O saudoso tempo do fascismo – 4 – por Hélder Costa

Grândola II

 

Quanto às glórias da nossa infância estávamos longe das façanhas Europeias com Eusébio, Coluna e companhia.

 

Claro, havia a grande glória de dar cabazadas de 30 golos à Inglaterra, França e ou­tros mandões no hóquei em patins, mas parece que lá fora não ligavam nenhuma a esse jogo, de maneira que a alegria não era mesmo gloriosa.

 

As primeiras grandes façanhas desportivas, salvo erro nos princípios dos anos 50, foram com Alves Barbosa na Volta à França em bicicleta, e com o nadador de longo curso Baptista Pereira, de Alhandra, um dos vencedores da travessia do canal da Mancha. (É verdade, deixou de haver esta competição? Ou já não há homens para aquela aventura”).

 

     Grândola: Praça da República (site da Câmara Municipal de Grândola)

 

Na Grândola da minha infância, ainda havia a forte mistura do mundo rural com os primeiros passos de um urbanismoreflectido num pequeno comércio de carac­terísticas modestas – recordo ter assistido à venda de uma caneta de tinta perma­nente a um camponês na primeira papelaria/livrarialmercearia/drogaria da terra, a do sr. Camacho: – olhe, custa 15.000.00 (dizia-se 15 mil réis, ou mérreis), e o homem comentou, “é um dia de trabalho”, outra mais cara, “são dois dias de tra­balho”, e se a conversa continuasse, cresceria a medida das horas gastas no campo de Sol a Sol. Ao mesmo tempo, floresciam as fábricas de cortiça, uma de grande dimensão, a do Granadeiro, outras médias e a maioria pequenas fabriquetas. Chegaram a existir para cima de 70, o que significa um mínimo de 1.000 operários a que correspon-deu o natural avanço de consciencialização política.

 

Acrescendo a estas caracterísricas objectivas de Grândola c seu enquadramento rural latifundá1rio, é necessário lembrar que se vivia num período particularmente agitado na conjuntura internacional. A guerra civil de Espanha tinha-se passado há meia duzia de anos, de Grândola tinham partido proprietários voluntários a engrossar os Viria tos na batalha contra a República espanhola, e estava como médi­co em Grândola o dr. Manuel Reis, combatente nas hostes Republicanas Espanholas e posteriormente preso no Tarrafal.

 

O nazi-fascismo tinha perdido a Guerra, o movimento progressista internacional pelas liberdades, pela democracia e pela Revolução pareciam imparáveis. E a União Soviética atravessava momentos de enorme prestígio devido ao papel fundamental que tinha exercido no aniquilamento das hostes Hirlerianas.

 

Além do papel clandestino levado a cabo pelo Partido Comunista, que suponho de reduzida acção organizativa, era importante a actividade social, desportiva e lúdica das associações populares. O Sport tinha futebol e banda de música; o Desportivo tinha futebol e biblioteca; a Música Velha, tinha banda de música, biblioteca e grupo de teatro;

 

E todos tinham bilhares, ping-pong, xadrez, damas, etc.

 

E todos tinham bailes e muitas e variadas festas durante o ano.

 

Esta actividade múltipla e variada acabava por formar um espírito aberto e democrático (se a palavra ainda quer
dizer o respeito pelo Outro, a defesa da liber­dade, a luta pelo progresso), e de ampla convivência entre todos os sectores e clas­ses da população. Se virmos bem, não era assim tão dif!cil. Os proprietários eram antigos camponeses que não se tinham transformado em absentisras ou em marial­vas de excursão às touradas e espanholas de Sevilha e Badajoz; a maioria dos indus­triais de carriça exercia o ofício ao lado dos operários, porque também eles vinham desse mundo de trabalho. Por isso, o Salazarista ou fascista convicto era raro na região, e visto com desconfiança precisamente porque era um “bicho esquisito”. Penso que são todas estas componentes que acabaram por criar uma época em Grândola de características progressistas e comprometidas com a mudança do regime fascista.

 

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