Não quisera eu ser visto como “terceiro em discórdia” na polémica entre o Paulo Rato e o Sílvio Castro: declaro desde já que sou a favor do AO, e a seguir explico por que, aceitando este espaço redacional que me é oferecido pelos colegas Argonautas.
Começo por indicar uma ligação (http://www.academiagalega.org/info-atualidade/galiza-participanas- reunioes-do-instituto-internacional-da-lingua-portuguesa.html) que pode servir para centrar o tema, por se tratar de uma das mais recentes intervenções da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) na Lusofonia, e justamente por se ter tratado ali a intervenção galega na génese do Acordo, que é em geral desconhecida a S da Raia. Peço desculpas pelas notas, que incluo entre colchetes para quem quiser pormenorizar, mas que se podem saltar para uma leitura mais rápida. Com efeito, a participação galega nas negociações do atual AO tem os seus antecedentes nas iniciativas do professor Manuel Rodrigues Lapa nos anos 30 do século passado, que tiveram eco nos membros do Seminário de Estudos Galegos, das Irmandades da Fala históricas e da denominada Geração Nós, mas que ficaram goradas pela rebelião militar que desencadeou a guerra da Espanha. [NB: “Para esta indispensável aproximação é necessário em primeiro lugar reformar a ortografia galega no sentido da nossa ortografia oficial, sempre que isso seja possível, que quase sempre o é” (Diário da Noite, Lisboa, 24 agosto 1932; recolhido em Estudos galego-portugueses, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979, p. 20); “O acordo filológico entre as duas regiões seria coisa facílima, não precisando sequer da intervenção oficial: bastava um entendimento entre o Centro de Estudos Filológicos e o Seminário de Estudos Galegos” (Seara Nova, no 425, 1935, pp. 261-262; depois em “António Sérgio e o problema da língua literária”, Estudos galego-portugueses, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979, p. 121)]
Nos anos 50 passa o protagonismo ao professor galego Ernesto Guerra da Cal (exilado desde a guerra em Nova Iorque e justamente considerado iniciador do reintegracionismo contemporâneo com a sua alta produção literária e científica), quem já participara “como galego”, por convite português, numa comissão preparatória do Acordo Ortográfico de 1945, no Rio de Janeiro. [NB: “Pensa ele [Guerra da Cal], e muito bem, que devíamos fazer uma reunião entre portugueses, brasileiros e galegos, para lançar as bases de uma reforma ortográfica” (Carta do Rio, de M. Rodrigues Lapa, na altura exilado no Brasil, a F. Fernández del Riego, da editora galega Galaxia, 15 novembro 1958: em Cartas a Francisco Fernández del Riego sobre a cultura galega, de Manuel Rodrigues Lapa, 2001, Ed. Galaxia); Guerra da Cal participou, também como galego, no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros na Baía em 1959, no V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros em Coimbra em 1963, e no I Simpósio Lusobrasileiro sobre a Língua Portuguesa Contemporânea na Universidade de Coimbra em 1967]
Ainda nos anos 70, o incansável Rodrigues Lapa nos lembrava a velha unidade galego-portuguesa no seu soado artigo “A recuperação literária do galego”, que pôs a questão em termos da recuperação da literatura galega para a Lusofonia.
[NB: revista Colóquio/Letras, Lisboa, no 13, 1973, pp. 5-14; reproduzido na revista Grial, no 41, 1973, pp. 278-287 (e depois em Estudos galego-portugueses, op. cit., pp. 53-65)] Enfim, não se conseguindo então o Acordo, e já nos anos 80, foram convocadas para 1986, e por convite do Brasil, sessões de debate e negociação dum novo Acordo Ortográfico da Ortografia Simplificada, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Nessa perspetiva, membros das Irmandades da Fala modernas [José Luís Fontenla e Carlos Durão] realizaram no 1984 gestões com Guerra da Cal, Lindley Cintra, Celso Cunha, Malaca Casteleiro, Jacinto Nunes, a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Brasileira de Letras, e as embaixadas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, para continuar a presença e participação galegas iniciadas por Guerra da Cal.
Foi então constituída a Comissão que viria a ser legalizada em ambos Estados ibéricos como Comissão Galega do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, presidida por Ernesto Guerra da Cal e integrada, entre outros, pelos académicos Jenaro Marinhas, Valentim Paz-Andrade, os professores Isaac Alonso Estraviz, António Gil Hernandez e José Martinho Montero Santalha, como também por José Luís Fontenla e eu próprio.
[NB: na constituição da Comissão intervieram o prof. Dr Fernando Alves Cristóvão (presidente do ICALP), o prof. galego Dr Carvalho Calero e o prof. moçambicano Dr Luís A. Polanah.] O secretário da Academia Brasileira de Letras, Antônio Houaiss, convidou então E. Guerra da Cal, como Presidente da Comissão Galega, para participar como observador pela Galiza no Encontro Internacional de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa do Rio de Janeiro. Na impossibilidade de se deslocar ao Rio, Guerra da Cal delegou as suas atribuições numa delegação de observadores da Galiza, que participou nas sessões de trabalho no 1986.
[NB: a delegação estava integrada por Isaac Alonso Estraviz, José Luís Fontenla e Adela Figueroa; a delegação de funções por Guerra da Cal foi feita a I. A. Estraviz (pode ver-se a reprodução facsimilar da carta em: I. A. Estraviz, “Estudos filológicos galegoportugueses”, Alhena Eds., Madrid, 1987, entre as pp. 80 e 81; vide também
https://www.facebook.com/media/set/?set=a. 195919860452386.51634.100001031212338&saved); estava previsto irem às sessões V. Paz- Andrade e C. Durão, mas, por razões familiares, eles não se puderam deslocar ao Rio] Aquela participação foi reconhecida, por iniciativa dos países africanos, pelas outras delegações no seguinte comunicado: “As delegações de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Brasil ao Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Letras, de 6 a 12 de maio de 1986, agradecem o assíduo comparecimento às suas sessões dos observadores da Galiza, escritor José Luís Fontenla, professora Adela Figueroa e professor Isaac Alonso Estravís, em representação do professor Ernesto Guerra da Cal, bem como do observador da União Latina, professora Rogéria Cruz./ Rio de Janeiro, 12 de maio de 1986”.
[NB: assinavam, por Angola, a professora Maria Luísa Dolbeth Costa, por Cabo Verde o embaixador Corsino Fortes, por Moçambique o professor Luís Filipe Pereira, por Portugal o professor Manuel Jacinto Nunes, por São Tomé e Príncipe o professor Albertino Homem dos Santos Sequeira Bragança, e pelo Brasil o académico Austregésilo de Athayde. Pode ver-se a reprodução facsimilar na p. 127 de “O Acordo Ortográfico e a Lusofonia”, Vol. III de Linguistica, Sociolinguistica e Literatura Galaicolusobrasileira e Africana de Expressão Portuguesa, Fundação Europeia Viqueira, Instituto de Estudos Lusogalaicos, Temas de O Ensino, nos 11-13, Ponte Vedra- Braga, 1987 (vide https://www.facebook.com/photo.php?fbid=194229323954773&set=a.
194229277288111.50956.100001031212338&type=1&theater, e http://www.lusografia.org/ao/ fotos-acordo-86.htm); também em O Ensino (nos 14-17, 1986, pp. 278-279) figura o documento de “Adesão da Comissão da Galiza” ao Acordo (https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=204852386225800&set=a.204852356225803.55291.100001031212338&type=1&theater
e https://www.facebook.com/photo.php?fbid=204853622892343&set=a.
http://www.lusografia.org/ao/Doc5.pdf, de “Indice biobibliografico”, p. 174, NÓS, Revista internacional galaicoportuguesa de cultura, nos 4-6, Ponte Vedra-Braga, 1987] O Acordo do Rio não vigorou, como sabemos, mas por fins dos anos 80 foi retomada a iniciativa para uma reunião dum novo Acordo e, no 1990, o Prof. Dr Manuel Jacinto Nunes, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, enviou uma carta à Comissão Galega do Acordo, comunicando: «solicitamos, pois, a presença de dois representantes galegos, para tomarem parte, como observadores, na mencionada reunião em Lisboa, de 8 a 12 de Outubro de 1990». [NB: J. L. Fontenla, “O Acordo Ortográfico 1990 – Crónica de uma semana de 5 dias”, II Congresso Internacional de Literaturas Lusófonas, NÓS, Revista da Lusofonia, Ponte Vedra-Braga, 1994, nos 35-40, p. 136 (reprodução facsimilar: https://www.facebook.com/media/set/?set=a. 195769210467451.51583.100001031212338)]XXX Esta delegação galega de observadores estava composta por José Luís Fontenla e António Gil Hernandez, que participaram nas reuniões de trabalho e colaboraram na redação do texto definitivo do Acordo Ortográfico, nele incluindo os “galeguismos” brêtema e lôstrego entre 19 exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada (Base XI 2o a)), tirados do Prontuário das Irmandades da Fala.
[NB: Prontuário Ortográfico das Irmandades da Fala, nos 2/3 de Temas de O Ensino, Ponte Vedra- Braga, 1984 (pode consultar-se na Rede uma versão atualizada e muito ampliada em: http:// lusografiacarlosdurao.blogspot.com/)] O comunicado que, em nome dos Estados lusófonos, anunciava o Acordo da Ortografia Unificada de 1990, dizia assim: “As delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Portugal com a participação de uma delegação de observadores da Galiza, reunidas em Lisboa…”, e assim foi recolhido também no Diário da República portuguesa, na Resolução da Assembleia que aprovava o Acordo para ratificação: “com a adesão da delegação de observadores da Galiza”.
[NB: assinavam, por Angola, Filipe Silvino de Pina Zau, pelo Brasil Antônio Houaiss e Nélida Piñon, por Cabo Verde Manuel Veiga, pela Guiné-Bissau António Lopes Júnior, por Moçambique Maria Eugénia Paiva Cruz, por São Tomé e Príncipe João Hermínio da Silva Pontífece, e por Portugal Manuel Jacinto Nunes; in I Congresso Internacional de Literaturas Lusófonas, Nós, revista da lusofonia, Ponte Vedra-Braga, 1990/91, nos 19-28, entre p. 470 e 473 (vide https:// www.facebook.com/photo.php?fbid=194229340621438&set=a.
Não tendo um Estado próprio, a Galiza foi contudo reconhecida como observadora no Acordo Ortográfico, no que implicitamente se reconhece o seu Léxico, por via dos citados “galeguismos”. Talvez seja este o lugar para mencionar que nalgumas Bases do Acordo são consagradas com bom critério histórico-etimológico algumas distinções gráficas que na Lusofonia em geral não têm distinção fonética, mas sim na nossa variante galega. Só um par de exemplos (mas há mais): a distinção gráfica entre ch e x, que entre nós é também distinção fonética: [t∫] e [∫], por exemplo “cheque” (bancário) e “xeque” (árabe), “chistoso” (de chiste) e “xistoso” (de xisto); e distinção entre e/i e o/u átonos, por exemplo “cardeal” (prelado) e “cardial” (rel. à cárdia), “área” (de superfície) e “ária” (de ópera), “moral” (de moralidade) e “mural” (de muro), “pontoar” (pôr pontões) e “pontuar” (pôr pontos) etc.
Com estes brevíssimos exemplos quero dizer que, embora negociado inicialmente entre Portugal e o Brasil, e depois entre os Estados de língua oficial portuguesa, o AO não podia deixar de refletir as raízes e a história da língua, reconhecendo implicitamente a pertença da Galiza ao espaço lusófono. E isto dá-me pé para reconhecer que, sim, o nosso apoio ao AO é para nós questão não só ortográfica mas também diplomático-política: nele estamos desde o início, nele somos reconhecidos implicitamente e nele conseguimos um mínimo espaço de manobra, ainda com a oposição que conhecemos (e aproveito aqui para encorajar os leitores a assinar esta petição: http:// http://www.gopetition.com/petitions/petição-carta-aberta-a-paulo-portas-ministro-dos-neg/ signatures.html).
É verdade que AO podia ser melhor, quem o duvida? Certamente se a Galiza tivesse Estado próprio o AO não seria exatamente este. Mas ela aceita-o, por via extraoficial, é claro, em organizações cívicas como a AGLP, a AGAL (Associaçom Galega da Língua), as IF, a Associação de Amizade Galiza-Portugal, etc. A questão dos “grupos cultos” não se coloca para ela nos mesmos termos que para os demais países lusófonos, pois aqui a língua culta e dominadora é a espanhola, que está cada vez mais a causar a deturpação e simples eliminação da variante galega. Por outras palavras: para nós é uma premente questão de simples sobrevivência, e com o AO temos muitas mais possibilidades de sobreviver como comunidade lusófona, e ainda simplesmente como comunidade tout court, pois, eliminada a língua, pouco ficaria da identidade galega.
Obrigado.

Amigo Carlos DurãoSem ofensa, mas isto é areia de mais para a minha camioneta. Pasmo perante a tua bagagem e o teu saber. Mas a minha pobre e humilde cabecinha não aguenta tal peso. Por isso, quando cheguei ao fim do teu artigo, não me encontrei. Daí que continue a considerar o AO uma inutilidade e uma aberração, salvo pequenos pormenores que poderão justificar-se e até ser úteis. O AO continua a ser, para mim, uma espécie de remédio queratolítico para uma ferida que não existe.Um abraço
Caro Carlos Durão,É admissível que os cultores galegos do que muitos consideram (e eu não contrario) o “galaico-português” estejam gratos a quem os aceitou como observadores, numa Comissão que tratava de assuntos “da língua”, assim lhes demonstrando – não sei se com seriedade, se por mero oportunismo – o reconhecimento de um labor que, em tempos franquistas, foi uma luta admirável e heróica de resistência. Mas tal não implica que os que “foram aceites” se curvem, perante esses gurus, em atitude de veneração acrítica. O AO podia ser melhor? Claro! O que seria difícil era ser pior…Mas eu diria, bastando partir do que muito correctamente afirmas no último parágrafo do teu texto, que, antes de se preocuparem com as regras de um hipotético AO que conseguisse abranger, também, uma ortografia da “norma” galega, os cidadãos galegos que defendem a sua língua, como uma variante do português, têm uma batalha muito mais importante a travar, contra o domínio do castelhano (prefiro esta designação a “espanhol”), que – por imposição do estado (agora, sim) Espanhol – influenciou, num processo de características colonizadoras, mesmo após o governo central do “reino” admitir as “autonomias”, a escrita do galego (= norma galega do galaico-português). É a batalha pela imposição e consolidação da cultura galega no seu território, não em termos de guerra nacionalista, mas, simplesmente, pela sua própria força, vitalidade e dinâmica. O principal trabalho talvez tenha de ser levado a cabo junto dos próprios galegos, de origem e, até, de importação, mais ou menos forçada. Há que conseguir que a grande maioria dos cidadãos da Galiza tenha consciência da importância da sua história e da sua cultura, veiculadas através de uma língua que é “sua” e o defenda, com orgulho mas sem ódios, já de todo injustificados neste momento histórico. Ora, não me parece que seja essa uma tarefa fácil, que admita distracções com outras actividades, de menor importância circunstancial: a dispersão estratégica só pode conduzir a maus resultados. E, sem bons resultados, sem que se atinjam os objectivos fundamentais, tudo o resto passa, de “circunstancialmente menor” a “destituído de sentido”…Depois, se conseguido o domínio de um terreno consolidado, como espero, será tempo de encarar outras tarefas, caso se revelem pertinentes e necessárias! Para terminar, não sei se terás reparado que, fundamentalmente, sou A FAVOR de que cada variante do português encontre a sua própria ortografia, a que melhor se adapte a que todos, mesmo os menos cultos, facilmente acedam à pronúncia correcta de cada palavra, na “sua norma”; e sou CONTRA a existência de qualquer Acordo, que fracassará sempre, como o Aborto Ortofágico que se pretende “em vigor”, porque nunca conseguirá escapar a uma espécie de “quadratura do círculo”: igualar o que é, inexoravelmente, diferente. Ao admitir variadas (nalguns casos, variadíssimas, pelo menos para meu gosto…) maneiras de escrever a mesma palavra, conforme se pronuncie na variante utilizada por quem escreve, este AO acaba por ser uma contradição nos termos, admitindo, em simultâneo, o fracasso da sua “demanda” e que o almejado “acordo” acaba por se transformar num caos, onde, afinal, as regras se dissolvem em nada! Não afasto a troca de informação entre os especialistas dos vários países, para que as palavras que se pronunciam “do mesmo modo” sejam identicamente passadas a escrito. Mas, se, p.e., a variante portuguesa pode ser (muito) útil à galega (como às dos PALOP), neste caso, dificilmente a brasileira poderá desempenhar semelhante papel, dadas as excessivas diferenças prosódicas… O que nunca terá qualquer utilidade é a intromissão da política na “determinação” de uma ortografia. Algo bem diferente de algumas opções correctas, no nosso caso “galaico-português”, que contrariem o tal domínio das normas castelhanas, poderem desempenhar um papel “político”, na emancipação sem ambiguidades de uma cultura “politicamente” subjugada! Um abraço.
Muito obrigado, amigos, pela atenção: acho que no fundo estamos de acordo (!) no fundamental, que é a paixão por esta língua que vai em nós, e que nos leva… mas não só. Com efeito, há um imenso trabalho a fazer (e que se vem fazendo, sem parar), para dignificar essa língua do nosso povo, “língua proletária do meu povo”, que cantou o nosso poeta Celso Emílio Ferreiro. Mas… o que aconteceu? Nos trinta e pico de anos desde a instauração do Estado espanhol “de las autonomías”, essa tal língua não só se foi deturpando e recuando, mas nestes últimos anos está claro que se perdeu (em grande parte) a sua transmissão intergeracional; hoje temos o “fenómeno” (e bem-vindo seja!) dos “neofalantes” (eu sou um paleo-, pelos meus pecados!), e eu vejo claro (posso estar errado, naturalmente) que esse é o próximo caminho no que ou a língua perde essa vitalidade que ainda tem, ou ela se perde de vez, e o país fica a falar (mal) castelhano (o “castrapo”, que costumamos dizer).Ora: qual modelo de língua escolhe essa mocidade? (e estou a falar de pessoas que têm aprox. um terço da minha idade) Certamente não o péssimo acastrapado da denominada “Xunta de Galicia”, nem o pseudocientífico do Instituto da Língua Galega e da Real Academia Galega, que tenta em princípio ser uma reprodução fotostática do que fala “o povo”: mas acontece que “o povo” é hoje “o pueblo”: nos bairros operários de Vigo (a “minha” cidade) escuita-se falar um misturalho eternamente oscilante entre (mal) castelhano e (mal) galego, e os seus filhotes já falam (mal) “madrileno”. No entanto, os do ILG-RAG andam a debater se p.ex. “bueno” é ou não palavra galega, visto ela sair às duas por três na conversa…Pois essa mocidade neofalante está a escolher o padrão lusófono: digo assim deliberadamente, porque em muitos casos já não é o do S da Raia (do que eu gosto) mas o do imenso Brasil… sim, com todas as diferenças de sotaque e outras, mas dalgum jeito eles percebem que o futuro da língua toda resolve-se ali (p.ex. a candidatura a ser língua oficial da ONU vem dali, e dali é a variante dos textos oficias de organismos do sistema da ONU onde o português é língua oficial e/ou de trabalho).Sei que é muito difícil para pessoas instaladas com normalidade na sua língua, que é oficial no Estado no que moram, imaginar a titânica luita dessa mesma língua sob a implacável pressão doutra língua, única oficial em todo o Estado no que moram, um dia, e outro, e outro também, geração trás geração. Não admira então que se procure um contrapeso no centro de gravidade da própria língua, na sua variante brasileira: e esta grafa-se hoje no AO…apertas galegasCarlos
Caro amigo Carlos Durão, apesar de não não aceitar o Acordo Ortográfico, posso perceber perfeitamente os motivos que invoca para a defesa da sua posição. Não há dúvida de que há uma diferença entre lutar por uma língua que está estabelecida no país onde se vive e lutar por ela numa região que corre o risco de a ver soçobrar sob a língua oficial do Estado Central ou sob a variante mais longínqua geograficamente falando. Afinal, Portugal e a Galiza não têm o mar pelo meio. Já me custa, a mim que não sou linguista, ver a ONU adoptar como oficial uma das variantes do português e não aquela que foi e é a sua genuína raiz. Espero não ter dito nenhuma asneira, mas sobre este assunto é assim que eu penso. Um abraço da Augusta Clara
A genuína raiz da língua hoje conhecida como Português encontra-se na Galiza. A língua não nasceu em Portugal; Portugal nem sequer existia. Portugal apenas deu à língua o nome pelo qual hoje a conhecemos internacionalmente por via da sua (tardia) nacionalização. Este critério, portanto, não nos serve. Por muito que doa ao luso-patrioteirismo, o vosso país carece de peso e o centro de gravidade da língua é o Brasil. Seja qual for o ponto de vista da análise é um fato indiscutívelmente evidente. E está longe de ser uma singularidade.A Dª. Augusta Clara certamente tem contato diário com o Inglês. Já parou para pensar que mais de 90% desse Inglês não é o é, quero dizer, é Americano? Que também o Inglês da ONU é sobretudo Americano? Pois saiba que a grande maioria dos Britânicos há muito que aceita a realidade tal como ela é. Não acha que está na hora dos Portugueses fazerem o mesmo?
A raiz da língua portuguesa, todos o sabemos, vem-nos da Galiza. A língua não nasceu em Portugal. O nosso primeiro rei, também não, pois era súbdito leonês. Mas não é isso que acontece com todos os países? Dizer-se que «Portugal apenas deu à língua o nome pelo qual hoje a conhecemos internacionalmente por via da sua (tardia) nacionalização.» é extremamente injusto e redutor. A língua estaria extinta se os portugueses não a tivessem desenvolvido, transformado em língua literária e espalhado pelo mundo. A aculturação castelhana teria dizimado a raiz galega se ela não tivesse encontrado em Portugal terra onde florescer. Meu caro Albano Coelho, os patrioteirismos são sempre condenáveis, pois nos retiram a lucidez, tenham eles origem portuguesa ou galega. Quanto à hegemonia brasileira no seio da Lusofonia, pelo peso demográfico e pela importância internacional do Brasil, acho que tem razão. Mas é natural que defendamos a nossa maneira de falar um idioma comum, sem negar aos outros o mesmo direito.
Caro senhor nas escolas de línguas o inglês que se lecciona é o inglês Britânico fazendo o professor sempre referência quando um vocábulo é americano e tendo o dever de explicar aos alunos( crianças ou adultos) o que devem ou podem usar.Qualquer aluno é preparado para um diploma PROFICIENCY in ENGLISH que o iguala a um nativo em termos de qualificações.Asseguro-lhe que os professores não permitem nem na escrita, nem no exame oral, americano. Paar quem quer aprender americano há o instituo americano e o British Council autoridade máxima da língua tem diplomas completamente diferentes.Terei todo o gosto em fornecer mais informações.Cumprimentos
Caro Albano Coelho (e Dª não, por favor) patrioteirismo é termo que não me diz respeito e respondo-lhe fazendo minhas as palavras do Carlos Loures com quem estou inteiramente de acordo. Relativamente ao que diz a Inês, como professora de inglês, eu confirmo-o como aluna que fui dum curso do Cambridge: realmente não era o inglês dos EUA que se aprendia, mas o de Inglaterra, o que não impede a expressão coloquial do dia-a-dia de estar eivada da terminologia apreendida através da televisão, dos filmes e da própria informática. Mas a língua mãe tem sido preservada através do ensino, tal como o português de Portugal. Não deveríamos passar a falar com a entoação – de que, aliás, gosto bastante – nem a escrever com os termos introduzidos pelas telenovelas. O argumento da quantidade, em termos culturais, nunca ganhou ao da qualidade.
Está certo o Sr. que o primeiro Rei português era subdito leonês? Afonso Henriques era neto do Afonso VI “Rex tota Gallaetia” o qual quando morreu o seu filho e herdeiro na batalha de Uclés disse “Ay meu filho! Ay meu filho! Alegria do meu coraçom e lume dos meus olhos, solaz da mia velheze! Ay meu espelho em que me soia veer e com que tomava grand prazer! Ay meu herdeiro mor! Cavaleiros, u me lo leixastes? Dade-me meu filho, Condes!!O texto está recolhido duma “História de Hespanha” escrita por um castelhano do século XVI-XVII chamado Prudêncio de Sandoval.Afonso Henriques era nomeado pelos andalusis de “pérfido galego”…Poderiamos continuar…
Afonso I de Portugal era neto de Afonso VI de Leão e Castela que doara o condado de Portucale à filha, Teresa, e ao genro Henrique de Borgonha. Afonso Henriques nasceu no território do condado (tenha sido em Guimarães, em Viseu ou em Coimbra). O condado não estava integrado na Galiza, tanto quanto julgo saber, mas fazia parte do reino de Leão e Castela. Portanto, o primeiro rei de Portugal, até proclamar a independência, foi súbdito leonês. Ou não?
Professor Doutor Anselmo Lopes Carreira. da UNED (Universidade Nacional de Ensino a Distância)Sobre a Idade Média da Galiza e Portugal.Para ouvir:http://www.ivoox.com/anselmo-lopez-carreira_sb.html?sb=anselmo+lopez+carreira
Amigo José Manuel Barbosa:Vou ouvir com atenção as lições do Professor Anselmo Lopes Carreira. Nesta matéria, costumo guiar-me pela História do Professor Ramón Villares , e pela do medievalista português Professor José Mattoso . Os quais, aliás, não estão em desacordo. Que Afonso I de Portugal era formalmente súbdito de Leão, não restam dúvidas – o episódio de Egas Moniz atesta-o. Que ele não se considerava como tal desde que em 1128 venceu a batalha de São Mamede, também não se duvida. Súbdito de Alfonso Raimúndez , enquanto rei da Galiza? Parece-me irrelevante. Tanto mais que ao transformar-se em Afonso VII, Imperator totius Hispaniae ”, o Reino da Galiza, segundo Villares , deixa de existir. É uma época em que a estrutura feudo-vassálica é intrincada. Muitas vezes o que era verdade num território, não o era no território vizinho. Mattoso diz, no entanto, que a ideia imperial de Afonso VII não teve correspondente na realidade, pois «não existiu nunca na Hispânia a tradição de um nível hierárquico de poder acima do dos reis. A ideia do império foi frágil e contraditório…” Podemos continuar , como diz, embora seja um tema lateral ao que estávamos a discutir – o do Acordo Ortográfico. E aí, a minha posição mantém-se – o nosso idioma comum nasceu na Galiza, mas foi em Portugal que se consolidou e foi o esforço dos portugueses que o trouxe até aos nossos dias – e esse não é feito que se possa esquecer.
Às muitas referências aqui dadas por Carlos Durão, podem também consultar sobre a perspectiva do reintegracionismo galego o hoje publicado n’ A Viagem dos Argonautas em http://aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt/336863.html
Parece que aqui a lição nos é dada pelos irmãos galegos
Caro Barbosa, Zé: Seria bom que esclarecesses um simples subentendido, bom ou mau, segundo perspectivas: a história dos historiadores, mesmo sérios, mesmo investigadores profundos, costuma ser guiada pela ideologia nacional/ista que esses historiadores fruem ou em que esses historiadores militam. Seja como for, a ideologia a que me refiro é a ideologia dominante no estado em causa.Um exemplo: Apesar de Cristóvão Colom ser galego (segundo todos os indícios), os historiadores do reino bourbónico, a começar pelo egrégio MenéndezPidal, sustêm que é genovês.Mais um exemplo: Apesar de os apelidos Cervantes e Saavedra denunciarem que o autor do Quixote era de ascendência galega, os historiadores e tratadistas literários nem sequer assinalam esse facto; antes, sustêm, já caladamente, que nasceu em Alcalá de Henares, quando a “partida de bautismo” não pode dar fé desse nascimento, por ser falsa.Algo parecido fazem o reino e a repúblida relativamente à sua origem como estados europeus.A Galiza teve a desgraça de, sendo mãe não só de Portugal, mas da própria Castela, esgaçada do reino da Galiza-e-Leão, ter filhas tão culpavelmente ignorantes, que mesmo deturpam a (sua) história porque reconhecerem que foram “paridas” por reino tão … miserento … hoje seria para elas motivo de grande vergonha perante o concerto dos estados…
Acho que nestes três artigos vai uma explicação sobre o tema:http://despertadoteusono.blogspot.com/2011/09/mudanca-de-paradigma-e-recuperacao-da_25.htmlhttp://despertadoteusono.blogspot.com/2011/10/mudanca-de-paradigma-2-parte-que-se.htmlhttp://despertadoteusono.blogspot.com/2011/10/mudanca-de-paradigma-3-parte-porque.htmlObrigado. Abraços.JMBarbosa