Cidade a três velocidades – 3. Por Jacques Donzelot. Tradução de Júlio Marques Mota.

(Continuação)

 

Reduzir esta tripla distância, espacial, social e legal, que mantém o isolamento dos bairros desfavorecidos, não será primeiro e sobretudo o papel da escola — sobretudo quando o novo modelo de integração social requer um controlo da linguagem e de relações com o outro bem superior ao que era exigido pela indústria fordista? Sim, mas a escola desempenha tanto mais dificilmente este papel quanto cristaliza todos os efeitos negativos gerados por este entre si a que se encontram forçados, por esta inércia e insegurança que caracterizam estes bairros. A natureza forçada deste entre si, associada paradoxalmente à proibição de afirmar um “nós” que compense nalguma coisa a dimensão de rejeição, explica-nos as manifestações de identidades. O porte “ostentatório” do véu vem perturbar a relação educativa pela provocação deliberada que representa em relação a uma ordem que as ensina a elas próprias e à sua qualidade intrínseca. Ficam assim totalmente desamparadas quando se confrontam com este enfeite que as fazem intercalar, na sua opacidade, as Luzes das quais são portadoras e a unção que as jovens cabeças morenas podem receber. Mas é sobretudo a imobilidade que revela na escola a sua verdadeira causa e as suas consequências mais negativas. A causa desta inércia não tem ver com uma falta de interesse intrínseca dos alunos para que se ensine mas sim com uma falta de confiança neles próprios. E esta falta de confiança traduz-se numa impaciência extrema, num desejo em que o mínimo esforço seja, de imediato, recompensado tanto é o esforço que consideram que a si próprio lhes é exigido, pois têm que arriscar para além das certezas negativas que preenchem a maior parte quanto às suas possibilidades de terem êxito e de terem capacidade de lucidez para o alcançar. Há efectivamente aqueles que aceitam apostar no improvável — o seu sucesso ao longo do tempo. Mas são uma fraca minoria ao lado dos que reclamam uma recompensa rápida pelo mais pequeno investimento que aceitam fazer na escola, uma recompensa imediata ao mínimo esforço fornecido. Quando estes recebem os seus boletins escolares, querem aí ver nada mais do que a prova da sua rejeição. E o período de distribuição dos boletins é frequentemente acompanhado por um recrudescimento dos automóveis queimados e por outras manifestações emocionais da desgraça das cités.

 

A criação de periferias urbanas

 

No tempo da cidade industrial, o tecido das periferias urbanas feito de velhos núcleos de gentes vindos das aldeias e de pequenas moradias suburbanas constitui assim o prolongamento das cités de habitat social, o horizonte pensável de uma promoção bem sucedida. Uma continuidade existia entre estas duas espécies de tecidos, nem que fosse através das relações familiares e de amigos mantidas entre os que habitavam as cités e os que tiveram acesso à propriedade de um lote de terreno. Estes loteamentos atraíam os habitantes das cités, provocavam-nos, faziam-lhes ganhar o gosto em certa medida da terra prometida. Agora, os efeitos de repulsão são sensivelmente superiores a estes efeitos de atracção. O temor que os habitantes das cités viessem perturbar a vida serena destes loteamentos suburbanos, que viessem prejudicar a qualidade do ambiente que este oferece, que viessem depreciar o seu valor fundiário, sobrepõe-se ao desejo de dar a ver o seu sucesso, a sua “pequena felicidade”, aos que permaneceram nos HLM. Um princípio de incompatibilidade apareceu assim, o que representa um regresso à ideia de uma fronteira, própria para fazer uma barragem aos habitantes das cités, organizada pelos que vivem nestes loteamentos suburbanos, mesmo e sobretudo quando estes últimos das cités vieram. Tudo se passa como se, sobreviventes de um perigo enormíssimo, os moradores destas periferias suburbanas tenham muito medo de serem expostos a estes perigos, de novo. Esta incompatibilidade não é um fenómeno secundário nem é um fenómeno provisório. Esta perturba verdadeiramente a vida de todas as câmaras que comportam ao mesmo tempo cités de habitat social e estes loteamentos suburbanos. Não há necessidade, para disso nos convencermos, de ouvir a esse respeito o discurso dos presidentes das câmaras municipais destas comunas, particularmente os destas famosas cidades ditas “novas”. A sua preocupação essencial, quase obsessiva, é, se não aumentar o número, pelo menos manter o número das suas classes médias, reduzir o risco da sua saída, o que provoca a concentração dos pobres “originários da imigração” nas cités da comuna. Para além da preocupação do equilíbrio “republicano” da composição social das suas comunas, perfila-se um temor ainda mais substancial. Dizem, se certo limiar de ruptura é atingido na composição social de uma comuna, esta perde toda a sua atractividade e junta-se ao grupo dos territórios desfavorecidos e à sua gestão paliativa pela política dita “das Cidades”.

 

 

 

Porquê tal rejeição das cités e dos seus habitantes pelos da periferia urbana, quando parte deles têm a mesma origem? A assimilação destas cités às minorias étnicas e o mal-estar mais ou menos declarado por estas entram aqui certamente em linha de conta. Mas a explicação parece mais ter que ser procurada na oposição quase estrutural entre estas duas modalidades da cidade contemporânea que são a relegação nas cités de habitat social descentradas ou encravadas e a urbanização das periferias, tanto quanto esta última parece o exacto contrário da primeira. Ao entre si forçado das cités, a periferia urbana opõe, com efeito, a sua procura de um entre si protector cujos habitantes têm ainda tanto mais necessidade dele quanto devem beneficiar do apoio implícito ou explícito de uma vizinhança que os tranquilize para poderem efectuar uma vida feita de deslocações importantes quer seja para o emprego, para as compras e ou lazeres ou mesmo necessárias para a educação das suas crianças. Não é o espectáculo de uma imobilidade quase voluntária que espanta, como nas cités, mas a omnipresença do automóvel, a hiper-mobilidade obrigada. Também não há a insegurança nos espaços comuns que provoca o isolamento dos habitantes das cités nos seus apartamentos que cuidam de maneira contrária ao abandono em que deixam os lugares partilhados. É o inverso: se o primeiro temor se refere aos espaços e aos bens privados, como o atesta a superabundância dos espaços de passagem proibidos e os cães de guarda, os espaços comuns são objecto de uma grande preocupação e mesmo, tendencialmente, de uma quase privatização ao abrigo da sua própria segurança. Por último, se a educação concentra nas cités todos os efeitos negativos de um entre si forçado, da inércia e da insegurança dos espaços comuns, é muito diferente o que se passa nas zonas das periferias urbanas onde beneficia da natureza protectora do entre si dos habitantes, da sua preocupação em proteger os equipamentos dos quais dispõem e da sua propensão à mobilidade. Se a escola, nas cités, sofre de um défice de aplicação da lei e do direito, na periferia urbana, resulta da procura de um regime de favor.

 

Porquê falar de um entre si protector a propósito das relações internas aos habitantes das periferias urbanas? Sem dúvida a imagem da aldeia, de uma comunidade unida pelos serviços mútuos e pelo calor colectivo, entra em linha de conta nos comportamentos dos pioneiros destas periferias. Durante os anos 70, os loteamentos tinham um pequeno ar de falanstério no entender dos seus habitantes. Mas o sonhar bucólico assim como a agitação comunitária não perduraram para além do período inicial. A satisfação de um quadro natural parece cada vez mais determinada pelas regras de um mercado que se organizou de maneira a poder dispensar as preocupações ambientais em perfeita relação com o nível de rendimento dos candidatos a tais benefícios. Existe assim uma especialização social das comunas nas periferias urbanas da Île-de-France que fornece aos compradores parcelas cada vez menos caras à medida que se afastam da capital, de modo que os menos afortunados, os trabalhadores profissionais, se encontram na extremidade exterior deste círculo. Quanto às tentações de se auto-gerirem no isolamento relativo destes loteamentos, estas não resistem às primeiras querelas que opõem os que querem investir no espaço comum e os que se afligem para pagar o seu espaço privado, d modo que as comunas herdam geralmente as suas prerrogativas e deveres em matéria de vigilância. O que é protector é em primeiro, e sobretudo isto, o facto de a instalação na zona de periferia urbana valer como garantia de boa vizinhança e de tranquilidade comparada com os perigos das cités e a intranquilidade dos centros das cidades. E isto, qualquer que seja o grau de investimento dos urbanos da periferia na gestão comunal. Podem bem escolher investir na comuna e fazê-la funcionar como um clube de co-proprietários preocupado em manter a qualidade do seu território, de o reservar apenas a novos moradores que lhes convenham através de critérios de construção exigentes[1]. Ou sobretudo renunciar a um tal envolvimento e esperar pelos poderes locais para se resolverem os problemas de equipamento de que se queixam[2]. Ou ainda optarem por um verdadeiro distanciamento, tanto em relação à cidade-centro como em relação à vida comunal e à vida local, preferindo gozar da riqueza dos seus meios e das suas redes de interesses para resolver por eles mesmos o seu problema dos serviços[3]. Mas qualquer que seja o lugar de um território da periferia urbana em toda a gama das disposições possíveis deste tipo de espaço em relação à política, a preocupação de um entre si protector permanece o constituinte básico, a invariante própria de todas as figuras deste género.

 

 

A procura de um entre si protector reencontra-se em todas as categorias de periferias urbanas porque constitui uma necessidade para um modo de vida onde a deslocação desempenha um papel também importante, tendo em conta que a satisfação de tal habitat num quadro natural obtém-se geralmente apenas quando se está disposto a aceitar um grande afastamento, quer quanto ao emprego quer quanto à escola, à escola secundária pelo menos. Viver na periferia urbana é instalar-se não somente “no campo” mas também “no movimento”. É a imagem da fluidez que se opõe desta vez à inércia das cités. Ora, ninguém se afasta facilmente da sua casa, tanto quanto nesta se considera que se está protegido e que se é igualmente protector, tanto quanto isto fornece uma base bastante forte para que se possa ir para outros lugares, ter com outras pessoas sem se estar a temer ser ameaçado nela ou por elas. Há efectivamente na periferia urbana uma nova cidade que emerge, uma cidade de escolha onde a mobilidade permite aceder a empregos distantes da casa de cada um, a centros de interesse cultural e de lazer numa direcção oposta, a amigos um pouco por toda a parte.

(Continua)


[1] Éric Charmes, Les Tissus périurbains français face à la menace des “gated communities”. Éléments pour un état des lieux. Investigação conduzida por PUCA, Julho de 2003.

[2] Ididem.

[3] M.-C. Jaillet, Pouvoirs locaux, Março de 2003.

 

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