“A primeira mulher a proferir o discurso de abertura da Assembléia Geral da ONU” (Jornal de uma curta viagem ao Brasil -5) – por Sílvio Castro

 

 A partir de 1945, logo depois de terminado a catástrofe que foi a II Guerra Mundial, os vencedores da mesma – em partir os quatro principais: USA, URSS, Inglaterra e Rússia – se reuniram para planejar a criação da Organização das Nações Unidas-ONU. Uma dos pontos mais discutidos dessa primeira fase, foi a natureza e constituição do mais importante órgão político da nova entidade, o Conselho de Segurança. Os quatro grandes imediatamente encontraram a solução que previa os membros permanentes do mesmo, com direito de veto em toda e qualquer decisão do plenário. Periodicamente o dito Conselho acolhia outros países membros, desprovidos porém do direito de veto.

 

Desde as primeiras discursões, os Estados Unidos pretendiam que o Brasil, também ele país vencedor da guerra, integrasse o grupo estável. Proposta que as três demais potências rejeitava repetidamente. Assim, em conclussão, o Brasil ficou excluido definitivamente do grupo principal dos membros do Conselho.

 

Os Estados Unidos, com o fim de suavizar a rejeição de sua proposta, reinvidicou uma outra forma de exaltação da presença brasileira: o Brasil, na figura de seu presidente, ou de um seu representante, teria a prerrogativa de ser o país a saor à tribuna para apresentar o discurso de abertura da Assembléia Geral. E assim acontece desde a primeira reunião plenária da ONU, realizada em 1947. Desde então o presidente do Brasil – ou um seu representante – pronuncia, diante de outros chefes de Estado e de Governo, o discurso inaugural dos trabalhos da Assembléia Geral dos países do mundo, membros estáveis da Organização.

 

Neste 2011, tendo sido a primeira mulher brasileira a ocupar a Presidência da República, a Presidente Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher a pronunciar o discurso inaugural da maior e mais importante entidade política mundial. Chefes de Estado e de Governo escutaram a fala de 25 minutos da Presidente do Brasil que, na oportunidade, se dirigiu diretamente a todos eles, mas igualmente congratulou-se em nome do Brasil pelo novo membro estável, bem como comunicou à assembléia intenacional a pretensão brasileira de ver o reconhecimento total da Onu do Estado Palestino.

 

A mulher brasileira teve o seu direito civil ao voto reconhecido oficialmente em 1932; assim, 79 anos depois uma delas profere oficialmente o mais importante discurso político diante de todo o mundo. Muito justamente orgulhosa do seu privilégio pessoal, a Presidente Dilma Roussef quis marcar que aquela era a primeira vez que a Assembléia mundial vinha inaugurada pela voz de uma mulher e que o fato constituia um novo passo no desenvolvimento da paz no mundo.

 

O discurso de 21 de setembro 2011, uma fala que vai mais além de seu tempo material de 25 minutos, mostrou a Presidente do Brasil numa grande dimensão político-diplomática.

 

Antes de tudo, ela deu realce ao fato de ser o seu o primeiro discurso pronunciado naquelas dimensões internacionais por uma mulher e em nome de todas as mulheres. E recordando episódios de sua biografia política, tratava-se de um discurso de uma mulher que conhece profundamente os valores democráticos dos direitos humanos, por ter sofrido pessoalmente as experiências do cárcere e da tortura política.

 

Em seguida, entra diretamente em questões de política internacional. Critica diretamente os choques dos partidos americanos, o impasse político existente no momento entre democratas e republicanos: “Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais alpropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses interesses legítimos da sociedade.”

 

Realça o problema do desemprego no mundo, em particular na Europa e nos Estados Unidos: “É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do planeta”. Neste caso, faz notar que os países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão disponíveis a comprar títulos europeus para contribuir à saída dos países do Euro da crise. Ao mesmo tempo critica o programa de relaxamento monetário dos EUA; mas também envia na direção da China uma crítica pela sua política monetária que mantém baixo o valor de sua moeda, o yuan, com a finalidade de competir no mercado internacional.

 

Na política ligada aos países em procesos revolucionários declara: “É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma sem retirar de seus cidadãos a condução do processo”. Porém, logo adiante esclarece: “Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitamam populações civis.”

 

Quanto aos Direitos Humanos; “No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.” …  “Há violação em todos os países, sem exceção.”

 

Em seguida, se rejubila com a entrada do Sudão do Sul na ONU e declara a disponibilidade do Brasil de colaborar com o mais jovem membro da família das Nações. E logo em seguida, alcançando muitos aplausos da Assembléia, declara: “Mas lamento ainda não poder saudar desta tribuna o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas.”   “Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser”.

 

Com tais e tantas outras considerações de importância para a política internacional, a Presidente Dilma Rousseff também reafirma a candidatura do Brasil a um posto de membro estável do Conselho de Segurança da ONU, declarando o País pronto a assumir todas as responsabilidades de tal função.

 

 A Presidente brasileira concluiu seu histórico discurso inaugural retomando a importância de sua natureza de mulher na direção da política de um grande país:

             

“Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida professional, e conquistaram o espaço de poder que me permite de estar aqui hoje.

 

Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

 

E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta casa das nações que tenho a honra de iniciar o debate geral da 66ª Assembléia Geral da ONU.

 

                    Muito obrigada.”

 

 

 

 

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