UM CAFÉ NA INTERNET – Mulheres que fizeram a diferença – 3 – por Clara Castilho

Um café na Internet

 

 

 (Publicado em Estrolabio)

  III – A IMPULSIONADORA DAS MATERNIDADES – ADELAIDE  CABETE (1867-1935)

 

 

Em Elvas, as famílias humildes apanhavam as célebres ameixas e trabalhavam noutros árduos trabalhos. Foi assim que cresceu Adelaide, que casou aos 18 anos, analfabeta. Incentivada pelo marido, começou a estudar aos 20 anos. Aos 23 fez o exame de instrução primária. Com 27 anos terminou o curso dos liceus, já a viver em Lisboa. Na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, para onde entrou aos 29 anos, teve como professores Miguel Bombarda, Curry Cabral, Ricardo Jorge e Alfredo da Costa.

 

 

Em 1900, defendeu a tese “A protecção às mulheres grávidas pobres, como meio de promover o desenvolvimento físico de novas gerações”, tornando-se a terceira mulher a concluir Medicina no país. Em 1901, o seu primeiro artigo, publicado no Jornal Elvense, tinha como título: “Instrua-se a mulher”. Em 1907, foi iniciada na maçonaria onde atingiu o grau de “Venerável”. Em 1909, foi co-fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, onde defendeu a emancipação feminina. Em 1910, participou activamente na aventura da implantação da República. Com duas companheiras, coseu e bordou a bandeira nacional hasteada a 5 de Outubro na Rotunda, em Lisboa.

Em 1912 reivindicou o voto das mulheres. A mulher pobre, as doenças infecto-contagiosas, o alcoolismo, a educação das crianças, a melhoria da situação legal da mulher na sociedade e na família, a erradicação da prostituição, a melhoria da saúde pública, a criação de gabinetes de consulta para profissões, educação e protecção a emigrantes, a protecção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e abusos sexuais, o tratamento da saúde da mulher e da jovem grávida, foram assuntos que sempre a preocuparam.

 

Lutou pela introdução do ensino da puericultura nas escolas, sendo durante 17 anos, professora de Higiene e Puericultura no Instituto Feminino de Odivelas. Também na Universidade Popular Portuguesa, instituição criada na 1.ª República, dirigiu um curso sobre esta matéria, destinado a mães. Pretendia que adquirissem conhecimentos que proporcionassem um saudável desenvolvimento das crianças. Foi com este mesmo objectivo que reivindicou a construção de uma maternidade, vindo a construir-se, em resultado dessa sua acção, a Maternidade Alfredo da Costa. Foi presidente e principal organizadora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Esteve presente, em representação das mulheres portuguesas em vários congressos internacionais – em Maio de 1913, no Congresso de Gant, em Maio de 1923 no Congresso Feminista de Roma, em 1925 no Congresso de Washington.

 

Aplaudiu o encerramento de tabernas e manifestou-se contra a violência nas touradas, o uso de brinquedos bélicos, abordando temas que mantêm a sua actualidade. De ideias progressistas e muito avançadas para a época, reivindicou para as mulheres o direito a um mês de descanso antes do parto. Colaborou com várias revistas (Alma Feminina, Pensamento, Ciência, Educação, Almanaque Democrático, Portugal Feminino) e escreveu para jornais, como A Batalha, O Rebate, A Pátria, República, Tribuna, A Fronteira, Jornal de Elvas, República Social, O Protesto, Diário de Lisboa. De 1929 a 1934 viveu em Angola, afastando-se do caminho político que se desenrolava em Lisboa e com o qual não concordava. Lá, continuou defendendo os seus ideais, acrescentando o dos direitos dos indígenas. Faleceu em Lisboa em 1935.

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