Um café na Internet
O poeta Faustino tem os olhos pregados no papel. Mas na verdade só olha para dentro de si próprio. O lápis dança-lhe entre os dedos.
Vê as ideias que balburdiam no cérebro. A inspecção dos veículos nas intricadas ruas das circunvoluções está em apuros. Confusãono tráfego. Cruzamento desordenado de ideias irrequietas. O plano de um poema erótico que começa assim: teu corpo de onda beijado de sol… – surge-lhe repentino na mente e pára, dominador, na Praça da Ideia Central. Mas vem depois a lembrança rítmica de um verso de Verlaine – …correct, charmant et ridicule – e empurra com violência o poema para o misterioso Beco do Subconsciente, arrebatando-lhe o lugar régio. Vitória efémera. As primeiras notas do Nocturno n.º 2 de Chopin chegam saltitando musicalmente e tomam conta da praça: si-sol-fá-sol-fá–mi… E com as notas, uma imagem vaga: a menina da casa vizinha, passando os dedos magros pelo teclado do piano… Cinco segundos. A imagem foge com a melodia. Depois aparecem, relampejam, passam imagens diversas, num sucessão cinematográfica: uma paisagem campestre cheia de sol… um par de namorados que se beijam… um vulto boémio que passa ao luar… a luz vermelha de uma lâmpada… um piano… E volta a melodia lânguida do Nocturno – si- sol-fá… E foge de novo. E torna a voltar ─ si-sol-fá-sol-fá-mi… E foge outra vez, como uma mosca importuna. De repente, cresce, fulge a imagem de uma mulher bonita, dominando tudo. Ora vestida, ora nua, começa a dançar na Praça da Ideia Central, com requebros de mulher que se sabe cobiçada. Depois desaparece para dar lugar a uma ideia sensata, paternal: “Poeta vamos dormir que é melhor…”
Faustino respira. Alonga o olhar amortecido para o relógio ─ meia-noite ─ e torna a pregá-lo no papel branco.
“Vida de cachorro!”, exclama mentalmente. E o simpático termo “cachorro” gera-lhe na mente uma curiosa série de ideias associadas. Por tal forma que, dentro de um segundo ─ resultado de uma fusão de imagens caninas ─ lá está o Pitoco, sacudindo a cauda, rosnando, soberano, no meio da disputadíssima praça. Pitoco! Cachorro vira-lata, quanta recordação! Pitoco é a própria infância perdida, a longínqua ingenuidade dos seis anos…
O poeta Faustino suspira, desta vez com mais força. E começa a sentir um desejo besta de escrever um poema infantil. Um poema ingénuo que seja bom e puro. Sem gramática. Sem cultura. Sem artificialismos.
Espicha a memória. Vinte anos atrás. Um pátio murado, com árvores e crianças, ao sol. Uma cantiga quase indistinta:
Anda a roda
desanda a roda
que eu quero…
Que é que queria? Já não se lembra. Vinte anos! A memória a custo viaja até lá. Outra cantiga:
O meu belo castelo,
Mata-tira-tirarei…
O meu belo castelo está agora todo espatifado… (Novo suspiro). “Seleêncio! Bamo brincá de roda!”
Quem é o negro pernóstico que fala assim? Chama-se… chama-se… Ah, a memória!
E há uma algazarra de guizos pela tarde de sol. E as crianças… Ah! O pretinho chamava-se Viriato! Viriato, o moleque importante que queria ser doutor quando fosse grande. Viriato, o poema será para ti…
Mas onde estará o negro a estas horas da vida? Vivo? Morto? Vendedor de balas? Doutor? Não importa… O poema vai ser para ele…
Faustino sorri e começa a escrever.
Viriato, amigo veio,
este verso é só pra ti.
Vou fazê ele sem besteira,
bem simples,
como o nosso tempo, Viriato,
e bem bonito como aquele papagaio
verde-encarnado que tinha na loja
do seu Tutucha ali da esquina.
Tu se lembra, bichão, daquele
dia luminoso, de céu translúcido…
Pára aqui, bruscamente.
Burrice! Já me está a sair literatura. Dia luminoso, céu translúcido. Hum! Positivamente, não posso…
Arremessa o lápis para longe. Maldiz os livros que leu. Os anos que passaram. As mulheres que teve nos braços. Os vícios que experimentou. Manda para o inferno a funesta experiência da vida que tanto o alontana da pureza infantil.
Maldiz tudo isso e, em seguida, boceja espectacularmente.
Depois fica a pensar em coisas absurdas. Nos Meus Oito Anos do seu colega Casimiro de Abreu. No dr. Fausto. Em Mefistófeles. No pacto com o Diabo.
(Continua)

