O saudoso tempo do fascismo – 29 – por Hélder Costa

E as coisas deram uma volta II

 

Bem, por enquanto estava a salvo mas o jogo começava a ser a sério.

 

As coisas estavam mesmo a dar uma volta, já nada seria como antigamente.

 

E aquilo deles partirem a mobília, olha se me tinham apanhado. Com o apoio dos amigos, passei por um período de máscaras, outro nome, um bigode, e estilo de bon-vivant, o que não deixava de ser natural em tempo de férias.  E, além disso, era o que se casava mais com o nosso estilo de juventude radical (?) ou utópica pequeno-burguesa.

 

Depois de conseguir que enviassem de Paris uns postais escritos por mim para a Pide os apanhar e pensar que o pássaro tinha fugido, comecei a organizar a fuga, operação mais conhecida pelo “salto”.

 

Restabelecidos alguns contactos, com coincidências inacreditáveis, de que cito o facto de ter estado numa casa ultra segura, de gente que não tinha nada a ver com acções clandestinas, de ter procurado algum livro para ler e só ter descoberto “Os subterrâneos da liberdade” do Jorge Amado! Enfim, ajudou a integrar-me melhor na minha nova situação. (Nunca perguntei, mas será que os meus amáveis anfitriões tinham decidido dar-me orientação pedagógica para ° meu futuro?)

 

O último “poiso” foi oferecido por um prestável e arnabilfssirno actor de teatro – é verdade, no teatro havia muita gente decente – que, finalmente, me levou ao ponto de encontro para a última viagem.

 

Estávamos em Agosto, o clima era insuportável e eu decidi fazer a saída no pino do calor com o argumento óbvio que os guardas estariam em casa a fazer a sesta, coisa que nunca seria garantida pela fresquinha ou durante a noite.

 

No caminho rimos o que pudemos, gozámos os Pides e contámos anedotas. E nada disso era forçado, pois a nossa acção anti-fascista tinha uma enorme componente lúdica assente na convicção de, mais cedo ou mais tarde, vermos a Revolução triunfar. E que outra coisa poderíamos pensar quando já tínhamos auxiliado a fuga de dezenas de camaradas das mais variadas tendências de esquerda, e víamos uma constante subida da consciência política a nível nacional?

 

A fuga foi bonita e digna das melhores tradições portuguesas: saí a nado pelo Guadiana, a alguns metros de um pacífico pescador (que podia ser um guarda, dizíamos nós, mas como o tempo passava atirei-me à agua e ele continuou à espera de o peixe morder o anzol).

 

Atrás de mim, outro camarada nadava empurrando uma bóia e uma prancha de madeira que albergava um saco de plástico com a minha roupa – fato, camisa, gra¬vata, sapatos – se um guarda me apanhasse, ia a Badajoz ver uma namorada … Aliás, tínhamos o princípio de nunca fazer qualquer acção com blusões, jeans, nada de cabelos compridos, nada que alertasse os rapazes da prestimosa associação para as imagens cliché que eles perseguiam.

 

O outro camarada faria o habitual: passava a fronteira com o carro e entregava-me a mala para eu demandar terras de França. O resto estava em ordem: algum dinheiro em escudos, pesetas e francos, e pass-aporte “válido” com carimbos de salda de Porrugal e entrada em Espanha.

 

Depois de um magnífico e agradável “crawl”, fato vestido e último abraço ao meu camarada nadador salvador, meti-me ao caminho a corra-mato, evitando a estrada e as poucas casas que polvilhavam a charneca desértica.

 

O sol não me poupava, e umas horas mais tarde parei cheio de inveja ao lado de um cavalo que se deliciava a beber água num tanque ao lado de um monte. Recebeu-me com um relincho, uma patada no chão e um brrrrrrr, que não perce¬bi bem se era irónico ou pelo prazer de ter um companheiro. Seja como for des- viou-se um bocadinho, tinha ar de ser um convite pata eu partilhar aquele pequeno oásis.

 

 – Usted quiere agua?

 

Era uma camponesa de meia idade, que sorria à porta de casa. Lembrei-me da guerra civil de Espanha, da solidariedade entre os dois povos entalados entre o fran-quismo e o salazarismo, mas também de muita gente do povo se ter tornado denunciante e colaboracionista do fascismo. Pensei nisso tudo, mas não resisti.

 

– Sim, estou cheio de calor. Enquanto bebia, reparava que o lenço na cabeça, a blusa de flores discretas e a saia azul escura me aproximavam da imagem das mulheres Alentejanas, e apesar de ser uma parvoíce acreditar nos tópicos tradicionais, a verdade é que isso me tranquilizou.

 

 – Si quiere, puede entrar, hay mucho calor.

 

– Gracias, tenho pressa. Falta mucho para Badajoz?

 

 – No, es muy cerca. Por detras de aquellos arboles está el rio. Es seguirlo siernpre.

 

 – Gracias,adiós. – Adiós.

 

Nos arredores apanhei um autocarro para o centro – boa ideia , a de ter pesetas ¬e mal pus o pé no passeio ouvi o assobio que tinhamos imaginado como sinal para as nossas acções.

 

 

Leave a Reply