Cidade a três velocidades – 4. Por Jacques Donzelot. Tradução de Júlio Marques Mota.

(Continuação)

 

Esta “cidade emergente” é efectivamente “uma cidade da escolha”, “uma cidade móvel” que emancipa os seus habitantes dos constrangimentos do bairro da cidade de outrora, que liberta o jogo das oportunidades e das afinidades do constrangimento das pertenças sócio-espaciais[1]. Mas esta liberdade nova paga-se com uma dupla dependência, dos meios de transporte, por um lado, das garantias de tranquilidade que oferece o lugar de habitat, por outro. Tratando-se do transporte, é necessário primeiro dispor de dois ou ainda mais, frequentemente de três, veículos. Seguidamente intervém a qualidade das vias de deslocação, a existência ou não de alternativa ao nível do transporte público, mais vantajosa ou em caso de emergência. Por último, e sobretudo, conta o afastamento dos serviços, a distância onde se encontra um bom liceu, a possibilidade ou não de ir à noite ao centro da cidade e sem que o regresso seja um momento problemático. Tratando-se da tranquilidade do lugar de habitat, é necessário poder contar com a garantia de protecção contra o roubo, com a vigilância da vizinhança, com a preocupação que os vizinhos terão com a nossa própria casa, com as nossas próprias crianças quando eventualmente se estiver ausente e de modo que a angústia não destrua o prazer da deslocação. Torna-se difícil saber o que conta mais na atracção da periferia urbana, se o afastamento da cidade ou se a mobilidade, tanto quanto estes dois elementos se mantêm numa relação de absoluta reciprocidade. Em contrapartida, o que é certo é que a insuficiência dos meios de deslocação e/ou o temor de estar em casa pagam-se a um preço forte.


Pôde-se constatar aquando das últimas consultas eleitorais um forte crescimento do voto de protesto no sector da periferia urbana[2]. Como é que as camadas médias, que povoam a periferia urbana, podiam dar crédito a um discurso que brada o tema de uma insegurança crescente e de um abandono das pessoas corajosas em proveito dos imigrantes das cités e dos ricos “bobos” dos centros das cidades? Como a não ser porque este discurso punha o dedo nas duas obsessões da periferia urbana: a ameaça que os habitantes das cidades fariam pairar sobre eles e a rejeição da qual se sentem objecto por quem tem altos rendimentos e que não está sujeito aos mesmos temores e aos mesmos constrangimentos que eles.


Tendo em conta o investimento do qual eles são objecto e ao contrário das cités de habitat social, o sentimento de insegurança refere-se primeiro aos espaços privados. Esta preocupação traduz-se numa superabundância de redes que delimitam o mais pequeno jardim e no cão de guarda que ladra a cada passagem, fazendo ambos parte da imagem negativa do subúrbio parisiense. A esta defesa dos espaços privativos, veio acrescentar-se, desde há uma dezena de anos e de maneira cada vez mais sensível, uma defesa dos espaços comuns: as vias de passagem e os equipamentos colectivos destes loteamentos suburbanos. Esta protecção toma a forma de rua com correntes, que não deixa por conseguinte nenhuma razão aos de fora para entrarem com os seus carros a não ser aos que lhes fornecem serviços, e às vezes mesmo barreiras. Trata-se sempre de reduzir os riscos ligados a uma circulação excessiva, os danos sonoros, as desordens que resultam da irrupção de desconhecidos, de pessoas “que não têm nada a fazer aqui”. Ou seja, trata-se pois do que se poderia chamar de uma privatização dos espaços comuns, uma vontade de prolongar nestes lugares a quietude de que neles se pode usufruir. Ao invés das cités, onde cada um se refugia em casa para fugir à insegurança que reina nos espaços comuns, nas periferias urbanas estende-se a estes espaços comuns a segurança da sua própria casa. Vem-se assim muito naturalmente a produzir e a vender um entre si sob a indicação da segurança dos espaços privados e dos espaços comuns. É o sentido das famosas gated communities americanas e da sua adopção francesa por certos promotores, como o grupo Monné-Decroix[3].


 

Como interpretar esta tendência da privatização dos espaços comuns que se refere não somente às habitações individuais mas também às residências colectivas? É tentador ver o efeito de um desejo de um distanciamento defensiva de uma parte da sociedade em relação a outra, uma maneira de se colocar fora da sociedade, de se subtrair às normas comuns apropriando-se colectivamente de um espaço. Mas esta leitura descreve mais o efeito produzido sobre os transeuntes que passam, sobre aqueles que particularmente vivem noutros tipos de espaços urbanos, que a motivação que guia certamente os que procuram ou vendem este tipo de produto. Eric Charme mostra bem como temos tendência a projectar nestas formas de autoprotecção as intenções de constituição de uma sociedade murada sobre si própria, hipótese que uma análise feita ao detalhe dos raciocínios tidos pelos habitantes em questão não permite de forma alguma confirmar. A preocupação da tranquilidade não vai até ao ponto de um verdadeiro fechamento e ainda menos ao ponto de um racismo mais ou menos declarado em relação aos habitantes das cités e à ameaça que representam. Como interpretar então o interesse crescente por estas fórmulas mais ou menos fechadas de residências colectivas? Jeremy Rifkin fornece a esse respeito uma análise particularmente sugestiva[4]. Mostra, com efeito, como as referidas fórmulas se inscrevem no âmbito muito mais geral de uma substituição feita pela lógica do acesso em relação à lógica da propriedade. A propriedade de um edifício stricto sensu tranquiliza mas preocupa igualmente. É necessário protegê-la, velar por ela, para gozar da segurança que permite. Mas se a segurança é sobretudo este bem do qual se quer usufruir, porque não comprar esta directamente em certa medida sob forma de acesso a um lugar protegido, que disponibiliza os serviços estritamente àqueles que pagaram o preço de entrada? A propriedade, de imediato, torna-se um desafio secundário. Não é mais a casa que se procura proteger com um arsenal de vigilância mas a tranquilidade à qual ela fornece um acesso no âmbito destas novas fórmulas, exactamente como um bilhete de acesso, nem mais nem menos! Lidos a favor desta análise, os mecanismos de fechamento e de privatização destes novos conjuntos residenciais aparecem como a realização sem encargos e sem complicações inúteis, por um progresso económico em certa medida, do projecto inerente à pretensão da periferia urbana em comprar um ambiente protector sem ter o trabalho de o produzir ou de o co-produzir como um todo, sem também o investimento relacional que isso necessita e para um resultado sempre incerto.


A problemática do acesso, como teorizada por Rifkin, esclarece a relação das periferias urbanas com a segurança mas igualmente com todos os serviços e com a escola em especial, porque a relação com escola funciona toda ela em torno da questão do acesso, a preservar aqui, a tratar em algures. Combinam bem, a esse respeito, os benefícios destes traços característicos do habitat da periferia urbana que se podem enumerar: um entre si protector, uma propensão ao movimento, uma segurança dos espaços comuns pela sua privatização. Tomar-se-á como ilustração o inquérito recente conduzido por Eric Charme sobre as relações de abertura e de fechamento na periferia urbana[5]. A sua investigação concentrou-se numa pequena comuna de 4 600 habitantes, designada Coubron, que tem como particularidade o facto de ser uma das mais abastadas de um departamento conhecido pelos seus problemas sociais: o de Seine Saint-Denis. Uma outra particularidade consiste na proximidade de duas comunas que figuram entre os espantalhos deste departamento: Clichy sous Bois e Montfermeil. Uma percentagem bastante importante dos habitantes desta comuna de Coubron provém de resto destas cités. Mas esta origem não funciona em defesa de uma relação entre Coubron e estas comunas. Antes pelo contrário, poder-se-ia dizer que a preocupação da ruptura parece mais forte naqueles que tiveram êxito em deixá-las, querendo mesmo que a ruptura seja total para não se poder revelar vã. Tudo se decidiu, para eles, aquando da idade de escolarização dos seus filhos. Realizaram então um esforço considerável investindo na compra de uma casa nesta comuna próxima, mas onde os terrenos eram caros, a fim de oferecer aos seus filhos um quadro susceptível de lhes evitar os custos inerentes à vida nas cités daquele tipo. Em consequência deste investimento, são eles ainda mais que as outras famílias desta comuna que recusam o acesso a recém-chegados que não estejam particularmente interessados em preservar a sua qualidade. Nesta comuna, as famílias fazem pressão sobre os eleitos para que recusem qualquer derrogação que permita às crianças das cités inscreverem-se nas suas escolas. A compra de uma casa vale um bilhete de acesso a uma escola protegida e por conseguinte recusa-se este acesso aos que não o pagaram. O mapa escolar funciona assim como uma barreira que reserva aos beneficiários um privilégio procurado e tanto mais apreciado e defendido pelas famílias que se tinham ressentido como tal quando se encontravam do outro lado. É por tudo isto que existe a disposição de um entre si protector no que diz respeito ao efeito sobre a escola. A privatização relativa dos espaços comuns em nome da sua segurança também aí manifesta a mesma coisa embora não seja tanto sob forma de fechamento destes espaços como é quanto à supressão, mais eficaz, de qualquer ocasião, de qualquer tentação oferecida às crianças das cités circundantes para virem à comuna. Assim, em Coubron, evita-se e com cuidado construir qualquer equipamento, desportivo designadamente, que as pudesse atrair. Quanto à propensão à mobilidade tão característica das populações suburbanas, esta encontra-se rapidamente a funcionar para veicular os alunos do nível secundário a um colégio situado numa comuna vizinha e bem frequentado, em vez de ir para o de Clichy sous Bois, para onde o mapa escolar os destina. Este colégio de Clichy-sous-Bois poderia ter sido muito bem construído em Coubron, mas isso teria como consequência que os alunos de Clichy se viessem misturar com os de Coubron. Também os eleitos preferiram uma fórmula dispendiosa em deslocações para os pais mas preservadoras de uma boa escolaridade para as suas crianças. Resumidamente, o acesso é uma arte de que se sai tanto melhor quanto melhores forem as vantagens que se sabe utilizar para si mesmo, as barreiras administrativas e as decisões políticas contra aqueles que se querem evitar.

(Continua)


[1] Yves Chalas e Geneviève Dubois-Taine, La Ville émergente, La Tour-d’Aigues, L’Aube, 1997.

[2] É. Charmes, Les Tissus périurbains français…, op. cit.

[3] O promotor Monné-Decroix é o maior produtor de residências protegidas em França.  Estendeu a sua oferta particularmente na região de Toulouse e desenvolve este produto a uma velocidade que desafia as certezas “republicanos” quanto à inadaptação de tal produto num país como a França.

[4] Jeremy Rifkin, L’Âge de l’accès: la révolution de la nouvelle économie, Paris, La Découverte, 2000.

[5] É. Charmes, Les Tissus périurbains français…, op. cit.

 

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