renault desca­potável, um calça arregaçada, coisa rara na época, que chamava a atenção de todos e particularmente a das raparigas. Foi das primeiras pessoas do Concelho a tirar carta de ligeiros e pesados.

 

A sua paixão era ser médico. No Porto, frequentou clandestinamente algumas aulas teóricas de anatomia, na Faculdade de Medicina, com a cumplicidade bem paga de um bedel, comprou livros, incluindo o tratado de anatomia cefálica de Testut, e toda a ossatura crânio-facial. Muitos anos mais tarde, já o filho era estudante de medicina e recordava-se de o ouvir falar com toda a facilidade dos complexos ossos e músculos da face, bem como do trajecto dos nervos cranianos, nomeadamente do trigémeo e do facial. Em Lisboa chegou a carregar sacas de açúcar no cais de Alcântara, para poder estudar de noite. Mergulhava os pés em água fria para não adormecer e punha sal numa vela para a fazer durar mais tempo.

 

Estudou, sozinho, tanto quanto lhe foi possível para poder trabalhar como dentista. Montou um pequeno gabinete na casa do pai. Para além de algum saber, teve a inteligência e a habilidade para criar em pouco tempo, uma invejável clientela. Por inveja, foi acusado e teve de responder em tribunal por exercício ilegal de profissão médica. Eram de tal modo reconhecidas as suas qualidades, e ficou de tal forma patente a maldade da denúncia, que a multa foi atenuada pelas palavras do juiz, ao dizer que o condenava à pena mínima, não por não saber, mas por não ter o título.

 

Não desistiu, continuou a estudar e fez um curso de protésico dentista. Para conseguir o diploma tinha de ir a Paris e isso era mais difícil. Tinha contacto com laboratórios, recebia revistas, francesas e suíças, sobre ma­teriais dentários e também de relojoaria.

 

Tornou-se conhecido em todas as redondezas. Para além de protésico con­tinuava clandestinamente a fazer trabalho de dentista, tal era a solicitação.

 

Fora de novo acusado. Dali para a frente associou-se, ainda que contraria­do, dado o seu espírito corajoso e rebelde, a um médico que dava o nome ao consultório. Montou gabinete em mais do que um concelho, e não ha­via ninguém nas redondezas e por terras distantes que o não conhecesse.

 

Chegou a ser dentista particular de comendadores e de outras pessoas na altura consideradas importantes e que o mandavam buscar a casa nos seus carros de luxo. Chamavam-no doutor, mas ele dizia sempre que o não era, mas que haveria, um dia, de ter um filho doutor. Assim aconteceu, e com o seu mesmo nome. Era um homem brilhante e bom. Morreu novo e o seu funeral foi o maior que até então se viu naquela terra.

 

Tão cedo a esta vida te roubaram

Saudoso pai, meu bom e grande amigo

Que mal teus olhos fundos se fecharam

Boa porção de mim partiu contigo.

 

Flores e velas, preces lacrimosas,

Oh! Alienas artes da razão!

Ainda bem que não te iludem rosas,

Meu doce pai que em tudo és meu irmão.

 

Minha fé, minha crença, minha idade

De homem-filho, é grito de homenagem

Que outro não sei, sem lágrimas, sem prantos.

 

Mãos dadas pelos céus da eternidade,

Nesse reino sem trono e sem linhagem

Vives tu, vivem papas, reis e santos.

 

Do filho com o mesmo nome.

 

(continua)

 

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