OS HOMENS DO REI – 43 – por José Brandão

D. Sebastião (reinou de 1557 a 1578)

 

Todos os nove filhos de D. João III o antecederam na morte. Por isso é herdeiro do trono seu único neto, D. Sebastião, com 3 anos de idade.

 

Estas mortes e taras dos filhos de reis e príncipes podem, eventualmente, explicar-se pelos sucessivos casamentos entre familiares muito próximos.

 

Vivem ainda, é certo, três irmãos do rei. O cardeal D. Henrique, o infante D. Luís, Prior do Crato, e a Infanta D. Maria. Mas as leis estabelecem que ao rei que morre lhe suceda um descendente directo e só na falta deste se recorreria a um irmão ou a outro parente. Em virtude da pouca idade de D. Sebastião e de acordo com os desejos de D. João III é confiada a regência do reino à rainha viúva, D. Catarina, irmã do imperador Carlos V e tia, por tanto, de Filipe II de Espanha.

 

D. Catarina convida o cardeal D. Henrique a ajudá-la no governo e, passados cinco anos, entrega-lhe todos os poderes de Regente. A preparação de D. Sebastião para rei começa bem cedo. A sua educação é confiada a dois homens de grande valor. Um deles é D. Aleixo de Meneses, herói da África e da Índia, conselheiro de D. Manuel e de D. João III. O outro é um grande professor, o padre Luís da Câmara, da Companhia de Jesus. Um e outro eram profundamente portugueses e, antes do nascimento do rei, tinham partilhado com todo o Povo português o receio de a descendência de D. João III se extinguir, tornando fácil a união com a Espanha.

 

Um e outro compreendiam quanto importava dar a D. Sebastião uma educação vincadamente portuguesa, que o afastasse da Casa de Áustria, que tinha nas suas mãos quase toda a Europa ocidental e central, excepto a França, a Inglaterra e Portugal. D. Aleixo de Meneses, bom conhecedor do Império e sabedor das qualidades próprias de um rei, militar excelente, patriota incapaz de dar um passo que não fosse para bem de Portugal, era já, pela sua vida, o exemplo de português autêntico.

 

O padre Luís da Câmara, virtuoso e culto, era capaz de dar ao espírito do jovem rei a disciplina moral e intelectual indispensável ao perfeito estudo das ciências e a serenidade para vencer os momentos difíceis. Ambos se completavam na tarefa de ensinar o príncipe a servir a Deus e à Pátria. E sentiam que a tarefa lhes estava facilitada pela própria disposição do moço rei, pela sua inteligência viva e ansiosa de saber, pela sua vontade forte, pelo seu amor a tudo o que é português, tudo o que exalta a Pátria e os feitos gloriosos dos seus filhos, especialmente os de âmbito militar. Aos 14 anos, D. Sebastião é rei; contrariando o testamento de D. João III onde se estabelecia que só aos 20 anos

 

D. Sebastião tomaria o governo. Logo o rei dá provas de que deseja decidir por si. Escuta quem o aconselha, mas a resolução final pertence-lhe sempre, sem se deixar influenciar seja por quem for. D. Sebastião ficou entregue aos avós, e o mais legítimo herdeiro do trono começa a revelar-se muito devoto (teve uma forte formação jesuíta), mas muito caprichoso. Os seus desejos eram ordens, e ele era a jóia mais preciosa do reino. Uma ocasião em que passava pela Batalha, mandou abrir o túmulo de D. João II, cujo corpo estava ainda incorrupto, os de Afonso II e III, mas desprezou os de Afonso IV e de D. Pedro, porque, como afirmou, «além de não terem acrescentado um palmo de terra ao reino, deixaram mau exemplo; um perseguindo as mulheres, outro amando-as mais do que a razão».

 

O seu capricho chegou ao ponto de mandar abrir o jazigo de D. Brites para ver se tinha rabo ou não! As mulheres sempre foram um problema na sua vida. Não por as ter demais, ou por de amores mais profundos por alguma dama ter padecido. Completamente o contrário. Afirmava que estas lhe metiam asco, o que fez, com certeza, espumar de raiva a maior parte dos seus antepassados.

 

Quanto a casamento, D. Sebastião nem queria ouvir falar. Era como falar em morte. Vivia obcecado com as conquistas das terras perdidas e acabou por desaparecer na célebre batalha de Alcácer Quibir. Bem que a avó tentou casá-lo, apresentando-lhe muitas hipóteses de escolha. Das suas preferências sobressaía D. Margarida de Valois, princesa francesa, e em cujos planos de casamento se valeu das diligências do papa Pio V, isto após D. Filipe II se ter recusado a conceder-lhe a mão da sua filha, a infanta Isabel Eugénia, por razões de saúde. O motivo era a pretensa tuberculose de D. Sebastião. Mas entretanto, por questões políticas e devido ao aumento do Protestantismo em França, o Papa opõem-se ao casamento com a princesa de Valois, apesar de esta união ser bem vista pelo povo português. Filipe II de Espanha muda também de ideias, sempre na mira do trono português, e propõe para esposa de D. Sebastião uma outra sua filha, a arquiduquesa Isabel de Áustria. Apesar da posição contrária de D. Sebastião, o casamento esteve quase a realizar-se, não fosse Filipe II voltar novamente com a palavra atrás. Surgira uma união política mais prometedora, desta feita com Carlos IX de França, o que valeu ao monarca espanhol sérias reprimendas por parte de sua irmã, avó de D. Sebastião.

 

Talvez por tantas «trocas baldrocas», cresceu em D. Sebastião uma repugnância mórbida pelas mulheres, o que muito entristecia a avó e o povo, que viam aproximar-se o perigo de Castela. D. Catarina tenta então casá-lo com Maximiliana, filha do duque da Baviera, mas D. Sebastião, empenhado em não casar, vai adiando a decisão. Debalde lhe procuraram mais noivas, que o jovem rei rejeitava sob qualquer pretexto. Uma ocasião, castigou uma dama nobre da corte, D. Maria de Noronha, por ter casado em segundas núpcias com um homem de condição inferior.

 

Mandou-a encarcerar na Torre de Belém e expô-la à vergonha de atravessar as ruas de Lisboa numa mula e de mãos atadas. Ao passar frente à igreja de Santo António, a infortunada senhora atira-se ao chão, tentando procurar refúgio no sacro local, mas caiu tão descomposta, que foi alvo da chacota geral. D. Sebastião foi fortemente criticado pela Corte, por familiares de D. Maria e por sua avó, mas nada o abalou, apenas se foi afastado cada vez mais desta. Os conflitos entre avó e neto foram em grande número, dada a oposição de D. Catarina aos projectos de D. Sebastião para o norte de África. D. Sebastião, depois de ter praticamente rompido, em 1568-1569, com a avó, D. Catarina, começa a afastar-se igualmente do tio-avô, dando mostras de procurar construir a sua própria corte e o seu próprio governo.

 

Em 1574, visita disfarçado Ceuta e Tânger sujeito a ser reconhecido e morto. Os conselheiros eram severos nas advertências mas ele, teimoso e fanático, continuou a insistir no erro até lhe ser fatal a obstinação. O rei sabe que os príncipes mouros andam em guerra uns com os outros. Ele julga o momento oportuno. D. Miguel de Meneses insiste para que não vá antes de deixar ao país seis ou sete filhos. O ano de 1578 é o último do deu reinado. A 14 de Março pede emprestada a espada de D. Afonso Henriques e parte para não mais voltar.

 

A 4 de Agosto de 1578 dá-se o desastre de Alcácer Quibir. Paulo Dias de Novais, Luís Gonçalves da Câmara e Aleixo de Meneses e Luís Vaz de Camões foram homens do rei D. Sebastião.

 

Paulo Dias de Novais (1540? -1584)

 

Nascido presumivelmente em Lisboa, cerca de 1540, da pequena fidalguia sem fortuna, era neto de Bartolomeu Dias. O seu primeiro cargo de confiança foi-lhe dado na regência da rainha-viúva D. Catarina, em 1359. Partiu de Lisboa, Paulo Dias de Novais, em fins de 1559, em 3 caravelas, com padres jesuítas, para o reino de Angola, em missão de apostolado e secretamente incumbida de investigar o problema dumas supostas minas de prata em Cambambe, em terras de Ngola.

 

A esse tempo, já na corte de Lisboa se reconhecera que o Império da Índia arruinava economicamente a Nação, esvaziando sem contrapartida o Erário real, e se considerava, pois, a urgência de acudir à grande crise em perspectiva, lançando mão de outras riquezas jacentes nos domínios da Monarquia, ainda inocupados e inexplorados, em ambas as costas, oriental e ocidental, do sul da África. E foi o que determinou a organização de duas fortes expedições militares, respectivamente à conquista de Monomotapa, no interior de Moçambique, julgado um inesgotável jazigo de metais preciosos, e ao reino de Angola, para ocupação de Cambambe, sobre a margem do Cuanza, também considerado um abundante Eldorado de minas de prata. Foi, pois, a Paulo Dias de Novais que o moço rei D. Sebastião, já em 1574, confiou a conquista dessas supostas minas de prata de Cambambe, ao passo que a Francisco Barreto, antigo vice-rei da Índia, incumbia da conquista das minas de Monomotapa, como operações de penetração em África, praticamente simultâneas.

 

Enquanto, porém, Francisco Barreto era nomeado apenas capitão-general de Moçambique, com simples jurisdição administrativa, a Paulo Dias de Novais era dada carta de doação duma capitania donatária, nos mesmos moldes das instituídas para o Brasil. Radiantemente aceitou Paulo Dias essa doação em África, convencido de se tratar duma ocupação pacífica, sem forçosos actos de guerra, à semelhança do que no Brasil se ia tentando. E por isso, recebida em 1574 a carta de doação, embarcara em Lisboa à testa de uma armada de 7 navios, em que, além de jesuítas e outros clérigos, iam 350 homens de armas, arcabuzeiros, artilheiros e artífices, o que perfazia um total de 700 homens. Ia Dias de Novais animado de sinceros propósitos de paz e concórdia na ocupação da sua nova capitania. Mau grado seu, porém, tudo lhe foi adverso, coagindo-o a sucessivos actos de força para verdadeira ocupação militar. Assim se viu forçado a marchar pela barra do Cuanza, onde se instalou e fortificou, sendo ali atacado em 1578 pelo régulo Ngola, que assim traía os seus anteriores compromissos de paz e aliança, mas facilmente foi vencido.

 

A notícia do desastre de Alcácer Quibir não abalou, porém, o ânimo de Paulo Dias e, tendo recebido reforços de 150 homens do Reino, marchou em perseguição dos sobas afectos ao Ngola, até que em 1582, mercê de sucessivas vitórias sobre as hordas inimigas, chegou à região das sonhadas minas de Cambambe, onde, afinal, só havia pedras! Em 1583, atacado sempre por multidões de negros armados, vencia Paulo Dias de Novais a mais estrondosa e sangrenta batalha em que a sua artilharia fez redundar numa debandada geral as aguerridas hordas inimigas. Depois dessa espantosa vitória, retirou sobre Massangano.

 

Quando se preparava, com os seus escassos e cansados centos de homens, esgotados pelo clima e pelos combates, para conquistar o Dengo e aprisionar o rei Ngola, a doença prostrava-o e com a sua morte, em 1584, se lhe frustraram todos os seus gloriosos sonhos duma florescente e pacífica capitania-donatária que desejaria deixar por sucessão legal a seus herdeiros naturais.

 

A seguir: Luís Gonçalves da Câmara

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