Cidade a três velocidades – 6. Por Jacques Donzelot. Tradução de Júlio Marques Mota.

(Conclusão)

 

De regresso aos velhos centros onde podem reduzir o tempo das deslocações diárias mas também de aí viver ao ritmo do mundo, ou pelo menos pensá-lo assim, os gentrificados escapam aos constrangimentos do movimento como aos do local. Estão aqui e noutro lugar, não na mobilidade obrigada das periferias urbanas mas na ubiquidade. A sua relação à insegurança encontra-se por isso fortemente modificada. Não se situa tanto nos espaços públicos ou privados como se encontra nos pontos de encontro entre o seu mundo e o que lhe é exterior, aí, encontra-se em contacto com o ambiente ao qual se quer subtrair e com as suas conexões que o ligam a outros lugares, ao mundo. De onde vem o perigo para os habitantes de Paris se não da estação RER Châtelet-les-Halles que fornece um buraco de penetração na cidade à fauna dos subúrbios? É largamente uma preocupação de segurança que leva o actual município a transformar este lugar. Mas a ameaça situa-se um pouco por toda a parte ao longo das vias de comunicação que atravessam a cidade e a ligam à sua parte externa, como aos lugares de embarque para o resto do mundo. O perigo exprime-se com vozes nos aeroportos que difundem em série apelos à vigilância em relação a ameaças que tomem a forma de objectos abandonados ou prende-se à tentação de olhar furtivamente para a cara de indivíduos cujos papéis a polícia controla, procurando-se nos seus traços algo que se assemelhe à daqueles que nos querem fazer mal ou então que o podem fazer sem que a razão seja clara. A insegurança não preocupa realmente os habitantes dos centros gentrificados, não sob a forma evidente que em todo caso esta pode assumir para os habitantes das cités que a sentem permanentemente ou para as periferias urbanas que se organizam primeiro em função dela. Esta insegurança normal não é nunca uma questão sua. A insegurança de que falam é, certamente, global. Flutua com a actualidade do mundo e fá-los viver ao seu próprio ritmo.


A relação com a escolaridade dos habitantes dos bairros gentrificados decorre da selectividade do entre si onde eles se podem estabelecer e em ligação aos constrangimentos de mobilidade que sofrem as periferias urbanas. A qualidade dos habitantes, entendamos por isso o seu grau de educação considerado como uma garantia de uma boa frequência dos estabelecimentos escolares, constitui um argumento essencial dos promotores. Os anglo-saxões, preocupados, como se sabe, em gerir a prova quantificada de toda a correlação, é óbvio, gastam-se a demonstrar com precisão em que percentagem a chegada a um bairro de uma família cujos pais fizeram os estudos superiores enriquece o conjunto dos habitantes. Existe neste campo um efeito de limiar abaixo do qual os gentrificados não querem colocar os seus filhos em determinado bairro onde, no entanto, se orgulham de aí habitar. Se eles apreciam frequência do povo ou do que dele resta, isto não os impede de temer os efeitos nocivos da sua promiscuidade para com a escolaridade dos seus filhos. Assim os bairros parisienses em curso de gentrificação (XIX.º, XX.º) são também os bairros onde os recém-chegados mais escolarizam as suas crianças no sector privado. Mais tarde, se os seus rendimentos o permitirem, arranjarão um apartamento no centro da cidade, onde se encontram os bons liceus[1]. Pelo menos decidirão permanecer num sector onde o mesmo estabelecimento assegure a escolaridade do primeiro ano do ciclo ao fim do liceu. O privilégio da habitação no centro deve primeiro traduzir-se pela familiaridade dos serviços, pela sua disponibilidade próxima, permitindo às crianças ir à escola sem o apoio dos seus pais. A vantagem desta disposição é somente por questões práticas. Trata-se de uma modificação da relação com a escolaridade. Os estudos secundários são aí vividos como um prolongamento natural do primário, sem o stress da interrupção entre o colégio e o liceu. A obsessão do diploma tende a desaparecer igualmente em proveito da construção de um percurso iniciático. Para quê acumular diplomas se não se sabe bem como os ordenar de forma harmoniosa? A moda instala-se assim, nos gentrificados, a moda de enviar as crianças depois do secundário ao encontro do mundo e dos seus desejos durante um ano de descoberta. Voltam cheios de hábitos anglo-saxónicos e de razão global, prontos a empenharem-se nos estudos, sabendo já onde estes os devem levar, fazendo em primeiro lugar as indispensáveis estadas de um ou de dois anos nas mais prestigiadas universidades estrangeiras.

 

 

O exercício de descrição desta divisão tripartida da cidade contemporânea que acabámos de fazer comporta limites evidentes. Em primeiro lugar, não dá conta exaustivamente da paisagem urbana. Nem todos os bairros de habitat social são bairros de relegação. Existe um subúrbio que não é periferia urbana mas pura e simplesmente a extensão natural da cidade sem mudança “de regime”. Existem ainda bairros fortemente burgueses junto dos quais os bairros da gentrificação parecem curiosidades marginais. Que se pode pois dizer para justificar tais omissões, se não dizer, como Churchill, que é a tendência que conta? É verdade que esta se pode mostrar incerta em diversos lugares. Apostar na gentrificação do velho centro de Marselha pode parecer um exercício dos mais perigosos, “o efeito TGV” choca aí contra fortes interesses locais[2]. Mas como ignorar o desaparecimento lento da burguesia clássica em proveito desta classe emergente dos hiper-quadros e das profissões intelectuais superiores? Não são os rentiers ociosos que transportam os seus desgostos que povoam os palácios mas homens de negócios entre dois aviões.


Só conta a tendência e esta porta-se bem a ver o trabalho de uma lógica de separação a funcionar na cidade em detrimento das interdependências que forneceram uma grelha de leitura da época industrial. Como inverter esta tendência? Tinha-se, até aos anos 70, uma cidade industrial feita essencialmente de dois pólos antagónicos, mas precisamente unidos por uma relação conflituosa no local de trabalho e pela promoção social individual cuja tradução no plano do habitat significava a distribuição por ambas as partes de loteamentos para os seus beneficiários. O conflito e a promoção forneciam dois princípios de transacção. A cidade da mundialização altera a situação pelas duas extremidades. Há agora a mundialização pela camada inferior que se traduz pela concentração das suas minorias visíveis nos territórios de relegação e depois há a mundialização pela camada superior que corresponde à classe emergente associada à gentrificação. Entre estes dois pólos, nenhuma medida comum permite o estabelecimento de uma relação, seja ela ou não conflituosa. Os dois vivem na mesma cidade, mas esta não liga uma e outra das duas extremidades dos seus habitantes. Vive antes ao ritmo do mal-estar da população que se intercala entre estes dois elementos sem estar a estabelecer uma continuidade eficaz. Esta população de classes médias, que constitui a principal parte da sociedade, contribui para a relegação tanto quanto ela se sente rejeitada pelo processo de gentrificação. As classes médias tanto constituíram a solução da cidade industrial, como se tornaram no problema da cidade mundializada. Não há forma de a cidade voltar uma vez mais “a fazer sociedade” sem uma solução para as classes médias, quando estas se consideram, com justa razão, “as esquecidas” da nova configuração, pela pura e simples razão de se encontrarem em posição de sentir os seus efeitos.

 

Jacques Donzelot, “La ville à trois vitesses: relégation, périurbanisation, gentrification”, Esprit, Março de 2004.


[1] Um amigo nosso descrevia-nos há dias a situação da seguinte forma: “se queremos que os nossos filhos vão para uma boa Universidade, estes têm que vir de um bom liceu. Mas para vir de um bom liceu é necessário viver nos bairros que lhe estão ligados, mas viver nestes bairros exige dinheiro, muito dinheiro”. E assim é feita a selecção universitária em França. [N. do T.]

[2] Ver o dossier do Libération, 31 de Janeiro de 2004.

 

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