Nota de abertura
No mês passado publicámos uma longa série de textos com o título Rumores, Tremores, Tumores onde se fazia uma análise da instabilidade dos mercados financeiros. Uma série longa por opção pois o que aí se narrava era aparentemente tão irracional que era necessário deixar tudo bem explicado. Acabada a série, dissemos que a historia aí contada seria relatada por outras vias, por outros canais, como comunicados dos grandes bancos, dos governos, das agências de rating, o que aconteceu. E mais uma vez o nosso espanto perante as vendas a descobertas. Mas lembremos que os CDS são uma outra versão das vendas a descoberto. Proibidas em Agosto por um espaço curto, logo que outra vez autorizadas, os ataques à estabilidade financeira dos bancos reiniciaram-se. Era de esperar, por toda a gente, menos pelas gentes no poder. Não será por acaso que o artigo de ficção política do Le Monde de 3 de Agosto que levantou a questão tinha como título Le gendarme aux yeux bandés, o que agora estou a citar de cor e perdoem-me alguma ínfima imprecisão cito de memória apenas. Nada é por acaso até o erro da Democracia em ter levado ao poder empregados bem submissos dos mercados financeiros, das grandes fortunas que destes vivem.
Mas essa crónica, Rumores, Tremores, Tumores continua ainda, pela mesma via, os mercados financeiros, mas um outro continente, a América do Norte, por uma outra cidade, Nova Iorque, por um outro palácio da Bolsa que não é o de Paris, mas sim o de Walll Street.
E sinceramente , esperemos que esta crónica tenha apenas como sequência o presente texto de Robert Reich, mas não acredito nisso. A cobardias política dos nossos dirigentes é muita para que queiram levar a mudar de caminho.
Coimbra, 5 de Outubro de 2011
Júlio Marques Mota
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Siga o dinheiro: Por detrás da Crise da Dívida na Europa esconde-se um outro gigantesco resgate financeiro de Wall Street
Robert Reich
Hoje, Terça-feira, outubro 4, Ben Bernanke acrescentou a sua voz à daqueles que estão preocupados com a crise da dívida na Europa.
Porque é que exactamente deve a América estar tão preocupada? Sim, nós exportamos para a Europa – As exportações não irão desaparecer . E de toda a maneira, estas são pequenas quando comparadas com a dimensão da economia americana.
Se quisermos saber a verdadeira razão, siga o movimento do dinheiro. Uma situação, uma declaração de incumprimento, seja ela vinda da Irlanda, da Itália, de Portugal ou vinda de outros países, pode ter o mesmo efeito sobre o nosso sistema financeiro que teve a implosão de Lehman Brothers em 2008.
Caos financeiro.
Os investidores já estão a sentir o cheiro . As acções desceram pelo décimo terceiro mês de baixa, com os investidores a veenderam à pressa na segunda-feira os títulos dos bancos de Wall Street.
Estes bancos terão apenas 7 mil milhões em dólares na dívida grega , a partir do final do ano passado, segundo o Banco Internacional de Pagamentos. O que não é grande coisa.
Mas uma declaração de incumprimento da Grécia ou de qualquer outro país da Europa a braços com a sua dívida soberana pode facilmente colocar em perigo bancos alemães e franceses, que têm aplicado elevados valores na Grécia (e noutros países europeus em graves dificuldades).
É aí que Wall Street aparece. Há grandes bancos de Wall Street que emprestaram muito dinheiro aos bancos alemães e aos bancos franceses.
A exposição total de Wall Street à zona euro é de aproximadamente 2,7 milhões de milhões. A exposição dos bancos de Wall, Street relativamente a estes últimos bancos representa quase metade desse total.
E não é só os empréstimos de Wall Street, empréstimos aos bancos alemães e franceses que são preocupantes. Wall Street tem também seguros ou inversamente tem apostas contra todos os tipos de produtos derivados provenientes da Europa – derivados sobre as divisas, sobre a energia, sobre as taxas de juros e ainda sobre os swaps de devisas. Se um banco alemão ou francês for abaixo, os efeitos, os prejuizos, em cascata são incalculáveis.
Obtê-lo?
Siga o dinheiro: se a Grécia ficar em incumprimento, é certo que os investidores começam a fugir da Irlanda, da Espanha, da Itália e de Portugal também. Tudo isto coloca os grandes bancos franceses e alemães em franca dificuldade. Se um desses bancos colapsa ou mesmo se mostrar apenas sinais de grande dificuldade, Wall Street está em grandes apuros. Possivelmente, isto representará uma situação ainda mais complicada do que a que se criou com a queda do Lehman Brothers.
É por isso que as acções dos maiores bancos dos EUA têm vindo a cair a partir do mês passado. Morgan Stanley fechou na segunda-feira ao seu mais baixo valor desde Dezembro de 2008 – e o custo do seguro da dívida do Morgan saltou para níveis nunca vistos desde Novembro de 2008.
Há rumores de que Morgan poderia perder até 30 milhares de milhões se alguns bancos franceses e alemães entrassem em falência . (Dados a partir de Federal Financial Institutions Examination Council que regista toda a exposição transfronteiriça dos maiores bancos.)
Mas falar em 30 milhares de milhões é falar em 2 milhares de milhões a mais do que o valor dos activos que o banco possui (em termos de capitalização de mercado actual.)
Mas Morgan diz que a sua exposição aos bancos franceses é Zero. Porquê esta discrepância? Morgan tem provavelmente um seguro contra os seus empréstimos concedidos aos bancos europeus, bem como garantias dadas por estes como colateral. Assim Morgan considera que não está exposto ao risco de falência.
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Alguém se lembra de qualquer coisa que tem a ver com o nome AIG ? Esta empresa foi o gigante no sector dos seguros e que foi à falência quando Wall Street começou a ir abaixo. Wall Street admitia que estava seguro com as suas apostas contra a AIG. Quando se deu o grande colapso, a AIG simplesmente não podia pagar as referidas apólices, os seus CDS vendidos.
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Não passámos já por isto?
Os Republicanos e os executivos de Wall Street que continuam a gritar contra a lei Dodd-Frank estão completamente errados. O facto de que ninguém parece saber qual a exposição de Morgan aos bancos europeus ou aos produtos derivados – ou mesmo da maior parte desses outros bancos gigantes de Wall Street – mostra que a lei Dodd-Frank ainda não foi suficiente longe.
Os reguladores ainda não sabem o que está a acontecer em Wall Street . Eles não têm visão clara da exposição das gigantes Instituições Financeiras dos EUA aos produtos derivados .
É por isso que as autoridades de Washington estão apavoradas – e é por isso que o secretário do Tesouro Tim Geithner mantém-se de modo permanente a implorar aos dirigentes europeus que apoiem a Grécia e os outros países da Europa fortemente endividados.
Alguns meses antes, quando a crise da dívida soberana se tornou evidente, os bancos de Wall Street não se preocuparam absolutamente nada. Estes tinham pouca ou mesmo nenhuma exposição aos problemas da Europa. A Reserva Federal disse exactamente o mesmo. Em Julho, Ben Bernanke garantiu ao Congresso que a exposição dos bancos dos EUA aos países europeus com problemas era “muito pequena”.
Agora estamos a ouvir uma música diferente.
Não se engane. Os Estados Unidos querem que a Europa vá em socorro das nações fortemente endividadas para que estes países possam reembolsar o que lhes devem os grandes bancos europeus. Caso contrário, poderiam aqueles também implodir e arrastar consigo Wall Street com eles.
Uma das muitas ironias aqui ligadas é que algumas das nações muito endividados da Europa (Irlanda é o melhor exemplo), ficaram profundamente endividadas , em primeiro lugar, por terem salvo os seus bancos da crise que começou em Wall Street.
Círculo completo.
Por outras palavras, a Grécia não é o problema real. Nem é a Irlanda, a Itália, Portugal ou a Espanha. O problema real é o Sistema Financeiro – centrado em Wall Street. E nós ainda não resolvemos isso.
