Panurgo está vivo e vive no Funchal – por Ricardo Araújo Pereira

(Com a devida vénia, transcrevemos da revista Visão de Quinta feira, 29 de Set de 2011)

 

Ter dívidas, diz Panurgo, é um dos segredos da vida longa e feliz. Se estiver certo, os portugueses serão dos povos mais bem-aventurados do mundo – e Alberto João Jardim o cidadão mais feliz.

 

Que a vida imita a arte já eu sabia desde que vomitei uma salada de frutas igualzinha a um quadro do De Kooning (uma semelhança extraordinária, embora a minha salada de frutas tivesse um lirismo que falta à composição do pintor. É a diferença entre produzir uma arte comercial ou outra que corresponde, de facto, a uma necessidade interior). Mas não esperava que a vida portuguesa imitasse tão perfeitamente o Pantagruel. Não me refiro ao livro de receitas, uma vez que neste momento não há dinheiro para imitar pratos com tantos ingredientes, mas sim à história do gigante de Rabelais. Em certo ponto do terceiro livro, Pantagruel oferece o Governo de Salmigondin a Panurgo, o que surpreende todos os leitores: os atentos, porque não esperavam ver uma personagem como Panurgo no Governo; os desatentos, porque ainda hoje estão para saber como é que um livro de receitas pode dar o Governo de qualquer coisa a alguém.

 

Pouco tempo depois de ser empossado, Panurgo conduz a economia de Salmigondin à bancarrota. Pantagruel, que é uma espécie de Tribunal de Contas, mas mais diligente e atento, pergunta-lhe quando é que ele tenciona pagar as suas dívidas. É então que Panurgo responde celebremente: nunca. Ter dívidas, diz ele, é um dos segredos da vida longa e feliz. Quando se contrai uma dívida, prossegue, os credores rezam por nós para que Deus nos dê muita saúde, intercedem a nosso favor junto de toda a gente para que nada de mal nos aconteça e tentam angariar quem nos empreste mais dinheiro, para tentarem recuperar o deles. Se Panurgo estiver certo, os portugueses serão dos povos mais bem-aventurados do mundo – e Alberto João Jardim o cidadão mais feliz.

 

 

O elogio da dívida que Jardim tem feito excede, em invenção e desfaçatez, o de Panurgo, uma vez que Rabelais era um génio mas não conseguia efabular tão alto. A cronologia dos factos é interessante e difícil de acompanhar. No domingo, Jardim negou que houvesse dívidas. Na segunda-feira, admitiu que havia dívidas, mas negou que as tivesse ocultado. Na terça, admitiu que tinha ocultado as dívidas em legítima defesa da Madeira. Na quarta, negou ter admitido que tivesse ocultado as dívidas. Hoje é quinta, e não se sabe ainda o que vai dizer – e nenhum de nós tem imaginação suficiente para se deitar a adivinhar.

 

 

http://aeiou.visao.pt/panurgo-esta-vivo-e-mora-no-funchal=f624761#ixzz1ZT1E81ba

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