NOITE e NEVOEIRO – 1 – por Carlos Loures

 

Nacht und Nebel  era o nome de código dado pelas autoridades alemãs às vagas de deportados para os campos de concentração e extermínio. Entre eles, os nazis simplificavam – diziam apenas “NN”. O objectivo era claro – lançar sobre os deportados o nevoeiro do esquecimento – como se nunca tivessem existido.

 

O filme Nuit et Brouillard, realizado por Alain Resnais, foi uma encomenda feita pelo Comité d’histoire de la Seconde Guerre mondiale, organismo criado em 1951 pelo governo francês para lançar luz sobre o fenómeno da deportação, do extermínio, do holocausto. Henri Michel  foi nomeado secretário-geral desta comissão.

 

Encontrar documentação, testemunhos, que contrariassem a névoa com que os nazis procuraram ocultar um dos maiores crimes que a história da humanidade regista. À comissão interessava particularmente a pesquisa referente ao período de ocupação alemã de França, entre 1940 e 1945.

 

Seguindo um guião escrito por Jean Cayrol e dito pelo actor  Michel Bouquet, o filme consiste numa mistura de registos de arquivo a cor e a preto e branco. Foi realizado em 1955, dez anos decorridos sobre o fim da Guerra. Com o anti-semitismo, o racismo, o totalitarismo, ainda à solta pelas mentes, tornaa-se difícil avaliar, mais de meio-século depois, o impacto provocado pela estreia de Nuit et Brouillard, em 1956, em plena guerra fria. Ganhou o Prémio Jean Vigo.

 

Sem demagogia, com serenidade, o filme mostra cruamente como eram os campos de concentração, como era o trabalho forçado dos prisioneiros, as operações de extermínio…  O guião de Jean Cayrol reflecte a experiência pessoal do autor, resistente, deportado – viveu na primeira pessoa o que descreve – a humilhação, a tortura, o sofrimento, o terror… a linguagem é poética, as imagens que ela transporta são de um horror e tragédia levados ao paroxismo. Só em 1996 foi feita uma versão alemã do filme (por Paul Cellan). A música é da autoria do compositor germano – austríaco Hanns Eisler, homem de esquerda.

 

Hoje mostramos a primeira metade de Nuit et Brouillard. Continuaremos amanhã com este tema, mostrando a segunda parte do filme de Resnais. Mas não só.

 

 

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