O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 1 – por Raúl Iturra

 

 

 

Para a minha descendência.

 

 

1. Introdução.

 

Falar do saber das crianças, é uma temática difícil por dois motivos: primeiro, porque temos de entrar na mente cultural (1) dos mais novos e entendermos o que querem dizer ao balbuciar essas primeiras palavras, que aprendem à medida que crescem, de que só eles sabem o conteúdo. Os pais, ou os seus adultos directos, começam a entender pelo hábito de ver a criança indicar com gestos o que deseja, reconhecem o objecto e podem explicar o seu conteúdo a outros. Essa primeira reacção, que eu denomino primeira via, conceito explicado mais à frente, é a que define uma relação emotiva, carinhosa, compreensiva e de entendimento do que a infância, no seu não saber falar, explica não com palavras ou gestos, mas com fantasia. Os pequenos usam muito a sua fantasia (2) para exprimir os seus desejos de uma guloseima ou outra materialidade do seu agrado.

 

Não esqueço um acontecimento da minha história de vida. Aos quinze anos e a convite dos meus pais, como era natural no tempo que essa cronologia não me permitia ganhar dinheiro para pagar o meu bilhete do Cinema Velarde – que em chileno se diz apenas Teatro – e ver o filme – em chileno película – ouvi a voz do marido de um casal que estava no mesmo cinema, dirigindo-se ao pé do meu Senhor Pai com muita alegria, após mais de doze anos de não estarem juntos esses grandes amigos, abraçaram-se e a primeira frase que o amigo disse foi: “Não me digas, não me digas, é este o gallallia? “Por amor de deus, como cresceu, é todo um jovem hoje em dia”, ao que os meus Senhores Pais responderam que sim, que era eu. Adquiri essa alcunha por causa de uma palavra inventada por mim aos três anos de idade, ao me ser impossível pronunciar a palavra “galleta”. Impossível, porque as consoantes sempre foram um problema para os chilenos.

 

A minha espanhola mãe sabia pronunciar todas as palavras e sentia orgulho que a sua descendência falasse como ela. Semelhante ao caso do meu Senhor Pai, descendente de bascos endogâmicos e muito cuidadoso na sua pronúncia, por ser um senhor muito elegante e bem-criado, com a mania de nos incutir um falar “correcto”. Por causa dessa atitude, que analisarei adiante, a palavra “galleta” era repelida por mim. Reacção a tanta imposição da parte dos pais a impingir-me em idade tenra, uma boa pronúncia das palavras. Bem sabido é que as crianças começam a falar com um vocabulário mais completo cerca dos três anos. Se houver resistência às palavras completas, pode-se dever ao facto dos adultos insistirem nessa fala perfeita.

 

A resistência não é às palavras, mas sim aos pais que obrigam os mais novos a falar de forma completa numa idade em que os conceitos ainda não estão formados. Se os conceitos não estão formados, as palavras que os exprimem também não . Esta opinião não é apenas minha. Há a de Freud que ao falar com Joseph Braeur , seu professor e mais tarde colega, diz: “… que acha difícil convencer os outros médicos, sobre a ideia de que a teoria deveria ser invertida, porque as palavras exprimem o que acontece na libido infantil e na dos seus adultos, que eles ouvem. A sexualidade adulta torna-se sexualidade infantil pelas palavras dos adultos…”. Breuer, tomando Freud como filho, proíbe-o de publicar aquele capítulo da sexualidade infantil. Freud resiste dizendo: “chega uma hora que se deve renunciar a todos os pais e ficar de pé sozinho” .

 

Numa palestra realizada no “Conselho de Neurologia e Psiquiatria de Viena”, Freud começa por frisar como na “Idade da Inocência”, a criança não tem consciência do seu erotismo. Após, estudos e análise da libido infantil, existe, afirma, a fase oral da criança, correspondendo a boca à zona de prazer, pelo desejo dos seios da mãe, seguidamente o prazer da criança passa a ser pelo corpo inteiro da mãe porque é esta quem acaricia os seus meninos durante o banho. No meu caso, de certeza, como todo o ser humano, experimentava esses desejos, sublimados na proibição de comer bolachas entre horas de comer. O meu desejo pelas bolachas era tão grande, que resistia ao guardião dos filhos, a figura do pai, como tenho debatido com o meu grande amigo, o analista João Cabral Fernandes .

 

Notas:

 

(1)Mente cultural, conceito criado por mim, no livro de 1990, A construção social do insucesso escolar. Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, hoje Fim de Século, Capítulo 8, página 87 e seguintes: “A sabedoria das crianças”, que define o saber costumeiro do seu grupo social, incutido no mais novo pelos seus adultos, desde o primeiro dia da sua vida. Tenho-o definido também com uma simples frase: “pega no livro e aprende”, retirada de conversa de adultos com filhos pequenos, ao pensar que o saber advém dos textos e da escola e não da interacção social. Ideias que acrescento neste livro para contextualizar a mente cultural, o que dizem os adultos ao pensar que o saber é sempre doutoral, sem repararem que o seu comportamento perante a infância, é a principal fonte de alimentação do conhecimento do mundo, da sua história, do conteúdo dos conceitos estruturados nas palavras costumeiras e definidos mais com acção corporal e não com palavras. O processo gestual tem mais valor que milhares de palavras entre a infância e o seu grupo social, ou do grupo de adultos, para o entendimento infantil. Considero esta nota de rodapé como um acréscimo ao meu conceito de mente cultural. O dicionário que me auxilia na escrita, define assim fantasia: do Lat. phantasia Gr. phantasia, imagem, s. f., imaginação; em que há imaginação; obra de imaginação; devaneio, sonho, ficção. Freud define fantasia de uma forma muito complexa: Precisar o conceito de fantasia na obra freudiana não é tarefa simples, embora se imponha, pois surge repetidas vezes e em momentos diferenciados ao longo de toda a teoria. O termo único utilizado pelo autor – Fantasie – é bastante abrangente, comportando várias significações: fantasias conscientes, pré-conscientes, inconscientes, devaneios diurnos… A sua definição, portanto, constitui-se como uma necessidade, imposta não apenas pelo estudo da doutrina psicanalítica, mas também pela clínica apoiada nesta definição. Freud e Breuer falam extensamente sobre fantasia nos seus estudos de neuroses, em: FREUD, S., E.S.B.-1976, vol. XVI, Conferência XXIII (1917): “Os Caminhos da Formação dos Sintomas”, p. 430 (grifos originais). Texto acessível em: http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/PRG_0599.EXE/4124_3.PDF?NrOcoSis=8768&CdLinPrg=pt. Acrescenta no mesmo texto e página, esta sucinta definição: As fantasias possuem realidade psíquica, em contraste com a realidade material, e gradualmente aprendemos a entender que, no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva.

 

(2) Palavra inventada pelas crianças chilenas quando se referem a bolachas que, em Castelhano, diz-se “galleta”. Contudo, tenho a impressão de ser uma palavra criada por mim, como narro no texto central. Uma criança começa a falar, geralmente, quando completa 01 ano de idade. Os estudiosos tendem hoje a insistir mais na herança (genética), com o que concordo, que no factor meio ambiente social e cultural, o que não quer dizer que este último não exerça nenhuma influência. Estímulos ajudam. Seja como for, em princípio, o falar não está necessariamente vinculado ao potencial intelectivo do indivíduo. Um antigo génio, como o filósofo Fridriech Niezsche, começou a falar aos 03 anos de idade. Esta nota é em parte minha, em parte de uma estudante do jogo Yahoo Respostas, denominada Maria Helena, sem nome de família. As várias alternativas podem ser estudadas em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=0&ct=result&cd=1&q=Freud+idade+crian%C3%A7as+come%C3%

A7am+falar&spell=1

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