Aurora Adormecida 21 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 21

 

 

(continuação)

 

Aurora voltou em plena guerra a Rio de Frades, grávida de sua filha. Soubera que lhe tinham cabido em herança alguns filões de minério. Insistiu com o marido para a acompanhar, mas ele não era homem de se entusiasmar facilmente. Em nada lhe interessavam tais filões. Porém, dois dos seus irmãos, cunhados de Aurora e muito seus amigos, fizeram-lhe a vontade e foram com ela.

 

* Quem saberia se não estava ali a fortuna deles todos!

 

Um vivia em Lisboa. Homem polido, de alma muito generosa e delicada, cedeu ao pedido da cunhada porque a estimava muito. O outro, um gran­de proprietário, daqueles lavradores que nunca deram uma cavadela no chão, era um sonhador. Os caseiros adoravam-no. Generoso, em tempo de seca, de vendaval ou cheias, perdoava sempre as rendas.

 

Gastava muito dinheiro a comprar reagentes e materiais químicos, pois tinha uma verdadeira paixão por experiências, passando a vida a inventar, a fazer chaminés, poços e minas, pesquisando sempre e perseguindo constantemente a comprovação de suas ideias. Chegou a inventar uma pasta de caldear ferro, comercializada em placas quadriculadas que lembravam tabletes de chocolate, baptizando-a com o nome de Adelvas. Muitos lhe pediram o segredo, mas, bem guardado no cofre, morreu com ele. Não lhe interessava qualquer fim lucrativo. O seu grande interesse era a busca e a invenção. Após a descoberta desinteressava-se do resto.

 

Aprendeu a arte de ourives, no Porto, mas nunca a exerceu. Por curiosida­de, fazia cristos e bonecos de matraquilhos.

 

Demorava-se pouco em cada uma das artes, só enquanto lhe desse prazer.

 

Como era homem rico em terras, não precisava de trabalhar. Vivia dos rendimentos. Talvez por isso fosse tão bem disposto, tão amante da vida e tão temente da morte. Morreu a insultar a morte.

 

Casou com senhora rica, mais velha dez anos e teve uma filha mais ou menos esquizofrénica. Tratava-as muito bem mas procurava fora de casa aquilo que lá não encontrava. Teve sempre amantes, mas, de tão generoso que era, nunca as deixava sem nada. Fazia-lhes casa, dava-lhes pinheiros, alqueires de milho ou castanhas, compensava-as segundo as exigências delas ou conforme os caprichos dele próprio.

 

O cunhado Zé vivia numa casa grande. Pertencera a uns padres e tinha uma estrutura de base em pedra, lindíssima. Em forma de T, assentava num cabecinho com um enorme muro de pedra a toda a volta. Mandou construir sobre uma parte dessa estrutura uma casa nova com duas águias ou pegas no telhado, adulterando por completo a casa antiga. Tinha um portão grande que dava para um jardim interior, uma eira e um canastro de dois carros, de onde se dominava toda a beleza daquele lado do vale. Por um portal lateral descia-se uma escadaria estreita e muito alta até uma pequena represa de água da mina com grandes japoneiras ali dispostas ao acaso, e onde cresciam agriões e plantas aquáticas.

 

O cunhado Zé era um hedonista, mas amigo dos prazeres simples, dos prazeres existenciais. Gostava de bifes com batatas fritas, detestava couves e chamava-lhes orelhas de mula. Tinha um medo terrível de morrer e só desejava que o céu fosse feito de bifes. Gostava de vestir bem, mas depressa dava cabo dos fatos e por isso andava sempre a estrear roupa. Chegou a usar colarinhos engomados.

 

* Fui eu que vali aos meus cunhados. Tratei do meu cunhado Zé até à morte. Dei-lhe leite e sumos por uma sonda durante seis meses e ele não queria outra enfermeira. Pelo meu cunhado Gabriel também fiz o que pude. A esse só ajudei com a minha presença porque teve enfermeiros e criadas para o tratar. Faltava-Ihe o melhor, o carinho e o afecto da família que praticamente nunca teve.

 

O cunhado Gabriel emigrara novo para a América. Trabalhou primeiro em Cuba e dali foi para os Estados Unidos.

 

* Casou com uma senhora de família de manteigueiros e teve dois filhos.

 

Consta-se que a mulher lhe fora infiel quando ele estava ausente.

 

º Queres tu dizer, avozinha, que ela lhe pôs os cornos, não é?

 

* Que cornos, que meios cornos. Cornos é para os carneiros. Não sei para que anda a vossa mãe a pôr-vos a estudar, anda a perder dinheiro e vocês a perder tempo.

 

Falava sempre no plural para ser mais abrangente a reprimenda e chegar também à filha.

 

O cunhado Gabriel regressou à terra já muito para lá dos setenta anos. Nunca mais tinha voltado desde que se divorciara. Um divórcio, na altu­ra, era como que um endemoninhamento, um estigma de peçonha.

 

A casa onde morava e a quinta à volta, Quinta Pombal de S. Tiago, situavam–se no topo da outra encosta do vale, dominando uma paisagem soberba.

 

* A casa tinha três bicos, como eram as casas de manteigueiros.

 

Quando Gabriel regressou, estavam os dois filhos no Brasil e a mulher era já morta. Um dos filhos, com o mesmo nome, era riquíssimo, possuía grandes firmas de café, açúcar e algodão, com roças por sua conta e rece­beu do Estado Português uma condecoração de comendador.

 

Regressado da América, restaurou o pai a casa ao gosto dos anos sessenta e ao gosto do filho. Este ficara viúvo ainda novo e casou com a secretária. Tinha da primeira mulher um filho, advogado, e uma filha adoptada. A casa levou uma reviravolta tal, que se tornou irreconhecível. Gastou milhares de contos, dinheiro do pai ou do filho, não interessa, porque o dinheiro não guerreia. Uma fortuna, para a época!

 

Por artes de um arquitecto do Porto, de concepções modernas, rasga­ram-se janelas, ampliou-se a casa e nasceu dali qualquer coisa como uma pousada. Só quartos eram dezassete. Aos olhos da época foi uma obra de arte, hoje seria um crime de modernidade.

 

Em época de Verão, regressava a família do Brasil e contratava-se cozinhei­ra diplomada e acreditada para receber os senhores. Apesar de muito ricos, todo o serviço era simples,sem deixar de ser requintado. Eram também pessoas de muito bom trato.

 

Todo o ano havia criadas, jornaleiros, uma governanta e um motorista que habitavam uma parte da casa a eles destinada. Na garagem esperava o ano inteiro um Chevrolet preto para ser utilizado quando o filho chegasse.

 

Para além de outras propriedades, havia ainda a Quinta da Relva, onde eram criados porcos e vacas que davam a carne e o leite.

 

No centro da vila foi também construída por eles um cinema e sala de espectáculos, um luxo para a época, numa rua que tem hoje o nome do filho — ou do pai, pois eram iguais. Por morte deles tudo foi vendido, e a Quinta Pombal de S. Tiago foi comprada por um industrial da terra que virou a casa, de novo, do avesso. Da anterior já pouco deve restar, talvez só as paredes. Desta vez, também ao sabor do tempo, da moda e do di­nheiro, mas com a preocupação de voltar à traça original.

 

* Era uma riqueza aquela casa. Vivia sozinho, o meu cunhado Gabriel. No Natal convidava-nos para consoar com ele. Todos os anos fazia uma ceia de Natal com o que havia de melhor. Vinha tudo da mercearia do Bolhão e da confeitaria Cunha do Porto. A governanta fazia questão de ficar naquela noite para nos servir. A casa aquecida, a mesa comprida e um bolo-rei no meio, tão grande que parecia a roda de um carro. Os teus pais e os teus tios bem no sabem. Já viúva e com os filhos casados, a ceia de Natal era sempre em casa do cunhado Gabriel. A tua mãe fartou-se de viajar com eles. Correu todo o estrangeiro, quando ninguém arredava daqui pé. Morreu aquela gente toda, acabou tudo.

 

° De pé põe-te tu avozinha, toca a levantar, estás sempre sentada ou deitada, não fazes puto. Não mereces o que comes. Mais vale manter um burro a pão-de-ló. Anda toda a gente a trabalhar, uns a semear batatas, outros a podar, outros a cavar, e tu aí na malandrice.

 

Que queres tu que eu faça?

 

º Vai limpar o pó.

 

* O pó limpa-o tu.

 

Mandá-la limpar o pó era o diabo que lhe aparecia, era quase um insul­to, trabalho demasiado monótono e meticuloso para a sua criatividade e espírito frenético.

 

Limpo o pó e ele está logo a cair outra vez. Se ainda fosse descascar batatas, vá que não vá!

 

Só pensava em descascar batatas. Quando a filha se arreliava com tanta batata descascada, vinham logo os netos em defesa dela.

 

° Descasca batatas, avozinha, há aí muitas batatas para descascar.

 

* Já li as orações da manhã e a minha cartilha de cabo a rabo, de fio a pavio. Agora faço o que quiserem.

 

° Lê também estas ilustraçõezitas da mamã de cabo a rabo e de fio a pavio. Quando voltarmos das aulas tens que nos contar tudo o que leste.

 

* Só faço o que me apetecer. Em mim ninguém manda!

 

O ar autoritário e indomável fazia-os rir de ternura e complacência.

 

(continua)

 


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1 Comment

  1. Eva,Sigo atentamente esta deliciosa Aurora adormecida.Fascina-me a época, a escrita com os “dizeres dos netos”.Um bjo grande e obrigada por poder voar durante uns minutos.

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