O saudoso tempo do fascismo – 25 – por Hélder Costa

O humor e a ironia II

 

A seguir ao 25 de Abril, também os inimigos do fim do fascismo perceberam a importância do humor. E houve a grande moda das anedotas de Alentejanos, que eram sempre broncos, preguiçosos, enfim com rodo um rol de “qualidades” que o tornavam pouco recomendável para qualquer convivência com as pessoas “sérias e de sucesso” deste país.

 

Essa acção sistemática a que podemos chamar de “agitação e propaganda” destinou-se a criar um clima de desprezo, cinismo e marginalidade em relação ao Alentejano.

 

Isso era necessário para o plano de destruição do Alentejo que foi posto em prática por vários Governos e que consistiu no roubo e deserção organizada da indústria corticeira, no aniquilamento do que restava de postos de trabalho e produção no campo, no pagamento de indemnizações milionárias aos agrários absentistas para que vá para a frente o grandioso plano de criar mato e coutadas.

 

Os custos sociais conhecem-se: desertificação do Alentejo, aumento do suicídio (porque, como é gente que não sabe “ficar na moda” roubando e vigarizando, tem vergonha e acaba com a vida), fuga para bairros da lata na grande cidade, regresso da procura das “terras de França”.

 

É para ocultar estes crimes que as anedotas contra o Alentejo funcionam como capa prorectora contra a indignação que, logicamente, devia assaltar todos os portugueses. É uma velha táctica. Também Hitler e os seus nazis contavam anedotas sobre judeus antes de os fecharem em câmaras de gás.

 

Claro que, pouco a pouco, essas anedotas vão acabar. Quando o Alenrejo estiver destruído ou descaracterizado, elas desaparecerão como por encanto.

 

Não acreditam?

 

Lembram-se das anedotas sobre o Samora Machel? Assim que ele foi assassinado, não houve mais anedotas. Já tinham cumprido o seu papel.

 

Para terminar estas notas sobre humor e ironia, recordo um artigo publicado no jornal “Ecos de Grândola” para ajudar à campanha contra o plano governamental de colocar nessa região aterros de lixo tóxico. Uma região que, por ausência total de indústria, não produz um grama de lixo tóxico, uma região que qualquer Governo tem sempre considerado uma “jóia da Coroa do turismo português” … O tal artigo para animar a malta e agradecer ao nosso querido Governo chamava¬se GRANDOLÂNDIA.

 

 GRANDOLÂNDIA

 

 Finalmente, boas notícias!

 

O plano de desenvolvimento da nossa região está em avançada fase de concretização. É com prazer que damos a conhecer alguns dos pontos mais interessantes. Também podemos informar que este projecto do Ministério do Plano conta com o entusiástico apoio do Banco Alemão, o que, como se sabe, é garantia absoluta para receber os necessários subsídios europeus.

 

Princípio geral

 

A região de Grândola será cercada de arame farpado e os seus habitantes beneficiarão do estatuto de reserva indígena. Este será o primeiro passo para criar a Grandolândia. E como se trata de uma experiência piloto, todas as medidas pre-vistas terão de ser executadas com o máximo rigor.

 

Agricultura

 

1 – A cortiça. É a maior riqueza deste concelho. Infelizmente como há cada vez menos tiradores de cortiça, o preço da tiragem é caro e principalmente porque as fábricas se deslocaram para o norte do país, deve-se proceder urgentemente ao arranque e transplantação dos sobreiros para essa região.

 

2 – Como a agricultura está em crise e é proibido produzir para que a Europa dê vazão à sua produção excedentária, deve haver grandes queimadas na serra (já limpa de ãrvores inúteis) para desenvolvimento de um turismo rural inovador: «escorregas» nas encostas para a juventude (talvez usando a água de uma fonte se possa fazer um «aqua-parque», quem sabe … ), arranjo de grutas para a terceira idade, etc.

 

3 – Como o Alentejo se está a transformar em zona de lazer de fim de semana para os citadinos, aconselha-se a reparação de montes e currais para venda imediata.

 

4 – Repare-se no extraordinário incremento de novos empregos: incendiários legalizados, caçadores de lagartixas, pedreiros de fim de semana, polidores de grutas, etc.

 

Indústria

 

1 – O aterro. Sendo este projecto a grande esperança para o desenvolvimento da região, o governo não se poupou a esforços para a sua viabilização e maior aproveitamento das suas enormes potencialidades. Assim, decidiu:

 

a) Criar a UNIVERSIDADE DO LIXO, centro de estudos dos males necessários da nossa civilização: produtos estragados, dejectos, tóxicos, esterco, estrume, etc. b) Garantir a importação dos produtos mais perigosos a nível mundial, de forma a garantir alto nível de pesquisa da universidade do lixo de Grandolândia.

 

2 – A população indígena será utilizada na descoberta, recolha e investigação do lixo e servirá para experiências de laboratório destinadas a determinar o grau de perigosidade do aterro.

 

3 – Este último ponto foi bastante polémico, dado que vários ministros denunciaram que isso se tratava de um escandaloso favoritismo em relação aos indígenas de Grândola. Os representantes de Grândola nos centros de decisão política souberam defender os seus ditei tos, assim se garantindo outra fonte de emprego.

 

Turismo

 

  – A orla marítima. Durante anos viveu-se no marasmo. Agora que toda a zona costeira já foi dividida pelos grandes investidores internacionais, pode-se olhar para o futuro com optimismo.

 

2 – Zona de tolerância sexual. O governo decidiu atribuir este privilégio à Grandolândia para garantir trabalho e um futuro promissor à juventude indígena. Serão aberras prosrfbulos, saunas, centros de massagens, cursos de prostituição masculina e feminina, erc. Clientela não falra. Sabe-se que a concorrência é terrível com os paraísos sexuais asiáticos, mas o encanto e a audácia dos grandolenses há-de vencer esta batalha.

 

3 – Droga. Sabe-se que se conseguiram grandes êxitos no consumo e disrribuição de droga. Mas o caminho a seguir é o da produção própria. Assim, o governo vai conceder à Grandolândia o estatuto DQPRD (droga de qualidade produzida em região demarcada). Trata-se de prestigiar a droga produzida pelo espírito inventivo dos grandolenses, o «piquinho»: pó de cortiça, concentrado de carqueja e uma pinguinha de azeite.

 

4 – O castelo. Uma questão rem inquietado os grandolenses desde sempre: se Alcácer do Sal, Sanriago do Cacém e Sines têm castelos, porque é que Grândola não rem? Atento a esta questão, o governo apoiou a pesquisa e descoberta do caste¬lo de Grândola. Esrudos realizados e fotos tiradas do satélite espião ZBX-23 (USA), indicam que o castelo está soterrado na serra da Penha. Já estão em organização brigadas de estudantes que, com martelos, escovas e ancinhos irão descobrir essa nova fonte de riqueza turística.

 

5 – As jaulas. Trata-se, talvez, do maior aliciante rurfstico e de incontestável sucesso.

 

a) Dentro da reserva haverá lima ZOna fechada com jaulas, onde estarão grandolenses que foram comunistas, socialistas, democratas ou simplesmente contra o antigo regime ilegalmente deposto pelo 25 de Abril.

 

b) Numa jaula especial estarão os católicos amigos do actual Bispo de Setúbal. c) O cicerone previsto para guiar os turistas é Herman José, dada a sua habilidade para divertir as pessoas e contar anedotas sobre aJentejanos. É muito caro, mas é um investimento que vale a pena.

d) Na zona das jaulas poderá ouvir-se constantemente «Grândola Vila Morena» para que, juntamente com o terror que essa canção inspira, se instale o prazer de ver os seus fanáticos admiradores na prisão.

 

E por hoje é tudo. Sei que não é muito, mas espero que este plano deixe os meus conterrâneos mais optimistas em relação ao futuro.

 

Aconselho-vos calma. Nada de precipitações. E, já agora, enviem uns milhares de postais de agradecimento ao nosso querido e amado governo.

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