Qualidade ou quantidade II – por Manuela Degerine

(Conclusão)

 

O modo de vida dos meus avós caracterizava-se pelo controlo do tempo. Tinham dias compridos no Verão, longas noites no Inverno, regavam, se necessário, durante a noite, para aproveitarem a água, depois faziam a sesta, não faltando tempo para o trabalho nem para o descanso, feiras, festas, romarias e serões, horas estas também de cultura e trabalho, pois as mãos não paravam enquanto eles cantavam ou contavam, lendas, eventos, cenas de África, onde o avô passou dois anos, filmes de Charlie Chaplin, que ele vira em Angola, a política da primeira república, a “História de Portugal” de Oliveira Martins, as “Lendas e Narrativas” de Alexandre Herculano… Fui boa aluna por o avô, Albano Henriques Dias, me transmitir a curiosidade, sou escritora por o avô ter na linguagem o seu campo de jogo favorito.

 

Numa sociedade harmoniosa não há fronteiras entre actividades laborais, sociais, culturais e desportivas; é por a vida citadina ser pobre que, em ocasiões mais ou menos frequentes, alguns recorrem ad hoc a museus, ginásios, redes sociais, salas de espectáculo… Para a maioria dos nossos compatriotas o lazer, o desporto, o convívio e a actividade mental reduzem-se aliás ao telecomando da televisão. O Preço Certo. O Mundial de Futebol. As telenovelas.

 

Muitos sublinham a nossa prosperidade – com ou sem crise. Esquecem a miséria dos trabalhadores que, mesmo ganhando bem, não dispõem de tempo para dormir, comer, conviver… A casa tem conforto mas é apenas o espaço onde, após o trabalho e os engarrafamentos, caem à frente da televisão; onde dormem depois de engolirem um sonífero. Um espaço de solidão. E, se têm filhos, onze meses por ano, do berçário à universidade, acompanham-nos apenas ao fim-de-semana, entre mil afazeres acumulados.

 

A qualidade? A quantidade? Os meus avós tinham qualidade sem quantidade. Não estaremos numa posição quase inversa? A loja chinesa é a melhor metáfora da nossa sociedade. Ou a lixeira – que é a loja chinesa três meses após a compra.

 

Resta-me esta herança: conheci um modo de vida que pouco mudara através dos séculos. E este elemento de comparação é uma força que os avós ainda me puderam transmitir. Talvez algum dia eu volte a ser professora. Por ora prolongo o privilégio supremo de ser dona do meu tempo. E… não há dúvida: sabe bem viver!

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