O Pato algemado – 7- por Carlos Loures

O Pato algemado

 

Hoje começamos com um Divórcio em Telavive

Antevéspera do Ano Novo Judaico. Boris Sylberstein, patriarca judeu, e  a mulher, Sara,  moradores num Kibutz perto de Telavive, visitam um dos seus filhos na capital de Israel:

─ Jacobzinho, odeio ter que te estragar o dia, mas o Pai precisa de te dizer que a Mãe e eu nos vamos separar, depois destes 45 anos!

─ O Pai enlouqueceu! O que é que está a dizer? ─ grita Jacob.

─ Já não conseguimos sequer olhar um para o outro. Vamos separar-nos e acabou-se! Liga à tua irmã Raquel a contar.

Apavorado, o rapaz liga para a irmã, que vive em Viena e conta-lhe a terrível notícia. Raquel fica em estado de choque, ao telefone:

 

  ─ Os nossos pais não podem separar-se de maneira nenhuma! Chama já o Pai ao telefone!

O ancião atende e a filha balbucia na maior emoção:

─ Não façam nada até nós chegarmos aí amanhã, ouviu? Vou telefonar também ao Moisés para São Paulo, ao Salomão para Buenos Aires, e à Ester para Nova Iorque, e amanhã à noite estaremos aí todos. Ouviu bem Pai?

Desliga, sem esperar pela resposta do Pai. O velho pousa o auscultador no descanso, vira-se para a mulher, e, sem que Jacob ouça, diz-lhe em voz baixa:
─ Pronto, Sara, vêem todos para a Ano Novo. Só que desta vez não temos de lhes pagar as passagens!

 

 

 Um excerto do livro de Woody Allen Fora de Órbita:

Neste verão, frequentadores de uma academia bastante chique de Nova York encolheram-se em busca de abrigo quando o som ribombante que em geral precede o deslocamento de uma falha tectônica reverberou no meio dos seus exercícios matinais.

 

Temores de um terremoto logo foram mitigados, porém, quando se constatou que o único deslocamento que o ocorreu foi no meu ombro, o qual lacerei na tentativa de impressionar a gatinha de olhos amendoados que fazia flexões de braço ao meu lado. Na ânsia de chamar a sua atenção, tentei tirar do suporte e erguer de um jacto um halter com um peso equivalente a dois pianos Steinway, quando minha espinha de repente tomou a forma de uma fita de Möbius e a parte principal da minha cartilagem rompeu-se de forma audível. Após emitir um som idêntico ao de um homem quando é atirado do alto do edifício Chrysler, fui levado para fora de cócoras e tive que ficar sem sair de casa durante todo o mês de Julho. Aproveitando o repouso forçado na cama, busquei consolo nos grandes livros, uma lista inescapável que eu já pretendia encarar havia quarenta anos, mais ou menos. Evitando arbitrariamente Tucídides, os garotos Karamazov, os diálogos de Platão e as madeleines de Proust, meti a cara numa edição barata de A divina comédia, de Dante, na esperança de que se descortinasse uma imagem de pecadores de tranças negras com o aspecto de algo saído diretamente das páginas de uma catálogo de Victoria’s Secret, enquanto ondulavam, seminuas, entre enxofre e correntes.

 

Por infelicidade, o autor, aferrado demais a questões graves, rapidamente me desviou do enevoado sonho erótico e eu me vi perambulando pelas regiões inferiores sem nenhum personagem excitante, senão Virgílio, para me guiar e transmitir a cor local. Um pouco poeta eu mesmo, encantei-me com a maneira como Dante estruturou de modo brilhante aquele universo subterrâneo de justos desertos para os que praticam o mal na vida, arrebanhando os mais diversos poltrões e incréus e outorgando a cada um o seu grau apropriado de tormento eterno. Só quando terminei o livro percebi que ele deixou de fora qualquer referência a empreiteiros e, com uma psique que ainda vibrava como um par de címbalos por ter reformado uma casa alguns anos antes, não pude deixar de me ver tomado pela nostalgia.

 

Tudo começou com a aquisição de uma pequena casa de arenito no Upper West Side de Manhattan. A senhorita Wilpong, da imobiliária Mengele, garantiu-nos que era uma oportunidade única, um preço módico, numa cifra não superior ai custo de um avião bombardeiro invisível. A habitação era alardeada como “pronta para ocupação imediata”, e talvez fosse, no caso de um bando de fugitivos ou de uma caravana de ciganos.

 

– É um desafio – disse minha mulher, quebrando o recorde feminino, em quadra coberta, na modalidade “frases de sentido dúbio”.

 

– Vai ser muito divertido reconstruir.Evitando pisar algumas tábuas soltas, tentei manter-me animado e comparei o charme de casa com o da Abadia de Carfax.

 

– Imagine se derrubarmos esta parede e fizermos uma grande cozinha à moda californiana – arengou o sexo frágil.

 

– Tem espaço para um escritório, e cada filho vai poder ter um quarto individual. Com umas poucas obras na parte hidráulica, poderemos ter banheiros separados, e aposto que você consegue até fazer a sala de jogos com que sempre sonhou… para temperar os seus momentos mais filosóficos com um pouco de pinball.

 

Enquanto as fantasias da megalomania arquitetónica da bem-amada disparavam desenfreadamente, a carteira no bolso do peito do meu casaco começou a palpitar como um linguado preso ao anzol. Visões do desperdício de tudo aquilo que eu desposara ao longo de anos de trabalho duro, suando sangue para fabricar panegíricos fúnebres para a Funerária Irmãos Schneerson, levaram-me a discordar, no registo mais agudo de um flautim.

 

– Você acha que  precisamos deste lugar? – Perguntei, rezando para que a ânsia de posse amainasse, como um mal passageiro.

 

– O que eu adoro na casa é que não tem elevador – arrulhou a cara-metade.

 

– Você já imaginou como vai ficar o seu coraçãozinho com você subindo e descendo aqueles cinco andares de escadas?

 

“A morte? Olha, eu devo dizer que sou totalmente contra”, Woody Allen

 

 

Mas, concordando ou não, a verdade é que

 

Vamos todos falecer, como nos asseguram os “Gato Fedorento”:

 

 

  

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