Atlântida – por Carlos Loures

 

Platão, em Timeu e a Natureza e em Crítias, referiu a existência de um misterioso continente perdido. Desde então, o mito da Atlântida tem inspirado narrativas de toda a espécie e mil e uma teorias. Uma delas, situa a Atlântida na região da Macronésia, que abrange as Canárias, a Madeira, Cabo Verde e os Açores. Estes arquipélagos seriam os pontos mais elevados do continente tragado pelo oceano devido a uma catástrofe – as hipóteses vão desde o Dilúvio, a uma bomba nuclear, talvez lançada por extra-terrestres… A Atlântida nunca mais deixou de ser procurada. O que muita gente talvez ignore é que esteve para ser proclamada uma “República da Atlântida”.

 

 

No quinto ano da Ditadura Militar, em Abril de 1931 eclodiram na Madeira, nos Açores e na Guiné, revoltas contra o Governo. Salazar, ainda ministro das Finanças, impusera medidas que, tentando restringir os efeitos da recessão mundial, obrigava as pessoas a grandes sacrifícios para resolver problemas básicos de subsistência. As medidas de austeridade eram tão violentas que os militares se puseram ao lado da população civil. O plano era às revoltas insulares se juntar a de unidades continentais. Um directório de refugiados políticos em Paris, coordenava as operações. O levantamento foi prontamente jugulado na Guiné e nos Açores.

 

 

 Na Madeira, os militares, gozando de amplo apoio popular, resistiram durante dias às tropas e aos navios de guerra enviados do continente. Os revoltosos ponderaram, em dado momento, proclamar a independência da «República da Atlântida». No continente as coisas atrasaram-se e só em 26 de Agosto rebentou em Lisboa uma outra revolta militar e civil – derrotada também. A revolta da Madeira, feita por militares, em maioria continentais colocados nas unidades sediadas na ilha, foi a primeira ameaça de secessão que dali nos chegou. Mas não foi a última – o presidente da Região Autónoma e os seus apaniguados, agitam quando lhes convém o fantasma do separatismo. Quererão os madeirenses ser independentes?

 

Conheço razoavelmente o arquipélago e, na minha opinião, madeirenses e porto-santenses, com as suas especificidades dialectais, culturais, como acontece com beirões, minhotos ou alentejanos, são tão portugueses como todos os outros. A ideia da independência madeirense só me parece ter sido defendida por Muammar Kadhafi e por Jardim. Por outro lado, seria a independência da Madeira economicamente sustentável? Penso que não, pelo menos mantendo os padrões de vida actuais. Dizia há dias um responsável do PSD, no branqueamento sistemático que se faz às suas tropelias, que Jardim é um «político peculiar». Peculiar é, sem dúvida – um estilo arruaceiro, boçal, de total falta de respeito por quem não pensar como ele, são as traves mestras dessa peculiaridade.

 

Quem é então este homem que provoca uma agitação que apenas é explicada pela incontinência verbal, por um sinuoso oportunismo e pela pacovice dos media que servem de caixa de ressonância aos seus dislates. Dispenso-me de lhe referir a biografia. Dela, o único aspecto assinalável é o de que, quando se deu o 25 de Abril, Jardim tinha 31 anos, não sendo, portanto uma criança. Mas nunca ninguém ouvira falar dele. O gosto pela democracia, só lhe veio quando ela deixou de fazer doer Porque Alberto João Jardim é um fanfarrão, uma personagem burlesca e boçal. A coragem truculenta que agora manifesta a desafiar os poderes da República, teria sido bonito que a tivesse posto ao serviço da luta pelas liberdades democráticas antes de 1974 – mas isso «era perigoso»! Esteve na Câmara Corporativa, parece que andou pelas instâncias dirigentes da Mocidade Portuguesa, mas nunca militou em qualquer movimento democrático, por mais conservador que fosse. A «córagem» (como ele diz) só lhe chegou quando a liberdade, conquistada por «cubanos», lho permitiu. Até certo ponto, quem tem feito a sua celebridade são os jornalistas, os “bastardos” – fala-se demasiado de uma pessoa que não tem importância específica. Tem a importância que amigos e, sobretudo, adversários, lhe conferem. De certo modo, assumiu a espessura e a dimensão de um mito. Menos belo que o mito do continente perdido. Porém, se os atlantes são como Jardim, é melhor deixarmos de os procurar – é que podemos encontrá-los.

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