Para a edição portuguesa do livro: «Garcia Lorca e Manuel da Fonseca – Dois Poetas em Confronto», de Manuel Simões – (3) por António Gomes Marques

 

 

 

 

Da esquerda para a direita: representante da editora Assírio & Alvim, António Redol, Manuel Simões, António Gomes Marques e David Santos, director do museu do Neo-Realismo.

 

(Continuação)

 

Com todas as convulsões político-sociais que a Espanha de então vivia não podia a literatura ficar indiferente e a sua própria história também tem um antes e um depois, pois Federico Garcia Lorca não foi um fenómeno isolado na história cultural do seu país.

 

O início do século XX é marcante na história literária em Espanha, com os modernistas (Manuel Machado, Francisco Villaespesa, Tomás Morales e Juan Ramón Jiménez) fortemente influenciados pelo Simbolismo francês, pelo nicaraguense Rubén Darío e também, convém referi-lo, pelo português Eugénio de Castro, traduzido por M. Machado e por Villaespesa (v. História da Literatura Espanhola, de Eloísa Alvarez e António Apolinário Lourenço, Ed. Asa, Lx. 1994) e a chamada «geração de 98» (M. Unamuno, Ángel Ganivet, Pío Baroja, Antonio Azorín, Ramón de Valle-Inclán, Antonio Machado, irmão de Manuel Machado, Jacinto Benavente), divisão esta talvez demasiado simplista, embora haja quem defina claramente as fronteiras que possam existir entre a obra de uns, os modernistas, tidos como cultores de uma estética sem conteúdo, e a obra de outros, «a geração de 98», referidos como profundamente preocupados com a renovação ou regeneração de Espanha. Será uma discussão para uma outra sessão, não para esta, residindo as nossas dúvidas numa breve análise à obra, e sua evolução, de um Juan Ramón Jiménez e à obra de António Machado para tal classificação cair por terra; bastando até acompanhar a discussão entre «poesia pura» e «poesia impura» para as dúvidas se acentuarem, fazendo lembrar o que de parecido vem a acontecer em Portugal se nos lembrarmos do confronto entre presencistas e neo-realistas. Para além da Guerra Civil de Espanha, há um outro acontecimento na história que nenhum dos autores, em Portugal e em Espanha, poderia ignorar e nele reflectir: a revolução marxista no Império Russo e que dará origem à União Soviética.

 

Voltemos a Manuel Simões e ao capítulo 2 da sua obra, intitulado «Federico García Lorca: uma figura de romance».

 

Comecemos por lembrar que Lorca nasce em 1898, em Fuente Vaqueros, junto a Granada, o qual, e demos a palavra a M. Simões, «bem cedo se revelou excepcionalmente dotado por um temperamento e uma sensibilidade invulgares para cantar o povo, uma paixão e inteligência viradas para o frémito da vida, como se pressentisse a certeza trágica da sua brevidade.» O seu assassinato pelos fascistas de Franco, por fusilamento, cortou uma vida em plena actividade criadora e se pensarmos que Lorca tinha apenas 38 anos e se ainda pensarmos na admirável produção, em quantidade e em qualidade, então o crime ainda se torna maior, sobretudo se tentarmos adivinhar o que a capacidade criadora de García Lorca nos poderia ter legado. «Estamos num período áureo, escreve Simões neste capítulo, o que se pode chamar “a idade de ouro liberal” para a cultura espanhola. (…) É a época da geração de 27, de Pedro Salinas e Jorge Guillén, de Gerardo Diego a Dámaso Alonso, de Vicente Aleixandre e Rafael Alberti; até aparecer esse ser mágico que Neruda definiu um dia como um “negro relâmpago perpetuamente livre”: Federico Garcia Lorca!

 

Entre os seus amigos mais próximos encontram-se os poetas Vicente Aleixandre, nascido no mesmo ano (seria importante que um dia alguém estudasse a influência deste poeta em Eugénio de Andrade), Jorge Guillén, Rafael Alberti, Luis Cernuda e Guillermo de Torre; o cineasta Luis Buñuel, o pintor Salvador Dali.

 

Escreve Manuel Simões: «Dizer que foi um escritor de vanguarda é pouco. Ele foi um agitador cultural, promotor de recitais, conferências, revistas literárias, até à fértil experiência do seu grupo de teatro ligado a “La Barraca”. A sua voz tinha o sortilégio dos que irresistivelmente se fazem amar, até que um dia, no decurso do Verão de 1936, na inocência sangrenta duma história pintada de morte, página branca de cinzas espalhadas sobre os campos, essa voz se quedou perplexamente assassinada.»

 

Se a sua obra era já bem conhecida em Espanha, o seu assassinato deu-lhe uma dimensão que podemos rotular de mítica, estendendo os protestos a todo o mundo, sem excluir Portugal, despertando a indignação dos autores que hoje conhecemos como neo-realistas e, naturalmente, a exercer também a sua influência em poetas portugueses, nomeadamente Armindo Rodrigues, Bernardo Santareno, Eugénio de Andrade e Pedro Homem de Mello, como Manuel Simões bem demonstra no referido Apêndice que a edição que hoje apresentamos não contempla, como já referi.

 

(Continua)

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