Diário de Bordo, 6 de Outubro de 2011


 

O comum dos portugueses, nestes dias, sente-se a navegar num mar muito agitado, em que algumas ondas preponderantes, a economia e os mercados, que assim as chamam, assumem as maiores responsabilidade pela insegurança em que vivemos. Esta imagem rudimentar resume o actual estado de coisas. Seria vantajoso que a barca em que navegamos se deslocasse para águas mais calmas. Por outras palavras, que houvesse uma mudança de rumo que contribuísse para colmatar os pontos fracos do sistema instaurado. Ou, melhor do que isso, que houvesse uma mudança de sistema.

 

A vida moderna está praticamente toda assente nos bancos. Com a melhoria de nível de vida, muito assente nas novas tecnologias, tornou-se indispensável ao cidadão comum, para ter acesso aos produtos dessas tecnologias, recorrer frequentemente ao crédito. Para além disso, o império da construção civil tomou conta do mercado da habitação, e tornou-se praticamente obrigatório, desde há largos anos, para a maioria das pessoas, contrair um empréstimo para (poder) comprar casa. Os efeitos são conhecidos. O sistema estoirou e as previsões são no sentido de as tentativas de o fazer reviver agravarem ainda mais a (nossa) situação.

 

Qual a solução? Nacionalizar a banca? Ou mesmo acabar com o sistema do crédito? A curto prazo, possivelmente terá de se optar pela primeira solução. Mas sem retorno, ao contrário do que já aconteceu num passado histórico recente. A insistência em manter a banca privada resultará num agravamento da especulação, das taxas de juro, do uso e abuso dos chamados produtos financeiros, e levar-nos-á a outra crise ainda mais profunda que a presente.

 

A prazo terá de se pensar numa sociedade que cresça e prospere sem depender do sistema das compras a crédito. Este sistema vingou nas últimas dezenas de anos, assente nos vectores salários baixos, incentivo ao consumo, crédito fácil, e acumulação de capital com vista ao crescimento. A escassa ou nenhuma regulação do que se chama o mercado, e a mercantilização da vida social (isto é, tornar em bem económico tudo o que é susceptível de ser trocado) estão a mostrar as fraquezas deste sistema. E a acelerar o seu fim. O que é grave é que seja á custa dos cidadãos que o têm suportado, e não de quem dele tem tirado proveito. A história dos bancos (Lehmann Brothers, UBS, Société Générale, Dexia, BPN; BPP, tantos outros) demonstra-o bem.

2 Comments

  1. Pessoalmente tenho medo de coisas a querer fazer muito rapidamente. Concordo plenamente com a análise feita, ponto por ponto. Porém, quanto às propostas de solução a coisa é mais complicada: estamos no quadro da zona euro, não devemos daí sair, o que tem que ser feito, e é urgente, é estabelecer uma forte regulação dos mercados com proibição de muitos dos produtos financeiros criados. Claro que isto não chega, pois a crise financeira surge pela existência de uma crise profunda na economia real, mas exige a resolução desta que por seu lado passa passa pela alteração da actual divisão internacional do trabalho, só possível no quadro da UE e da OMC. Não deixo também de sugerir que Banco recapitalizado pelo Estado deve ter este como accionista de direito pleno.E, depois disto, trata-se de um belo texto este que me foi dado a ler. JMota

  2. O Júlio Marques Mota pediu-nos para rectificar o seu comentário acima. Aqui o fazemos, com muito gosto.Júlio Marques Mota disse sobre Diário de Bordo, 6 de Outubro de 2011 na Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011 às 12:40:Pessoalmente tenho medo de coisas a querer fazer muito rapidamente. Concordo plenamente com a análise feita, ponto por ponto. Porém, quanto às propostas de solução a coisa é mais complicada: estamos no quadro da zona euro, não devemos daí sair, o que tem que ser feito, e é urgente, é estabelecer uma forte regulação dos mercados com proibição de muitos dos produtos financeiros criados. Claro que isto não chega, pois a crise financeira surge pela existência de uma crise profunda na economia real, mas a resolução desta exige por seu lado que se passe pela alteração da actual divisão internacional do trabalho, só possível no quadro da UE e da OMC.Não deixo também de sugerir que um Banco recapitalizado pelo Estado deve ter este como accionista de direito pleno.E, depois disto, trata-se de um belo texto este que me foi dado a ler. JMota

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