Eduardo Galeano Mulheres 3
Marguerite Yourcenar Viagens no Espaço e Viagens no Tempo
(conferência pronunciada no Instituto Francês de Tóquio, a 26 de Outubro de 1982)
(…)
Mas seria demasiado bom esperar que todos os viajantes trouxessem alguma coisa das suas viagens. Os viajantes-rebanhos são de todos os tempos. Foi Vítor Hugo, com o seu génio, quem comparou a viagem com a guerra, «esses dois modos primitivos do encontro dos povos». Os soldados ingleses ou franceses enviados a Okinawa não aprenderam grande coisa, uns sobre o Próximo-Oriente e os outros sobre a Ásia. Afirmou-se frequentemente, e com razão, que as Cruzadas foram, acima de tudo, para muitos cruzados, uma viagem, do tipo peregrinação, em que se pretendia simultaneamente ver e reconquistar os lugares santos, comover com um passado de lendas piedosas — porque as rotas do espaço cruzam sempre as do tempo—, mas igualmente enriquecer com a pilhagem de Constantinopla ou trazer do Oriente relíquias, em muitos casos falsas, como os turistas recordações, mais tarde. Os peregrinos mais pacíficos, mas frequentemente rapinantes, que se dirigiam, às vezes aldeias inteiras, a Compostela, sem dúvida também procuravam diversão pelo menos tanto como santificação. A patetice também é de todos os tempos, Existe, de um curioso pequeno dramaturgo grego, Herondas, a descrição de uma visita efectuada por duas damas a um templo, meta da sua peregrinação, presas da arenga do sacristão que não as deixa ignorar nada das curiosidades do local. A cena, na sua banalidade tão distante da verdadeira devoção, repetiu-se ou repete-se nos nossos dias em todos os lugares santos do mundo.
Na realidade, a «viagem organizada» dos nossos dias protege contra aquilo a que a terminologia contemporânea chama «choques culturais». Uma pessoa permanece dentro de sí, por assim dizer, esquivando-se pelo menos, em parte, à novidade e à especificidade envolvente. Quarenta americanos do Tennessee, como tive ensejo de observar no Egipto, o ano passado, efectuaram uma viagem turística com vista a conhecer «a terra dos faraós», ou seja, o passado, e a cor local do lugar, isto é, o presente num país distante do seu. Na verdade, tragam comidas preparadas, com frequência mal de resto, para turistas americanos, dormem em hotéis que parecem ou se esforçam por parecer os seus homólogos americanos, contemplam os arranha-céus do Cairo ou de Assuão com a sensação tranquilizadora de se encontrarem um pouco como em sua casa e de, ainda mais tranquilizadora, que se fez melhor no seu país em semelhantes domínios. No regresso das excursões, as mulheres fazem malha e falam dos filhos que ficaram em casa e uma delas queixa-se de ter sido obrigada a «comer poeira muito antiga». Os autocarros que os conduzem a lugares seleccionados, desinfectados pode-se dizer, não lhes oferecem apenas ar condicionado, mas também um condicionamento pelas palavras do guia e o programa previamente estabelecido da agência de viagens. A própria dança das almeias, de rigor no jantar de gala da última noite, assume para os grupos americanos um aspecto de filme em technicolor e para os franceses um ar de Folies-Bergères. Nessa óptica, o que existe em cada país de específico e insubstituível é sentido apenas como uma «curiosidade», uma série de bugigangas arquitectónicas que se impõe ver e se mencionarão — muito raramente, aliás, pois as viagens, uma vez completadas depressa tombam no esquecimento — com um entusiasmo de comando, mas em última análise ocupam muito pouco espaço comparadas com as compras de recordações, restaurantes, um passeio de autocarro de «Paris à noite», ainda menos autêntica que as visitas às catedrais.
Este estado de espírito, largamente avolumado pelo comercialismo do nosso tempo, para o qual a «viagem de recreio» não passa de uma mercadoria como outra qualquer, não data de ontem. Ver bem um país é tentar conhecê-lo e até certo ponto torná-lo seu no presente e no passado, procurar determinar o que ele significa para quem vive lá. Muito poucas pessoas se dedicam a tudo isto. A maior parte das descrições de viagens de outrora deixa-nos com o petite insatisfeito. Montaigne, de índole caseira, mas bom viajante quando a oportunidade se lhe deparava, sempre contente por «passar a vida no alto da sua sela», descreve com meticulosidade os banhos da Alemanha e Itália, que frequentou sem grande resultado, para se tratar, indica aqui uma fábrica interessante, ali uma casa de campo agradável, mas o ar e a cor do tempo acham-se ausentes ou só figuras através de um pormenor acidental. Dir-me-ão que a arte da descrição romântica ou impressionista ainda não tinha sido inventada. No entanto, muito raramente um homem de génio invulgar tem semelhante carência: no ensaio que Giordano Bruno intitulou de um modo tão tragicamente profético O Banquete das Cinzas, uma descrição da poderosa e selvagem Londres do século XVI ainda hoje nos perturba.
(in Marguerite Yourcenar, Uma Volta Pela Prisão, Livros do Brasil)

