O futuro dos portugueses, por João Machado

 

Regularmente, aparecem personalidades, de maior ou menor fama, a pronunciarem-se sobre a viabilidade da existência do nosso país. Foi, salvo erro, na segunda-feira passada que o Dr. António Barreto, presidente do conselho de administração da fundação Francisco Manuel dos Santos, deu mais um contributo para esta questão, aventando a hipótese de Portugal, num futuro relativamente próximo, deixar de existir como estado independente dentro de algumas décadas e ser integrado noutro modelo europeu. (Ler mais: http://aeiou.expresso.pt/antonio-barreto-portugal-pode-deixar-de-existir-como-pais-video=f679431#ixzz1agSnKEy4). É verdade que admitiu outras hipóteses, mas estas não mereceram tanto relevo por parte da comunicação social.

 

O Dr. António Barreto conhece bem o problema, não se discute. Já pertenceu ao governo, foi ministro do I governo constitucional (como ministro da agricultura teve intervenção decisiva no fim da reforma agrária). Tem sem dúvida razão, quando exproba aos governos mais recentes responsabilidades graves no presente estado de coisas. Mas, e que soluções aponta? E os problemas do país, todos o sabemos, são muito mais antigos.

 

Dir-se-á: é exigir muito ao Dr. António Barreto. E por outro lado não lemos o discurso que fez na Academia das Ciências (parece que teria 20 páginas), e, com rigor, não podemos garantir que não tenha apontado pistas para uma actuação mais concreta. Mas pelo que conseguimos ler na comunicação social, ousamos pensar que não apresentou qualquer pista concreta. E responsabilizar governantes em abstracto não chega: há que indicar os erros cometidos e as alternativas que poderiam e deveriam ter sido seguidas. É importante a coragem da denúncia, mas é mais importante ainda apontar o que deveria ter sido feito.

 

Deste modo, consegue-se apenas trazer mais insegurança aos portugueses. Já têm pouca confiança no país, e menos ainda nos seus governantes. Não estão à vontade, nem se sentem encorajados a procurar alternativas (haverá melhor exemplo que as eleições de domingo passado na Madeira?), e quando se pronunciam preferem votar em quem manda, na esperança, cada mais ilusória, de que os depositários do seu voto alterem os seus comportamentos de sempre. Entretanto, muitos optam pela válvula de escape de sempre, a emigração.

 

Urge encarar duas questões fundamentais, no curto prazo. E pensar em como podem ser postasem prática. Aprimeira é rever as condições da nossa adesão á União Europeia, isto para quem acredita que traz vantagens a Portugal continuar integrado na Europa. Dever-se-á examinar o processo num todo, e não apenas a pertença á zona euro. A segunda é rever questões internas, como o excesso de concentração de riqueza. O excesso de concentração de riqueza é odioso socialmente, provoca repulsa junto do comum das pessoas, mas o temor reverencial que domina no nosso país, ao fim de séculos de catolicismo extremado, e de décadas de ditadura salazarista, que instilaram nos portugueses uma resignação endémica,  impede que se tomem as atitudes necessárias. De modo nenhum seriam precisos os tumultos que preocupam o Dr. Passos Coelho, mas sim manifestações claras no sentido de mudar o actual estado de coisas.

 

Obviamente que não serão os governantes actuais que tentarão encarar estas questões fundamentais. Mas, mesmo sem o apoio dos chamados partidos do arco governamental e da elite que os secunda (ou controla…), essas questões continuarão a ser fundamentais, e a condicionar o futuro de Portugal e dos portugueses.  

4 Comments

  1. Perante a mal arrumadae inacreditável cesta de medidas hoje anunciadas pelo Coelho PM, que só podem conduzir o País ao mais profundo dos abismos, sem hipótese de recuperação económica nos anos mais próximos, é de gritar aos quatro ventos: INTERNEM-ME ESTES GAJOS, QUE ESTÃO LOUCOS! É que isto já não é só estupidez, ignorância copiada de livrecos mal digeridos e crença natural na solidez da barreira neo-liberal onde estas bestas hão espetar os cornos retorcidos! Isto é mesmo um apelo à sublevação popular e à guerra civil: os animais governantes deveriam ser destituídos de imediato por traição à Pátria, por porem em causa a democracia, a estabilidade política e o próprio País e julgados como criminosos que são. Ainda me obrigam a dizer: volta Sócrates, que estás perdoado…

  2. Tenho a convicção de que Sócrates não seria capaz de resolver esta situação. Porém, não sendo estúpido, não assumiria a responsabilidade por medidas tão extremas quanto as que estes inconscientes estão a anunciar. Sempre achei que tinha sido um erro histórico da esquerda parlamentar o ter aberto a porta ao governo PSD. Foi, pois vemos agora que estes imbecis estão a colocar o País num estado de ruptura social iminente. Não sendo adepto do “quanto pior, melhor”, vejo, todavia, uma vantagem – o neo-liberalismo que Sócrates travestia de social-democracia, deu lugar a um fascismo travestido de neo-liberalismo – é, apesar de tudo, uma situação mais clara.

  3. Carlos,Ninguém é capaz de resolver uma situação que não quer resolver, nomeadamente porque insiste em repisar caminhos tão trilhados que já se transformaram em valas profundas, de onde é quase impossível sair para alcançar a superfície, onde as plantas ainda vicejam, o ar se agita e o pensamento sobrevive e funciona.Sempre “achei” que a esquerda parlamentar não abriu nenhuma porta fosse a quem fosse: limitou-se a votar, em consonância com a análise feita e com pleno respeito pelas suas conclusões: como fazem as pessoas e instituições sérias.Até onde achas que se devia descer, por oportunismo ou cobardia política, no declive para a desgraça e a vergonha por onde o governo do Sócrates foi deslizando? Porque é que subsiste a ideia de que, em nome de oportunismos vários, se deve culpar os que não têm culpa, por não deixarem os verdadeiros culpados agirem à vontade? Culpa o Sócrates e praticamente todos os governos em que o PS participou: pela traição ao seu programa (e aos princípios apregoados) e às promessas que fez aos portugueses, pela submissão aos donos do dinheiro e aos “mercados”, pelas mentiras quase constantes aos seus eleitores, pelo ataque deliberado (quantas vezes mancomunado com o PSD) à organização sindical, pela protecção à corrupção. E, apesar de ser aquilo de que estávamos à espera, culpa o actual governo e todos os outros em que entrou o PSD por crimes semelhantes (e outros de que já falei, como a extinção da agricultura e pescas pelo Cavaco, por decisões suas que levaram a RTP à situação a que chegou e que os Relvas tanto gostam de carpir, sem nunca se lembrarem do verdadeiro criminoso); e por, tão recentemente, mentir despudoradamente durante a campanha eleitoral – e até antes, atacando o governo anterior – jurando que jamais faria o que está a fazer; por ultrapassar a própria “tróica” no esmagamento dos mais desvalidos dos portugueses; por deliberadamente querer mergulhar os portugueses num clima de terror que “facilite” a aceitação de tudo o que lhe cai em cima; pelos autênticos crimes que estão a cometer, para (tal como o PS) não tocarnos interesses dos verdadeiros “governantes”, seus patrões. E talvez ainda os possas vir a culpar pela violência inevitável em que “medidas” cada vez mais gravosas e insensatas hão-de transformar a reacção das gentes de “brandos costumes”, transmutando o pretendido terror em fúria incontrolável e – o que é pior – sem objectivos definidos, como nos ensina a História, que estes atrasados mentais não conhecem ou não “querem recordar”. Não culpes as vítimas e quem melhor as representa, nem os que resistem e têm o dever de demonstrar a sua resistência, em vez de consentirem em fazer figura de palhaços, de oportunistas, de videirinhos, que parece ser o que, por vezes, quem “acha” o que tu “achas” (ou achas que achas…) pretende deles. Não contribuas para dividir quem se deve unir na resistência ao avanço de uma situação que – e bem – descreves como protofascista.De uma coisa podes ter a certeza: se eu fosse deputado do PC, estivesse nos trabalhos de uma comissão da AR e aí levasse com algumas bojardas como as que ouvi há poucos dias, muito mais fruto da estupidez que da ideologia, não havia presidente de comissão que me calasse (felizmente, consigo ter um vozeirão que atinge um elevadíssimo nível de decibéis… sem gritar). Pelo contrário (embora algumas insuficiências se devam a dificuldades criadas pela redução do número de deputados e, em consequência, de colaboradores do seu GP), eu “acho” os meus camaradas que estão na AR demasiado bem comportadinhos, incapazes de confrontar governos e partidos apoiantes com questões mesmo incómodas, daquelas que põem os gajos à beira de ataques de coração: p.e., ninguém perguntou, nem ao PS, nem ao PSD – como eu tinha sugerido – qual o valor previsto da poupança a realizar, nas pensões por velhice e invalidez, com o inevitável aumento de mortes de pensionistas, devido à deterioração das condições alimentares e à impossibilidade de adquirirem remédios indispensáveis à sua sobrevivência: era muito “violento”… E não foi a única das “broncas” que sugeri, por diversas vias, e que teriam ainda outra vantagem: onde há “barraca”, há comunicação social eufórica com ela, a dar a notícia aos pulinhos!Abraço

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