O grupo “Occupy Wall Street” acampa perto da Bolsa de Nova Iorque desde há duas semanas. A polícia procedeu já a detenções maciças. Enviado por Júlio Marques Mota

Nota de leitura

 

Em tempo de comemorações de caminhos outrora abertos para a liberdade em Portugal, em tempo de resignação pela nossa juventude agora assumido face ao fascismo disfarçado que em Portugal pela mão de Passo Coelho está a ser implantado, um texto sobre os jovens Indignados de outras paragens, e estas já são muitas, são de Marrocos, são da Tunísia, são da Líbia, são do  Egipto, são de Espanha, são da Grécia, são de Inglaterra, são agora também dos Estados Unidos.


É tempo de relermos depois deste texto o artigo de Farrel sobre a necessidade de revolução nos Estados Unidos exactamente não por causa dos 99% mas sim dos 1%, os mais ricos na escala de repartição de rendimentos.


Coimbra, 5 de Outubro de 2011

 

Júlio Marques Mota

 

O grupo “Occupy Wall Street” acampa perto da Bolsa de Nova Iorque desde há duas semanas. A polícia procedeu já a detenções maciças.

 

Stéphanie Fontenoy,

 

Reportagem Correspondente em Nova Iorque

 

Não era um sábado à tarde como todos os outros, sobre a ponte de Brooklyn. Cerca de 1.500 manifestantes do movimento “Occupy Wall Street ” tinham previsto atravessar a famosa Brooklyn Bridge sem autorização prévia da cidade. Enquadrados pela polícia, a maior parte dos protestantes ocupou a faixa pedestre, enquanto a outra parte do grupo empenhava-se em passar a ponte pelo  andar inferior, reservado aos automóveis. A meio do caminho, os agentes da ordem desenrolaram o seu equipamento sobre os caminhantes e procederam a 700 detenções.

 

Erro de comunicação ou armadilha deliberada? Um responsável da polícia, Paul J. Browne, explicou que os manifestantes tinham sido avisados de que era proibido andar pelo corredor reservado aos veículos e bloquear a circulação. A ponte teve que  ser fechada e centenas de manifestantes foram presos por  “atentado  à ordem pública “. Estes respondem que ninguém não lhes proibiu em irem  pelo corredor e que a polícia de resto os acompanhou  sem se interpor .

 

Não é a primeira vez que os militantes de “ Occupy Wall Street” têm  problemas com  a polícia. No  fim de semana passado, 80 pessoas tinham sido presas  aquando de uma manifestação similar,em  Manhattan. Asforças da ordem tinham utilizado gases incapacitantes sobre a multidão, que relatou actos de brutalidade. No domingo, a maior parte das 700 pessoas presas  foram libertadas.


Estas vivas tensões viraram os holofotes  dos projectores sobre este movimento de cidadania  que tinha sido largamente ignorado desde a sua criação a 17 de Setembro. No seu início, cerca de 200 pessoas tinham decidido ocupar dia e noite um parque do Sul de Manhattan, não distante da Bolsa de Nova Iorque. Rebaptizado  “Liberty Plaza”, esta praça tornou-se em duas semanas o epicentro da cólera e da frustração provocadas pela situação económica e política do país e pelos abusos do sistema financeiro americano.


Diariamente, centenas de militantes, equipados de cartazes anti Wall Street e por  um mundo mais justo, é nesta praça que se reencontram. O seu slogan: “Somos os 99%”, ou seja a quase totalidade da população que vive cada vez pior,  enquanto os 1%, os 1% mais ricos, os que estão na parte superior da pirâmide dos rendimentos continuam a enriquecer-se, apesar da crise económica.


Entre aldeia global e ocupação ilegal,  Liberty Plaza é “ uma micro-sociedade na sociedade americana “,  “ uma forma de dar a palavra aos  sem-voz “, explica Goldi, oferecendo-nos  prospectos. “Mais que uma forma de protesto, somos um movimento social, um lugar onde pessoas que estão de acordo para dizer que há algo de fundamentalmente negativo no nosso sistema se reencontram. Esta situação não pode continuar. A única maneira de alterar as coisas é criar uma nova forma de organização, de comunicação e de  respeito mútuo “, explica Kyle, de  19 anos recentemente feitos, de cabelos pretos que lhe  descem até aos rins.


O movimento quer-se autónomo, sem líder, sem hierarquia e apolítico. As suas origens são fluidas: alguns evocam uma chamada ao ajuntamento da revista canadiana de contracultura e anticonsumista  “Adbusters”. Outros foram sensíveis a  um vídeo do grupo de hackers “Anonymous”, que se tivesse dado a conhecer com  o seu apoio a Julian Assange, o fundador de WikiLeaks. Na sua mensagem, “Anonymous” prometia a presença pacífica “20 000 pessoas, tendas e barricadas ” a 17 de Setembro, em  Wall Street. “Queremos a liberdade. O abuso e a corrupção que são a prática de muitas  empresas, dos  bancos e dos governos devem a partir de agora acabar. Juntemo-nos.


Uma coisa é clara: a Primavera árabe serve de modelo ao grupo, que se inscreve na sequência das manifestações gregas e britânicas nomeadamente. Michael Moore, Noam Chomsky e a actriz Susan Sarandon deram o seu apoio à causa. O movimento, desde, foi depois apoiado por dois sindicatos de Nova Iorque  e  pelos  “Grannies Peace Brigades”, os  habituais  dos movimentos sociais para a paz e a justiça. Os manifestantes explicam que a ocupação sem autorização  do espaço público é “desobediência civil “, uma forma de resistência pacífica preconizada por Gandhi e Martin Luther King. Se à  sua mensagem falta ainda estrutura, a sua determinação mantém-se intacta: “Occupy Wall Street” não abandonará os seus bairros antes do Inverno e sem dúvida não deixou  de fazer com que se fale dele.


Stéphanie Fontenoy, Occupy Wall Street: “Nous sommes les 99%”, La libre Belgique, 3 de Outubro de 2011.

1 Comment

  1. O Occupy Wall Street merece toda a nossa atenção. Este movimento cívico ataca directamente o coração da chamada crise, e está a fazê-lo na principal fortaleza do capitalismo. É interessante realmente constatar a dificuldade que tem havido na divulgação de notícias sobre esta manifestação, que se verifica estar a merecer apoio de várias individualidades de esquerda.

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