Sempre Galiza!
Fortuna a nossa, os que não o podémos presenciar, a de ter em primeira mão e na escrita de primeira água de Carlos Durão notícias do I Colóquio Guerra da Cal, organizado pela AGLP – Academia Galega da Língua Portuguesa e que teve lugar nos passados dias 11 e 12 de Outubro em Santiago de Compostela, Galiza, com a participação de reputados especialistas galegos, portugueses e brasileiros – uma trilogia sempre acarinhada por Guerra da Cal.
Colóquio Guerra da Cal da AGLP.
Breve resenha
por Carlos Durão
Este Colóquio, dedicado ao poeta e professor galego Ernesto Guerra da Cal no centenário do seu nascimento, teve lugar em Santiago de Compostela no dia 11 de outubro de 2011; o dia seguinte, 12, foi dedicado ao III Seminário de Lexicologia da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa). Às intervenções seguiram interessantes debates iniciados pelo público assistente.
Ernesto Guerra da Cal foi o primeiro poeta galego moderno que tratou temas universais, o que mais eco teve dentro e fora da Galiza, com uma abundantíssima bibliografia transnacionial e transcontinental a que deu origem a sua obra. Foi também o professor galego de maior prestígio internacional, autor de obras amplamente conhecidas e que continuam a ser estudadas, como a Língua e Estilo de Eça de Queiroz. Republicano exilado na altura da guerra civil espanhola, foi criador de uma obra viçosa devotada à cultura comum galaico-portuguesa e um dos principais impulsores do reintegracionismo galego, de que a AGLP é continuadora.
O primeiro dia foi dedicado ao estudo e divulgação da obra do homenageado. O especialista Joel Gomes, que fez a sua tese de doutoramento sobre Guerra da Cal, falou-nos de «A amizade de Ernesto Guerra da Cal com Federico García Lorca e os Seis Poemas Galegos», fazendo um pormenorizado percurso da génese desses poemas, que se tornaram famosos pelo nome do autor que os assinou, o brilhante poeta andaluz que foi assassinado por um esquadrão da morte fascista no 1936. Ele era amigo íntimo de Guerra da Cal, e este contribuiu profundamente aos poemas, não só na parte lexical, mas também no conteúdo, de um estilo identificável como próprio do poeta galego hilozoísta Amado Carvalho, favorito de Guerra da Cal; a maioria dos manuscritos são do punho e letra deste.
O autor destas linhas, Carlos Durão, falou de «Guerra da Cal entre nós»; fez um resumo biográfico e a seguir centrou-se no papel fulcral do nosso homem na participação galega no Acordo Ortográfico, muito mais importante e de mais longa data do que se acostuma a pensar; também traçou as linhas mestras do pensamento de Guerra da Cal sobre o reintegracionismo.
O filho de Guerra da Cal, Enric Ucelay-Da Cal, titulou a sua comunicação «Uma lembrança em três episódios», e nela não poupou as caraterizações, digamos menos positivas, do pai quase desconhecido, de quem se sentia deserdado; contudo, as suas pinceladas serviram para completar um retrato com, como reza o dito inglês, “warts and all”, e a tensão pai-filho foi assim bem entendida pelo público. Enric participou ativamente nos debates e nas conversas posteriores, e voltou ainda no dia seguinte, agora evidentemente mais à vontade a respeito do pai, e já disposto a participar com a AGLP em atos posteriores acerca dele.
Maria do Carmo Henriquez Salido, ex presidenta da AGAL (Associaçom Galega da Língua), falou de «Ernesto Guerra da Cal ao longe», lembrando encontros com ele e correspondência sua; foi acompanhada na palestra por José Posada, seu marido, quem igualmente lembrou encontros com Guerra da Cal, mas também tratou das suas intervenções no Parlamento Europeu como eurodeputado, nas que se expressou num cuidado galego que foi interpretado como português nas cabinas de interpretação; entre o público estava Camilo Nogueira, também em tempos eurodeputado
falando galego e sendo interpretado e traduzido como português.
Um grande amigo de Guerra da Cal, Xosé Luís Franco Grande, académico da RAG (Real Academia Galega), estudou n’ «A poesia de Guerra da Cal» os seus temas existenciais fundamentais, com um certo ressaibo irónico, e a sua cuidada forma, grafada em português padrão, como líder que ele era do movimento reintegracionista. Se bem na sua poesia primeira talvez havia predomínio das formas, apresenta depois uma poesia mais introspetiva, verdadeiramente metafísica, com os temas mais transcendentes: Deus, Tempo, Morte, Amor, ao tempo que revela um crescente amor pelo valor da palavra poética, a sua flexibilidade, sonoridade e conteúdo. Pensa que Guerra da Cal é um poeta de incomum magnitude, mas que mal se conheceu na Galiza, e num tempo pouco propício, no que a chamada poesia social era a moda; e a sua fulgurante personalidade como estudioso da literatura cegou-nos em certa maneira, impedindo-nos contemplar o grande poeta que é. Custa a crer a estultícia dos meios “oficialistas” na Galiza, sistematicamente preterindo ou ignorando totalmente este poeta galego de estatura mundial.
O musicólogo e especialista em folclore galego-português José Luís do Pico Orjais foi apresentado por Isabel Rei, professora do Conservatório de Santiago; o orador falou, em «Ernesto Guerra da Cal e a Música», sobre a relação do homenageado com a música, que confirmou o seu filho. Tinha bom ouvido, cantava bem, podia tocar acordes e acompanhar-se com a guitarra, e aprendeu a tocar a gaita. Orjais analisou o formoso poema dele dedicado a este instrumento. Depois mostrou os poemas que têm sido musicados por diversos compositores, um deles, “Colóquio”, é protagonista da obra homónima do brasileiro Mozart Camargo Guarnieri, composta para conjunto instrumental e coro. Pudemos escutar a peça de Vicente Asencio, um dos melhores compositores peninsulares do século XX, e uma versão do poema de Lorca “Cantiga do neno da tenda” interpretada por Xoan Rubia (http://cancionypoema.blogspot.com/2011/05/parabolas.html)
O segundo dia esteve orientado à lexicologia e lexicografia, com alguns dos mais importantes lexicógrafos da língua portuguesa. José-Martinho Montero Santalha, presidente da AGLP, tratou da «Problemática do léxico galego», referenciando vocabulários de séculos passados, de Olea, Sarmiento, Sobreira, Cornide, Paizal, Segovia, e Leite de Vasconcelos, recolhidos com diferentes critérios lexicográficos.
Evanildo Bechara, o académico responsável pela Comissão de Lexicologia da Academia Brasileira de Letras (ABL), apresentou alguns aspetos do «Acordo Ortográfico: O interior e o exterior», sem poupar os mais controversos em Portugal, como os grupos cultos, ou as ramificações complicadas do AO, como as do hífen, ou grafias ainda discutidas por alguns, como “açoriano” ou “caboverdiano”, com “i” e não com “e”.
Foi de grande interesse a comunicação do professor João Malaca Casteleiro, da Academia de Ciências de Lisboa (ACL), «A norma galega do português e a Lusofonia», tema estrela do Seminário; “norma galega do português”, “variante do português”, “português galego”, foram algumas das caraterizações do conjunto supradialetal codificado das falas galegas; nos debates desta e outras comunicações fez-se referência a essa norma, em construção, que é hoje aceite por todas as pessoas que seguem a filologia clássica e perspetivam um futuro para a língua da Galiza.
José Pedro Ferreira, do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), de Lisboa, veio apresentar pela primeira vez na Galiza «O Vocabulário Ortográfico do Português: critérios, ferramentas e resultados», do léxico oficial de Portugal, bem como a sua colaboração com o IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa, órgão da CPLP) na elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum.
Numa primeira Mesa Redonda, Isaac Alonso Estraviz falou-nos do Dicionário Estraviz e os trabalhos para a sua atualização. António Gil apresentou a última atualização do Léxico da Galiza dicionarizado da Comissão de Lexicologia da AGLP, e falou da sua inclusão em dicionários gerais da língua portuguesa (Priberam e Porto Editora), frisando algumas hipóteses etimológicas. Carlos Durão falou brevemente da parte logística, do trabalho no dia-a-dia entre os membros da Comissão, ligados digitalmente, e também frisou alguns exemplos da norma galega, lexicais, sintáticos e ortoépicos.
Na segunda Mesa Redonda foi apresentada a novidade do Arquivo Digital da AGLP, por Celso Álvarez Cáccamo e Vítor Lourenço, que fizeram um percurso pelas virtualidades desta útil ferramenta (http://www.academiagalega.org/info-atualidade/arquivo-digital-da-academia-galega-dalingua-portuguesa.html).
Nessa mesma Mesa Redonda, Ernesto Vasques Souza fez o lançamento de publicações da Coleção Clássicos da Galiza: Queixumes dos Pinhos, edição de Ângelo Brea, e Cantos Lusófonos, edição de José Luís do Pico Orjais; também foi apresentado o Boletim da AGLP número 4 (em homenagem a Malaca Casteleiro, como o no. 3 fora a Evanildo Bechara), cuja direção se deve a António Gil, com diagramação e edição de Joám Evans e Iolanda Mato.
Estas publicações estavam à venda na mesa da Através Editora, na sala do Colóquio, como também uma breve antologia da obra poética de Guerra da Cal, preparada Carlos Durão, junto de outras novidades editoriais.
Também se registou o som de todo o evento, diversos vídeos e fotos do Colóquio (https://p i c a s a w e b . g o o g l e . c o m / 1 0 5 6 8 0 8 7 8 1 3 3 0 4 6 1 0 6 4 9 0 /
IColoquioGuerraDaCalESeminarioDeLexicologia11E12DeOutubroDe2011#), que servirão para elaborar uma vídeo-reportagem, e várias vídeo-entrevistas a alguns dos oradores.
Os académicos Concha Rousia, Isabel Rei e Ângelo Cristóvão também participaram ativamente no Colóquio, na sua organização, no relacionamento entre os intervenientes e nas importantes tarefas de logística.



obrigado, caros argonautas: para mim, o mais importante (além desta “incompreensível” [por muitos] magnífica obsessão pelo português galego de 30 “tolos” da AGLP…) é a valentia com que Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara desafiam o “establishment” universitário acima a abaixo da Raia, no melhor espírito continuador do saudoso Rodrigues Lapa.Lá chegaremos. Imo-la andando!Carlos