Por aqui também passa o trabalho, por Júlio Marques Mota

Dedico este texto à “ignorância” do meu amigo João Machado em termos de câmbios

 

Júlio Marques Mota

 

Esta semana   o mundo foi  surpreendido pela situação do franco suiço. Com   intervenções maciças o BNS garantia um valor mínimo na cotação  do euro contra francos suíços, ou seja,  limitava a quantidade de francos suíços a dar  por unidade euro, dita cotação ao incerto pelo lado suíço.

 

Vejamos o comunicado do BNS :

 

O Banco nacional fixo uma cotação de valor  mínimo  de 1,20 francos suíços  para um euro.


“A sobreavaliação actual do franco é enormíssima [a subavaliação do euro é enormíssima]. Constitui uma grave ameaça para a economia suíça e  esconde  o risco de desenvolvimentos  de tensões deflacionistas.

 

 

O Banco nacional suíço (BNS) pretende pois um enfraquecimento substancial e duradouro do franco suíço. A partir de agora não tolerará mais as cotações abaixo de  1,20 francos suíços por unidade euro no  mercado cambial. O Banco nacional fará prevalecer esta cotação  limite  com toda a determinação necessária e está pronto para comprar divisas em quantidade ilimitada.

 

 

Mesmo a  1,20 franco suíço por unidade euro  a moeda suíça permanece a um nível muito elevado. Deveria continuar a baixar o valor do franco ao longo do tempo. Se as perspectivas económicas e os riscos de deflação o exigirem, o Banco nacional tomará medidas as suplementares que considere necessárias”.

 

Sabendo que a Suíça é um paraíso fiscal  não custa a acreditar que se trate em parte de fuga de capitais. Não nos falam de muitos milhares de milhões que já “voaram” da Grécia para sítios mais calmos pois se a Grécia for ao fundo os que não puderem fazer outra coisa que  paguem totalmente a crise. Não só da Grécia, mas de outros países também, acrescente-se, e passa-se aqui o mesmo fenómeno que se passou na Argentina quando pela  via da liberalização dos mercados se levou a que este país tenha ficado exangue. Quanto à fuga de capitais curiosamente em nenhum dos países atacados pela dívida soberana e pela incapacidade de os dirigentes europeus definirem um rumo face a mercados  de comportamentos alucinados se diz seja o que for sobre o assunto .

 

Mas o comunicado do Banco nacional suíço é sibilino: o BNS está disponível para adquirir quantidade ilimitadas de divisas estrangeiras que queiram comprar franco suíço, o que é o mesmo, mostra portanto que  estamos perante  vendas maciças de moedas estrangeiras, particularmente de euros que se querem refugiar em moeda franco suíço. Pressão de compra de francos e o franco sobe, pressão à venda de euros a fugir da Europa e o valor do euro a descer. Foi o que aconteceu.

 

Um outro veículo explicativo da situação verificada entre o franco suíço e o euro e mais uma vez encontraremos, se isto é verdade, a incompetência  dos múltiplos Durão Barroso que por essa Europa o futuro desta Europa  estão a vender, será a venda a descoberto do euro, venda antes de ontem, venda de ontem, venda de hoje, para o comprarem amanhã mais barato. 


Vejamos um gráfico com a cotação do euro em termos de franco suíço. Sublinhe-se que neste caso estamos a falar do valor do euro expresso em termos de franco suíço. Quanto mais francos suíços por euro  mais caro então está o euro ou, inversamente, mais barato estará o franco suíço. De modo inverso quanto menos francos suíços por unidade euro mais barato está então o euro o mesmo é dizer que quanto menos francos suíços se dá por euro mais caro está o franco suíço. É assim a forma de ler a evolução das cotações.

 

Franco Suíço/Euro

 


        

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ou ainda de forma mais visível:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Imaginemos que  vendo um milhão de euros que não tenho   a um 1,25 francos suíços.  Recebo então 1.250.000 francos suíços  e com a pressão dos mercados o euro continua a descer. Pois bem, admitamos que desce para 1,1 francos suíços por  euro. Então para comprar os euros que vendi e que não tinha, para os entregar afinal a quem os vendeu pago 1.100.000 de francos suíços. Embolsei a diferença. Bravo, sou muito mais inteligente que os outros, é esta a razão dizem os especuladores  e ganhei, portanto! É assim que se funciona nos mercados e neste caso até é muito mais simples. Nem há nenhuma operação feita. Pagam-me a diferença entre as duas cotações a da venda do euro e a da compra. Se o movimento fosse inverso pagaria eu a diferença ou então faria um rollover à espera de novo ataque contra o euro. E vivam os mercados, dirão os neoliberais, eles revelam o valor das coisas, dos “assets”,  das cotações dos títulos ou  das divisas, igualmente.

 

 

Sobre a especulação contra o euro  pode-se ler num grande  blog de onde terá saído o folhetim que deu origem  ao ataque contra a banca em França e Itália  na primeira quinzena de Agosto, Agefi,  o seguinte:

 

 

La remontée assez spectaculaire de l’euro face au franc, puis sa relative stabilisation, qui ont pris par surprise bon nombre de spéculateurs (et qui donne pour le moment  l’impression que tout était simple dans cette opération), n’a pas éliminé pour autant un certain scepticisme sur les marchés. De quoi redouter de nouvelles attaques exploratoires contre l’euro ces prochains jours ou prochaines semaines, avec des risques d’appréciation incontrôlable du franc. 

On ne s’étonnera guère que l’ancien alter-ego de George Soros, Jim Rogers, cocréateur du fonds Quantum, qui s’en était pris victorieusement à la livre sterling en 1992, fasse partie des sceptiques. La condition nécessaire au maintien de l’euro à au moins 1,20 franc, a-t-il déclaré, est tout simplement que la crise de l’endettement public en Europe se résorbe plutôt que de s’aggraver. Peut-on imaginer vingt ans plus tard qu’un fonds, ou qu’une coalition de fonds cherchent à rendrela BNS impuissante face aux force des marchés? Les conditions ont évidemment changé.

 

De nada disto eu por aqui ouvi falar.  Mas há um pormenor curioso no texto que acompanha esta nossa nota  e que foi publicado pelos industriais suíços. O franco suíço sobe e os gráficos salientam-no,salientam esta subida que vem relativamente de longe, e com ela as exportações da Suíça tornam-se mais caras quando transposto o seu custo de francos suíços em moeda estrangeira. A economia suíça perde por aqui competitividade. Inversamente as importações feitas pela Suíça tornam-se mais baratas e a economia suíça perde por aqui igualmente competitividade. Em suma se  considerarmos que a Suíça em bens de  consumo final  produz  sobretudo do médio de gama para cima e  se considerarmos que a pequena e média burguesia está claramente a ser espoliada na Europa e a perder poder de compra, então  temos aqui  um triplo ângulo de ataque à economia suíça: as exportações passam a ficar mais caras,  as importações passam a ficar mais baratas e os seus compradores no estrangeiro a perderem poder de compra.  Enorme  pressão sobre o mercado de trabalho.  Que pensam as autoridades suíças, que pensam os industriais da Suíça?  De acordo com a lógica neoliberal será de novo o custo do trabalho que é elevado, uma vez que se está a perder competitividade!

 

 

(Continua)

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