CONSULTÓRIO LINGUÍSTICO (II) – por Magalhães dos Santos

 

Perguntaram-me: “Quando é que o verbo haver se conjuga só na terceira pessoa do singular e quando se conjuga em todas as pessoas do singular e do plural?”

 

Na Gramática do Português Contemporâneo, de C. Cunha e de L. Cintra, vejo que pode empregar-se em todas as pessoas do singular e do plural. Aí leio que se “emprega em todas as pessoas”: a) quando é auxiliar (outros haverão de ter; também a mim me hão ferido) b) quando é verbo principal, com as significações de conseguir, obter, alcançar, adquirir (“donde houveste, (…) esse rugido teu?”; “as terras (…) de quem as houvemos nós?”) c) idem, com a forma reflexa, nas aceções de portar-se, proceder, comportar-se, conduzir-se (a dureza com que se houvera; Soares houve-se como pôde…) d) idem, também com a forma reflexa, no sentido de entender-se, avir-se, ajustar contas (el-rei se haveria com eles, que podia; o mestre padeiro (…) que se houvesse com ele) e) idem, com o sentido equivalente a ser possível (não há negá-lo; não há julgá-lo de outro estofo) Estas aceções são muito comuns na linguagem de hoje?

 

Não será que só em textos literários (ou com aspirações a tal) se “justificam!? Não “passamos muito bem sem elas” na linguagem corrente? Mais ainda em aceções como ter, possuir (aos que bem o fizeram, hei inveja): Julgar, pensar, considerar, ter para si (o que eu hei por grão crueza). Quem hoje fala assim? Não estranhamos que nos falem assim? Mais umas expressões em que entra o verbo haver e talvez não nos façam encrespar tanto: Haver por bem; dignar-se, resolver, assentar, julgar oportuno ou conveniente (ele… houve por bem interromper a ingestão…; ainda que o vigário houvesse por bem suspender por bem…; houvemos por mais digno sair dali).

 

E então… quando aparece o há, o havia, o houve, o houvera, o haverá, o haveria, o que haja, que houver, que houvesse, aqueles casos mais comuns, aqueles em que mais erros se cometem, mais se tropeça? O verbo haver é impessoal, não tem sujeito, quando tem o significado de existir: há trovoadas em toda a parte; havia marinheiros; havia escreventes; havia quinze dias que…; há dois dias que… Se o verbo haver for ajudado, auxiliado por outros (ir, dever, poder), estes, solidários, portam-se bem, e conforme o verbo haver (na aceção de existir) não vai para o plural, também eles… não vão: Vai haver muitas pessoas contentes com esse resultado. Deverá haver leis que proíbam isso. Se pudesse haver governantes que impedissem essas desgraças. Nunca por nunca, Senhores Passageiros e Companheiros de viagem, nunca por nunca digam hão pessoas nem houveram casos semelhantes.

 

Pelas alminhas vos peço! Façam-me a vontade!

2 Comments

  1. Muito obrigada pela sua lição tão completa sobre a conjugação do verbo haver. Durante o meu tempo do liceu, a extraordinária professora de português que tive do primeiro ao quinto ano (depois segui ciências) deu-nos aquilo que me serviu como mnemónica para a vida toda: “o verbo haver conjuga-se só na terceira pessoa do singular no sentido de “existir”, conjuga-se em todas as outras pessoas no sentido de “ter de””. Claro, que para as miúdas (naquele tempo não havia misturas de sexos nas escolas) que nós éramos , naquele curso geral, esta explicação já era bem boa. A sua ultrapassa em muito o que, sobre isso, eu sabia. Por isso, lhe agradeço.

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