UM CAFÉ NA INTERNET – Emprego e Desemprego do Poeta, por Ruy Belo

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixai que em suas mãos cresça o poema

como o som do avião no céu sem nuvens

ou no surdo verão as manhãs de domingo

Não lhe digais que é mão-de-obra a mais

que o tempo não está para a poesia

 

Publicar versos em jornais que tiram milhares

talvez até alguns milhões de exemplares

haverá coisa que se lhe compare?

Grandes mulheres como semiramis

públia hortênsia de castro ou vitória colonna

todas aquelas que mais íntimo morreram

não fizeram tanto por se imortalizar

 

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício

chegar mesmo a fazer versos a pedido

versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria

quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor

Bem mais do que a harmonia entre os irmãos

o poeta em exercício é como azeite precioso derramado

na cabeça e na barba de aarão

 

Chorai profissionais da caridade

pelo pobre poeta aposentado

que já nem sabe onde ir buscar os versos

Abandonado pela poesia

oh como são compridos para ele os dias

nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

 

 

In Obra Poética de Ruy Belo, Editorial Presença, 2.ª edição, 1984. Organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães. Aos herdeiros do poeta e ao Joaquim Manuel Magalhães, os nossos cumprimentos.

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